Í n d i c e

Çopyright
pensamento, crítica e criação

76

2 Dez. 1999

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/

Corunha
Galiza

 

A consciência incessante
Apontamentos para o debate entre dever e querer

Sílvia Capom

     Dadas as circunstâncias em que se desenvolve o processo de socializaçom das pessoas, tanto no âmbito público, como no privado, temos que assumir que, em termos científicos e polo de agora, desconhecemos as implicaçons reais da herança biológica no comportamento de mulheres e homens. Damos por suposto que estas heranças nom existem, mas isto é pura hipótese sem demonstraçom por nom existirem de momento indivíduos genéricamente nom marcados. Explico-me: as mulheres nascemos biológicamente fêmeas, os homens nascem biológicamente machos. Mas, na medida em que a socializaçom inclui a a assunçom de pautas sociais de género (quer-se dizer, que ao sexo vam unidos certos comportamentos sociais, e, por tanto, adquiridos) que atingem todos os âmbitos, desde o laboral até a sexualidade passando por muitos outros, e dado que nom existe até hoje um âmbito de socializaçom nom marcado genéricamente, desconhecemos o alcance das influências biológicas. Estamos ainda no estádio intuitivo, apenas formulada a hipótese, pola mesma razom pola que, para já, nom podemos ser indivíduos sem mais, mas apenas mulheres e homens. E há duas maneiras fundamentais de nós reagirmos perante a nossa condiçom de mulheres: mantendo adormecida a consciência sobre a nossa exploraçom, ou acordando-a. Mas fazer acordar a nossa consciência é necessáriamente sinónimo de sofrermos ( já diz o refrám que olhos que nom vem coraçom que nom sente) para, contudo, continuarmos sem resolver o enigma de se estamos a agir como indivíduos ou como agentes dessa consciência. Se agimos por vontade ou por dever. Se os nossos actos som estéticos ou éticos.

     A este conflito de géneros aparecem ligados, entre outros de importância, dous conceitos: o do poder e o da responsabilidade. Nem os homens nem as mulheres somos indivíduos plenos, absolutos, no sentido social do termo: estamos predeterminados pola absorçom do modelo sexista. Poder e responsabilidade, entre outros, som dous aspectos que separam homens e mulheres nom apenas nos seus comportamentos, senom mesmo na sua percepçom da realidade, no modo como construímos o nosso conhecimento do mundo.

A responsabilidade

     A mulher sente-se vinculada irremediávelmente ao exercício da responsabilidade. Todos os âmbitos som para ela âmbitos de exercício da mesma, âmbitos de pseudo-trabalho: a relaçom amorosa na que ela é responsável polo companheiro (nos pares heterossexuais polo menos), o doméstico, a família (descendência e ascendência com laços de sangue ou nom), o laboral e até o tempo de lecer dedicado aos mais. Isto constata-se no facto de que na mentalidade tradicional a mulher virtuosa é a que nom tem tempo livre. A incorporaçom à sociedade das mulheres constrói-se sobre a imitaçom do modelo materno: o compromisso com inúmeras e impensáveis responsabilidades, que leva a ver nos objectos do conhecimento nom apenas o que som, mas o que significam em termos da responsabilidade que se tem sobre eles: essa roupa “que há que lavar”, essa cama “que há que fazer”, esse filho “que há que pentear”, esse frigorífico “que há que encher”... essa é a percepçom torturadora da imensa maioria das mulheres, vinculada ao dever e ao âmbito privado.

     Quando essa responsabilidade, essa violência exercida sobre umha mesma, se combina com o papel da mulher como objecto sexual e se complementa com um mundo onde a imagem joga um papel fundamental para conseguir a integraçom, entom favorece-se o sentimento de frustraçom e potenciam-se doenças como a anoréxia que ponhem em perigo a própria vida e que apresentam entre as suas vítimas um 90% de mulheres.

Se acrescentamos a esta noçom de responsabilidade as noçons kantianas de espaço e tempo (como condiçons prévias necessárias de existência mas sobretudo epistemológicas) podemos ver como o pensamento genérico afecta até à estética trascendental, o supostamente apriórico: a mulher tem assignado o espaço vital ao privado (em que se reflecte a procura da segurança e a personalidade dependente que isto implica), e tem assignado o tempo ao exercício da responsabilidade, das obrigas. Que é o que fica do indivíduo, nestas condiçons? Pouco ou nada. Onde vai parar a vontade, o querer, o desejo íntimo? Ao cárcere das renúncias.

     Paradoxalmente, assumir a via da consciência e a libertaçom, converte-se num degrau mais no caminho da responsabilidade que para as mulheres foi desenhado. Nem sequer para nos libertar podemos prescindir dela; antes bem, ela e um certo sentido ético do dever som fundamentais para contrarrestar os efeitos perniciosos da personalidade educada na dependência, do particular medo à liberdade e a independência que as mulheres experimentamos. É imprescindível exercitarmos essa sentinela para luitarmos contra as próprias renúncias, contra a própria violência.

O poder

     O exercício do poder está indissociávelmente ligado ao homem como algo inerente à sua condiçom masculina. Isto manifesta-se nom apenas no terreno público, no económico, político, laboral, etc., senom tamém no exercício do poder familiar que é a autoridade, ou de qualquer outra forma de poder. Noutro aparente paradoxo, só o homem tem o poder de nom exercer o poder, e mesmo ao nom exercê-lo continua exercendo-o porque só el pode fazer essa escolha (por isso, entre outras razons, é injustificável soster que a galega é umha sociedade matriarcal: o homem é quem ostenta a autoridade familiar em última instância). Mas, justamente por detentarem o poder, as mudanças no comportamento genérico dos homens tenhem repercusons muito mais imediatas e visíveis que as das mulheres. As acçons do homem som acçons em positivo, enquanto as acçons da mulher som maioritáriamente em negativo: consistem na inibiçom de responsabilidades (e actitudes) que nom lhe correspondem em termos de estrita justiça e que tende a colocar sobre o seu lombo nesse contínuo exercício de violência contra si própria que caracteriza o seu comportamento. Se positivas, as acçons da mulher precisam da ajuda das dos homens (por exemplo: umha mulher que pretenda aceder a círculos de poder tem que vencer a própria tendência contrária e ademais tem que contar com que os homens nom ajam de forma sexista respeito dela), se negativas (renunciar a cargar sobre si responsabilidades que nom som suas, omiti-las) precisa igualmente dos homens para assumirem as que lhes correspondam, ou senom a sua inibiçom será apenas um adiamento das responsabilidades e mais um contributo à sensaçom de impotência.

Os âmbitos

     Todos os âmbitos em que se desenvolve o sexismo e o modo em que a mulher age ou reage como tal, e nom como indivíduo forom já expostos por Simone de Beauvoir em Le deuxième sexe. De todos nós é conhecida a discriminaçom, a violência sexista nos terrenos público, laboral (discriminaçom salarial, existência de profissons masculinas e femininas, pressom estética no mundo laboral actual...), familiar (a frustraçom pola inexistência do príncipe azul, a vontade de ser contínuamente salvada em termos emocionais, a necessidade da aprovaçom paterna convertida em aprovaçom do companheiro, a dependência), sexual, etc.

     Sem embargo, à luz do exposto, parece necessário reflectirmos um pouco sobre o papel do próprio pensamento, as acçons e reacçons inconscientes, a própria consciência, a própria percepçom da realidade, para compreendermos que este é um dos aspectos mais difíceis de encarar, tanto para mulheres como para homens. Temos que assumir o compromisso ético de superar esta situaçom de injustiça. Ora bem, os necessários avanços só se poderám dar se os homens desenvolvem práticas empáticas e linhas de actuaçom éticas que ajudem a conseguir a nossa emancipaçom, e a sua própria. Mas para isso precisam os homens mais informaçom: lembrarem que nós temos menos acesso ao trabalho, que quando acedemos cobramos menos, que de vez em quando nos vemos obrigadas a aturar olhares, palavras ou mesmo que nos toque um desconhecido, que nos oferecem ascensos a câmbio de favores sexuais, que subestimam as nossas opinions por sermos mulheres, que cargamos com responsabilidades que som suas... precisam conhecer a contínua discriminaçom a que somos submetidas, e precisam imbuir-se eles tamém dumha pouca dessa perspectiva da responsabilidade.

 

A ideia para este número ocorreu-se-lhe a Çopyright a partir dos debates entre
a autora e outros e outras participantes da lista electrónica Galiza,
aberta à suscrição de qualquer pessoa.


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