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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 6


18 Junho 1996    http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait     Corunha - Galiza

Com data de 1995 saíu à luz na Corunha um volume de poesia
que contém o trabalho poético do grupo Hedral,
reunido ao abrigo da agrupação cultural
O Facho.
O livro, singelamente intitulado 7 POETAS, distribuíu-se gratuitamente.
No mesmo espírito livre e não comercial,

Çopyright continua neste número a reprodução sem fronteiras
da obra dos sete poetas.

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7 POETAS

José António Lozano

Nocturnos indígenas

À Ofelia, à memória vigilante dos corações

NOCTURNO
RITUAL
ENSONHO
POEMA
INICIAÇÃO
POEMA
CONSELHO ANTIGO
POEMA
POEMA
POEMA

Fim Fim de Çopyright 6


NOCTURNO

Como a raiz cega dos pirilampos
convoco o velho ardor
atado ao vinho ao gesto ao rosto
ao cântaro partido pela dança
e algo vibra como o vento norte
os sonhos
as árvores antigas
o fluir ósseo das canções
embebem o meu canto

Percebo a cegueira da mão
a noite perdida pelos faróis
uma estrela cravada nos pulmões
de prata
pelo rio dos bonecos de fósforo
uma aranha que cegamente canta
e os lábios dormidos nas moedas
enterradas no jardim

Mas as cidades fundas nos estremecem
velhos astros que subindo pela imagem
esperam a morte em cada janela
uma luz que se apaga
ouvindo os violinos da recordação
nos olhos mais tristes
das intenções quebradas

Invoco o canto na raiz do poema
na árvore desolada ou
sombra florida do coração:
rosa muda
cravada na infância
como um perfume dos teus espinhos
chamo à doce melancolia
flor negra do meu ardor.


RITUAL

Persegue a luz eléctrica
lá dentro do café
onde as velhas madeiras fingem o cansaço
alça os lábios
como uma fonte
como um livro antiquíssimo
a seduzir o tempo
procura no mármore o café
e pousa o teu olhar no gato
que pensa o que tu pensas
e agora bebe esse café
e fecha os olhos.


ENSONHO

Entra no cântico onde as mulheres dormem
na vasilha intensa ao redor da casa
na música
Não temas as madeiras, ébrias na voz
sob os frágeis dedos
onde a amarga sombra descansa
extensa no calor das formas

-Mulheres que dormem
deitadas
à cor da planície.


POEMA

Negro vinho
da alva
tingido pela dança
à espera do coração
antigo
ou no ritmo ungido
pela rosa vazia
Negro vinho
caído sempre
na prata da infância:
pétalas murchas dançando
no coração.


INICIAÇÃO

A espada no fio da noite
é uma estranha melancolia
de lenha verde

a voz se apaga por momentos
no farol dos teus olhos
entre barcas lentas

a espada no fio da noite
é uma velha amiga
de mares vazios

o sal dos espelhos tão verdes
reclina aos ossos da noite
o teu corpo morto.


POEMA

O cântico sai pela vasilha
encantando a serpente
-a dos anéis tingidos
pelo sangue das raparigas-

O ar envolve o cântaro
oculto nos lençóis
pelo sorriso das crianças.


CONSELHO ANTIGO

Caminhas dormida,
filha
rumo à Casa das Danças
acordarás entre cores de quetzal
e ouvirás a serpente mágica
Não chores, minha filha
quando estejas no mundo
quando de regresso
na Casa das Sombras
o amargo vinho dos homens
te quebrante o coração

-Pequena vaga-lume
oculta no fósforo
do amor.


POEMA

Somos as raparigas pintadas
os óleos amargos
entregues ao coração

Vestidas de penas de quetzal
o nosso amor se quebra
no anelo da rosa:
adormecemos na Casa do Mistério

Cheias de pinturas
nos inclinamos à dança.

-Somos as raparigas do pintor amargo.


POEMA

Os óleos do coração
são o naufrágio dos dedos
do dia quebrado na cal
que nos mente
hora a hora
o relógio sem coração
sobre as velhas pinturas
guardadas para sempre
na memória da infância.

-Quando dormimos
no silêncio mentido.


POEMA

Ao caminhar descalça pelas aguarelas
um porto perdido espreita
os pequenos fósforos
pelas aguarelas
e um olhar de criança
é o que me faz pintora
perdida entre os malecões
entre um cais de prata
a pintar
de negro e de negro
o vazio dos barcos
ardendo nos fósforos
pelas aguarelas.

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