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pensamento, crítica e criação

75

23 Set. 1999

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Corunha
Galiza

 

Imaginar Timor Leste

Benedict Anderson

[Tradução de Osvaldo Manuel Silvestre]
Reproduzido de Ciberkiosk e de Arena Magazine 4, Abril-Maio 1993

Por que razão falhou a tentativa da Indonésia para absorver Timor Leste? E como explicar o tão rápido desenvolvimento do nacionalismo timorense desde 1975? Benedict Anderson, autor de Imagined Communities, argumenta que a Indonésia não consegue imaginar os timorenses de leste como indonésios. As suas relações com eles são de colonizador a colonizado, dando origem ao nacionalismo timorense assim como o colonialismo holandês em tempos deu origem ao nacionalismo indonésio.

    Desejo fazer duas perguntas bem concretas, as quais todavia envolvem uma certa problemática teórica comum. A primeira pergunta é: Por que razão falhou a tentativa indonésia para absorver Timor Leste? Era o falhanço inevitável ou algo aconteceu entre 1975 e 1990 que podia ter sido evitado? Qual a natureza dos erros cometidos, se é que de facto foram cometidos erros? A segunda pergunta é de algum modo a inversa: Como explicar o tão rápido desenvolvimento do nacionalismo timorense? Para mim esta segunda questão é muito séria. Os meus escritos teóricos sobre o nacionalismo têm-se focado na importância da difusão da imprensa e na sua relação com o capitalismo, mas em Timor Leste sempre houve muito pouco capitalismo e a iliteracia era geral. Como se não bastasse, Timor Leste é etnicamente muito complicado, com diversos grupos de línguas. O que foi então que tornou possível "pensar Timor Leste"?

     A primeira questão surgiu-me quando estive em Portugal em 1992. Entre os meus colegas portugueses corria então uma discussão sobre o depoimento do General Costa Gomes. Ele foi uma das figuras decisivas dos governos portugueses de 1974-76, à data do colapso do império português, e uma das mais responsáveis pelas decisões tomadas sobre Timor Leste. No seu depoimento, dizia que ele e os seus amigos pensavam que Timor Leste seria como Goa - que seria pacífica e facilmente absorvido pela grande Indonésia, tal como Goa foi absorvida pela grande Índia. Defendia ele que se Jacarta não tivesse sido tão brutal, se o exército indonésio não tivesse sido tão opressivo e explorador, não haveria hoje uma problema de Timor Leste. Assim sendo, a tragédia de Timor Leste não era de sua responsabilidade nem do governo português. Timor Leste podia facilmente ter-se tornado uma parte feliz, vibrante e participativa da Indonésia. Contudo, o depoimento de Costa Gomes, no fundo, não nos ajuda muito, já que não explica a brutalidade e o carácter explorador da ocupação indonésia.

       Neste ponto, vemo-nos confrontados com uma questão que respeita não apenas à Indonésia, mas abarca toda a problemática de como as nações se imaginam a si mesmas no final do século XX e de quais são as reais possibilidades de as nações crescerem em tamanho em vez de se desagregarem em pedaços mais pequenos. Temos assistido muito a isso na Europa de Leste e suspeito de que mais do mesmo irá ocorrer no futuro noutras regiões, numa espécie de redução geral de escala da imaginação nacional - uma incapacidade de avançar para uma inclusão e incorporação genuínas. No caso específico da Indonésia, é necessário inquirirmos sobre o modo como a liderança militar em Jacarta pensa sobre o território e os povos que eles decidiram ser «indonésios». Como é evidente, a grande dificuldade tem sido a de se persuadirem a si mesmos de que os timorenses de leste são «mesmo» indonésios. Se o fossem, bastaria a tarefa simples de raspar uma espécie de estranheza superficial atribuível à colonização portuguesa, revelando um «indonesianismo natural» por baixo.

     O nacionalismo indonésio vê-se a si mesmo, de modo auto-consciente, como incorporando ou abrangendo grupos étnico-linguísticos variados e diferentes culturas religiosas, aquelas aglomeradas ao longo de séculos nas Índias Orientais holandesas. O elemento comum da «Indonésia» está fundamentalmente relacionado com a experiência histórica e a mitologia. Por um lado, existe uma ideia de séculos de luta contra o colonialismo holandês. Por outro lado, existe o mito, poderoso mas também potencialmente criador de divisões, de grandes estados pré-coloniais, sendo o mais notável o Majapatit, nos séculos XIV e XV. O «império» Majapatit tem a vantagem de que as suas fronteiras um tanto indefinidas podem ser interpretadas para incluir todo o Timor, assim como regiões hoje partes solidamente integrantes da Malásia e de Singapura. Tem contudo a grande desvantagem de estar intimamente identificado com apenas um dos grupos étnicos indonésios, o javanês. Daí o facto de os líderes estatais terem sido muito cautelosos quanto ao seu uso como uma base fundadora da identidade histórica da Indonésia moderna.

     Para Jacarta, portanto, a questão reside em como recompor a narrativa nacional popular de modo a incorporar nela os timorenses de leste. Tal não pode ser feito em termos de resistência ao imperialismo holandês. Nem pode sê-lo nos termos dos sólidos contactos históricos com o resto do arquipélago, pois uma das características peculiares do colonialismo português residiu em que ele manteve Timor Leste extremamente isolado, à excepção de ligações entre Portugal, Macau, Moçambique, Angola e Goa. A alternativa óbvia a um nacionalismo historicizado é, como é evidente, um essencialismo biológico-étnico. Em princípio Jacarta podia dizer: "Afinal, nós temos os mesmos traços físicos, as nossas línguas estão relacionadas, as nossas culturas originárias eram idênticas". Mas esta linha de argumentação é traiçoeira, pois conduz a pretensões, hoje inaceitáveis, a territórios das Filipinas ou da Malásia.

      Creio que o resultado tem sido uma profunda incapacidade para imaginar Timor Leste como indonésio. E se não se é capaz de imaginar os timorenses de leste como "irmãos" de verdade, o que fazer? Falei recentemente com um timorense de leste muito inteligente sobre as suas conversas com outros timorense de leste, estudantes das universidades indonésias. Existem pelo menos uns dois mil estudantes nessas condições. Muitos deles desistem, em parte por problemas de língua, mas sobretudo em resultado do que sentem como um clima social intolerável. Disse-me ele que o que realmente enfurece os estudantes de Timor Leste é que estão sempre a ouvir dizer-lhes o quão ingratos eles são. "Vejam tudo o que fizemos por vós! Aonde está a vossa gratidão?", eis o que ouvem dias a fio da parte de decanos, professores, colegas, etc. É como se no auge do nacionalismo indonésio as pessoas corressem o país, dizendo aos indonésios que alistavam para a causa nacionalista, que eles deviam sentir-se "gratos". Mesmo nos anos 50, quando a Indonésia foi abalada por várias revoltas regionalistas, a acusação de ingratidão nunca veio à tona. Na altura, a acusação ouvida de todos os lados era, tipicamente, de "traição" de um projecto histórico comum. Por contraste, a "ingratidão" era uma acusação típica dos oficiais coloniais holandeses contra o nacionalismo "nativo": "Vejam só tudo o que fizemos aqui por vós, na segurança, na educação, no desenvolvimento económico, na civilização". A linguagem é a do superior e civilizado em relação ao inferior e bárbaro. Não anda muito longe do racismo e revela uma profunda incapacidade para "incorporar" os timorenses de leste, um sentimento não reconhecido de que na verdade eles são estrangeiros.

     Pode-se argumentar que esta posição é demonstrada pelos métodos extremistas de domínio que foram usados em Timor Leste após a invasão de 1975. A vasta escala de violência usada, o uso de bombardeamentos aéreos, o uso de napalm sobre aldeias, o arrebanhar sistemático de populações em campos de acantonamento, o que tudo conduziu às terríveis fomes de 1977-80, não têm contrapartida real nas políticas do governo indonésio em relação, digamos, aos "verdadeiros indonésios". Mais parecem políticas para inimigos do que para nacionais. É verdade que houve violência maciça na campanha anti-comunista de 1965-66. Contudo, o grosso dessa violência foi de carácter local, alimentada pelo pânico de milhões de pessoas sobre o que lhes iria acontecer e às suas famílias "se o comunismo vencesse". Ela tinha em si, certamente, um elemento de fria planificação, mas nada comparável à frieza e planificação da devastação de Timor Leste, a qual me lembra em muito a horrífica depredação levada a cabo pelos "agentes espectrais" de Leopold, no Coração das Trevas de Conrad. Conrad insistiu em que para esses agentes todas as regras civilizadas eram abandonadas em "África". Aí, atrocidades que nunca lhes seriam permitidas na Bélgica, eram admitidas.

       É certamente verdade que Timor Leste colocava problemas muito especiais a Jacarta. Uma parte substancial da população fora há muito convertida ao catolicismo. Além do mais, devido ao facto de Portugal ser membro da NATO, a resistência timorense tinha melhores armas e treino militar, no início, do que qualquer anterior oposição local a Jacarta. Ela resistiu ferozmente e muitos milhares de soldados indonésios foram feridos ou mortos em combate, estimulando uma forte atmosfera de zona de combate no território. Por outro lado, a guerra dura agora há dezassete anos - o que é mais do que qualquer outra guerra já conduzida por Jacarta. Isto significa que Timor Leste tem sido crucial nas carreiras dos oficiais militares indonésios. A maioria dos oficiais de maior sucesso e ambição lutaram em Timor Leste, e as suas promoções dependeram em parte do seu sucesso na condução de uma desapiedada repressão e controlo.

       O governo indonésio tem sido incapaz de incorporar Timor Leste imaginativamente, no sentido mais lato e popular. Ao longo dos anos tem-me surpreendido muitíssimo a forma extraordinária como Timor foi "fechado", não apenas ao mundo exterior, mas também ao resto da Indonésia. Até há bem pouco tempo, o indonésio comum não podia visitar esta parte oficial do seu próprio país sem uma autorização especial. A cobertura jornalística de Timor Leste era excepcionalmente débil, e ainda mais falseada do que a cobertura mediática das outras partes da Indonésia. Foi assim possível a muitos indonésios não pensar muito em Timor Leste, e nem sequer saber dele. Em consequência, Timor Leste nunca conseguiu fazer parte do sentimento nacional popular. Este "vazio" é muito flagrante se o compararmos com a agitada província de Irian, onde Jacarta tem vindo a lutar há anos contra uma resistência quasi-nacionalista. Tenho agora em minha casa um rapaz de 19 anos, filho de um amigo meu, que terminou há pouco o liceu em Java Ocidental. Ele mal consegue recordar o nome de um único timorense oriental, mas conhece os de jogadores irianeses de futebol, de jornalistas, e é um grande fã de Ade, o popular travesti irianês comediante de TV. Irian tem uma presença imaginativa na Indonésia. Independentemente da forma como os irianeses são maltratados em Irian, para os indonésios no seu todo eles são parte de "nós".

       Uma última questão a levantar antes de abordarmos o nacionalismo timorense tem a ver com o problema da imaginação. Terão os militares indonésios alguma vez considerado a hipótese de estarem a pôr em prática, de modo invertido, a trajectória final da relação colonial entre eles e os holandeses? Os holandeses estiveram no arquipélago desde o início do século XVII, mas um movimento nacionalista reconhecível não apareceu senão no fim do século XIX ou o início do XX. O seu despontar está claramente ligado à decisão dos colonialistas holandeses de começar a educar as pessoas, especialmente em holandês, à difusão dos meios de comunicação modernos, a projectos de desenvolvimento "maciços", e ao crescimento de uma polícia secreta profissionalizada e ao seu aparelho de investigação. Pela primeira vez, desde 1900, os nativos tomaram consciência de si mesmos. As pessoas eram o alvo de um aparelho de segurança sistemático e centralizado. Tinham agora consciência de estarem sujeitos a um projecto de desenvolvimento único, e de terem em comum, na mente dos seus governantes, o seu inerradicável "carácter nativo". Por meio da língua holandesa que lhes foi imposta nas escolas, acabaram por entender a própria ideia do colonialismo como sistema e quais os meios modernos para se emanciparem dele. Como é que o governo indonésio não entendeu que a Educação-Repressão-Desenvolvimento em Timor Leste seguia exactamente a mesma lógica das anteriores políticas holandesas, e que o seu falhanço estava "previsto" no próprio nascimento moderno da Indonésia?

       Passo agora à questão de saber por que razão Timor Leste se tornou nacionalista tão depressa. Neste ponto as respostas são muito menos claras. Tudo começa com o próprio nome: "Timor Leste". É uma expressão que provém do mapa de Mercator, no qual uma linha administrativa a lápis divide Timor ao meio. Como pôde esta demarcação "aérea" tornar-se uma realidade tão real que é possível os jovens de Díli julgarem que é perfeitamente normal chamarem-se "Timorenses de Leste", como se essas duas palavras fossem uma só, sem apontarem imediatamente para "Timor Ocidental"? No vídeo do massacre de Dili, os placards dos adolescentes exibem slogans como "Viva Timorleste" – numa palavra apenas. As origens desta nova consciência derivam certamente em parte de uma imaginação burocrática que antecede em muito a invenção do nacionalismo. É análoga à forma pela qual (como defendi no capítulo 9 da nova edição do meu Imagined Communities) os Irianeses foram imaginados ou nasceram, talvez apenas nos últimos 30 anos. E contudo, a "imaginação mapeada" não é uma explicação suficiente. E quanto à questão da formação social? Se observarmos a situação até 1974-75, deparamo-nos com uma ordem colonial tipicamente ibérica. Sob o estrato dominante português havia, por ordem hierárquica, chineses ricos e apolíticos, os então mestiços de ascendência mista africana, árabe, portuguesa e local, e uma plétora de comunidades etnolinguísticas "nativas". Poder-se-ia esperar que dessa ordem social emergisse algo como aquilo que se encontra nas Filipinas: chefes com uma ambígua consciência política, muito conscientes das suas ascendências mistas e dos seus laços externos. Na verdade, entre os mais velhos líderes este-timorenses dos anos 70, encontrava-se com bastante frequência uma espécie de insegurança identitária e uma ligação ressentida às coisas portuguesas. Timor Leste era um lugar tão real como qualquer outro, mas existia então uma real comunidade "Este Timorense" da qual eles fossem os líderes naturais? A minha percepção é de que em 1974-75 o verdadeiro nacionalismo timorense tinha ainda uma ténue base de apoio; talvez apenas uma pequena percentagem da população pudesse então imaginar realmente o futuro Estado-Nação de Timor Leste.

     Desde 1975 a situação mudou dramaticamente. A questão está em saber porquê, dada a virtual ausência de capitalismo e imprensa e a ainda substancial iliteracia. Numa recente entrevista à Editor, uma grande revista de Jacarta, o General Sjafei, comandante militar de Timor Leste, disse algo de muito revelador. Ao descrever as medidas tomadas para desviar o Lusitânia, o navio que tentou ir até Dili, via Darwin, com um grupo de estudantes e repórteres a bordo, ele referiu que o barco em si não era perigoso, mas foi dizendo que se ele conseguisse ancorar no porto de Dili, "eu poderia deparar-me com 120.000 habitantes da cidade de Dili" e "dadas as circunstâncias, eu não poderia garantir que não houvesse uma explosão de massas". Esta linguagem é completamente nova. Nunca o exército falou anteriormente em "explosões de massas" em Timor Leste ou de que se confrontava como "120.000 pessoas em Dili". Ao longo dos anos o exército proclamou que apenas umas dúzias de irredutíveis opositores existiam no interior montanhoso. O depoimento de Sjafei é claramente o de uma potência colonial de súbito consciente da sua derrota iminente. É idêntico ao reconhecimento holandês em 1946 de que a Indonésia tinha mudado completamente desde 1940, altura em que o seu poder parecia inabalável.

     Regressamos aqui à lógica irónica do colonialismo. Se atentarmos nos discursos oficiais sobre Timor Leste, vemos Suharto ou os generais a falar sobre esse povo apenas como "timorense de leste", apesar de na região existirem pelo menos trinta grupos étnicos ou tribais. Da mesma forma, o regime de Jacarta nunca fala dos Asmat ou dos Dhani, mas exclusivamente dos Irianeses. Isto é um análogo muito exacto das Índias Orientais holandesas, em que os colonizados sabiam que eram todos "nativos" aos olhos dos seus dominadores, qualquer que fosse a ilha, a etnicidade ou a religião a que pertencessem. Um profundo sentido de uma identidade comum emergiu do véu do estado colonial. O poder indonésio é infinitamente mais penetrante, infinitamente mais espalhado do que o poder colonial português alguma vez foi. Ele está nas aldeias mais pequenas e é representado por centenas de postos militares e por um enorme aparelho de recolha de informação. A consciência de se ser timorense oriental aumentou rapidamente desde 1975 devido, precisamente, à expansão do Estado, do qual faziam também parte as novas escolas e os projectos de desenvolvimento.

     Um dos principais projectos do estado de Suharto foi o de "desenvolver" a Indonésia. Isto envolve necessariamente um certo tipo de definição do que significa ser um verdadeiro indonésio. Parte dessa definição decorreu dos massacres anti-comunistas de 1965-66, que foram em parte entendidos como uma luta contra o ateísmo. Em consequência, hoje todo o indonésio tem de seguir uma religião do Livro. Neste ponto, o estado indonésio acaba enredado numa estranha ratoeira. Em 1975 a maioria dos timorenses era ainda animista. Fazer deles "indonésios" significou "erguê-los" do animismo a uma religião decente, o que, dadas as realidades existentes, significou Catolicismo. Ao mesmo tempo, o Estado estava perfeitamente consciente dos perigos da implantação do catolicismo, sobretudo devido ao facto de Roma insistir em tratar directamente com Timor Leste, ultrapassando a conformista hierarquia católica indonésia. Assim, o regime indonésio a um tempo desejou e receou o alargamento da influência do catolicismo. Nos últimos dezassete anos, a população católica do território mais que duplicou de tamanho. Em Timor Leste todos sabem que se se é membro da Igreja católica, beneficia-se de protecção de acordo com a própria lógica do estado; ao mesmo tempo desenvolveu-se um catolicismo popular como expressão de um sofrimento comum, tal como sucedeu na Irlanda do século XIX. Este elemento comum católico num certo sentido substituíu aquele tipo de nacionalismo de que falei noutros lugares, o qual deriva da articulação entre imprensa e capitalismo. Além do mais, a decisão da hierarquia católica em Timor Leste de usar Tetum, e não indonésio, como a língua da Igreja, teve efeitos profundamente nacionalizadores. Transformou o Tetum, de uma língua local ou língua franca em certas partes de Timor Leste, na língua da religião e da identidade de Timor Leste.

       Mas existe ainda, subjacente, uma última ironia colonial. Para os jovens intelectuais indonésios na viragem do século, a linguagem do colonizador, o holandês, foi a linguagem pela qual se tornou possível comunicar através da colónia e compreender a verdadeira condição do país. Foi também a língua de acesso à modernidade e ao mundo para além da colónia. Por uma geração pelo menos, o holandês desempenhou a função absolutamente essencial de arrastar os nativos para fora das prisões das línguas étnicas locais. Da mesma forma, o alargamento do indonésio no sistema escolar patrocinado por Jacarta, criou uma nova geração de jovens timorenses que são muito fluentes em indonésio e que, por meio do indonésio, acederam ao mundo para lá da Indonésia. O indonésio não é a língua da solidariedade interna entre os timorenses de leste, mas é uma das línguas importantes de acesso à vida moderna. A relação indonésio/tetum corresponde em 1990 à relação holandês/indonésio em 1920.

Benedict Anderson ensina política indonésia na Cornell University. Entre outros livros, é autor de Imagined Communities: Reflections on the Origins of Nationalism [Nação e consciência nacional, São Paulo, Ática, 1989]. Este artigo é baseado numa conferência na Monash University em 1992.

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