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pensamento, crítica e criação

74

26 Julho 1999

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Corunha
Galiza

 

água tatuada

Jorge Fallorca

do livro água tatuada, uma edição de & etc, Lisboa, 1999

Toda a poesia tem lobos.
És vulnerável como tudo o que me entristece

Jim Morrison, in “An American Prayer


Como o olhar consome a demora, também a mão devora o livro em construção. Vigilância sitiada entre tábuas impressoras, desaguando num aquário de luz.
Ainda que acendam sombras, tudo quanto vejo é falso.



Água tatuada, desalojada pelo olhar das aves. Tudo o que acorda a argila tanspira no corpo da sombra. Canta na curva do sal.
O que me esquece jamais sossega a pele da tatuagem.



Eu via a respiração tactear o horizonte. Nada manchava o espelho do teu olhar. Nada cicatriza o país de cócoras para o mar retroactivo.
É na levedura do rosto que a paixão ecoa e a água encosta a luz.



Mais depressa que um labirinto órfão, o desejo sobra na memória e as canas ciciam na paisagem. Por enquanto, só a penugem da demência se orvalha junto à mão. Ou o rosto aquece a sombra.
Mesmo que a salamandra remende o fogo, a tatuagem nunca apaga a pele.



Possessão arqueológica, soterrada sob um borrão de musgo. Os cardos encostam a cabeça à luz. Os barcos descem ao átrio da areia. O ferro dorme sob a raiz do medo.
Só a água vela a penúria de um horizonte de lama ardente, como a cicatriz alastra ao vento.



A pele dorme na água. Respira enquanto o olhar dissolve a náusea, como uma súplica riscada na pálpebra das pedras. Órfã. Apátrida no alvoroço dos cristais. Sonâmbula nos túneis do vento.
Quanto mais se desce a pele da água, maior é o estertor das mãos. Por dentro.



Os dedos partem a água, como a tatuagem inaugura a insónia. Só o vento sobrevive no fim das águias. Quanto mais a pele se entrega ao corpo, menos se desperta a parede cega.
Eu gostava de poder dormir junto ao ar. Mas já não sei como atravessar o sono - mastigar - ou arrepender-me de estar vivo.



Redes de seiva calcorreiam as octanas da tarde. Depois repousam nos subúrbios do desejo: ardósia dando à margem.
Faúlhas que nascessem - ainda que ataviadas pela Lua - só cruzariam emoções periféricas.



A atmosfera assoma o pesadelo, eriça a carne. Sobre o napalm do sofá, a tatuagem elege o corpo locomotivo. E um comboio tresnoita a água.
Nada do que asseguro fará sentido, enquanto o sal da memória temperar a crueldade da paixão.



Só o gume da água segura este delírio atómico. Mesmo que uma janela cante na pele iluminada, adivinha-se uma matilha de pêlos. Sob a tatuagem.
Nem sempre o mar consegue adiar o rosto.



O olhar movimenta paisagens adolescentes. O vento é oblíquo. A tarde amadurece numa ladainha de nódoas. Mesmo o lodo não sabe que fazer da água.
É por isso - deve ser por isso - que tudo levita à passagem da tatuagem perplexa.



Ultimamente apoio-me muito na parede. Às vezes põem-me uma capa de sombras pelos ombros, de onde assisto ao meu futuro. E é a sorrir na água do teu olhar que te estendo um discurso de tábuas.
Já outros me disseram que não devemos descer à rua com rostos alugados.



Um filete de sangue apodrece-te a pele, aduba a tatuagem. E um piano aquece-me a voz, como o feno transmuta a água.
Embalado num delírio crepuscular, adormeço as mãos na restolhada do tacto, para te expor às tempestades da pele.



Percorro-te com a língua os labirintos do feno, até onde a cabeça escuta as respirações verticais do sangue.
Depois o leão abate a asa do lençol, e a panóplia do desejo não é para aqui chamada.



Morre-se a boca na tez crepuscular, um retábulo de ardósia e liquescência. Mesmo que o pavor urbanize o desejo, com seus exércitos de fantasmas e hálitos podres, descubro-me de um belicismo que aterroriza a caça e coabita com as feras.
O sol é um tigre ferido às portas do sono.



Tem por única dor o rosto. Tudo o resto é a progressão do medo, a duplicidade da voz no deserto da pele. Nunca outra ave me doeu no peito, como o voo adiado ou interrompido sob o sangue.
Eu trabalho para que o teu sexo me amordace num beijo mortífero e demorado.



Como a tatuagem esmaga a pele, nada me recorda o veneno dos teus odores. Sacudo o pó do coração, o enxofre dos lábios. A subtileza de uma pétala de gelo, acordada no teu vulcão.
Assim como te evoco no saldo do desejo, somos cruéis até onde se morde a voz.



Arde-me o corpo na cabeça onde não estou. Devagar e tarde. Percorri o desejo até às portas do vento. Quando o feno respira alto e a pele devolve a febre.
Nada mais segura esta doença, onde me acolhe a bússola escancarada da tua gare.



Entrego a tatuagem aos dias. Que se pergunta como regressar à pele. Porque a água foi percutida pela ansiedade. Sitiada pelo egoísmo. E ocupada depois, pelo remorso.
Já nenhuma respiração me entala a cabeça, entretanto exilada noutros fogos. Chove, e eu também não sei porque é que as sombras não têm cor.



A luz afia o gume do teu corpo. Para que a tatuagem veja a lepra sabotar a pele, onde correm os bastidores do desejo.
Adormece nos mapas do lençol. Para que o sangue sacie a erosão do medo.



Agora - que pouco ou quase nada me sobra de ti, que o sol não saiba - aterroriza-me a volúpia do esquecimento.
Acontece-me ouvir repetidamente a mesma vaga, como se dentro de mim chocalhasse uma urze de sal.



Por vezes ainda me apanho a soletrar o anonimato. A escutar o vento nas veias.
Prefiro demitir-me a cheirar a cicuta da memória.
Se não mentisse, diria que me sobra uma janela de resina e asfalto. E não vou demorar-me a perceber se posso ou não ser de outra maneira.



E enquanto a herança pendular do cio repousa na água, as cabras retalham o basalto.
Na tradição das sombras, o feno distrai a noite.
Que se quer plana, e se exige quente à dobragem dos sentidos.



Tanto quanto se me cola a voz à tua pele, assim se decantam os cheiros. Se fustiga o vento na penumbra húmida. E onde se recortar o sangue na poalha da neblina,
descobrirás as tribos onde decalcaste a paixão e o sono.
Tudo já foi dito e redito, para que o corpo não sature mais a vigilância.



Quando Setembro se faz ao mar, a água trepa pela labareda plúmbea. O barro aquece as mãos, e o olhar esfola o sarro da memória. Na poalha dos crimes acordados, boceja um coração atónito.
Ainda fará sentido projectar-me sobre as arqueologias da ternura?

 

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