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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 5


12 Junho 1996    http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait     Corunha - Galiza

Notas sobre comunismo • Quentin Tarantino

Carmen Vidal Bouzón
drugos@udc.es


     Parece irremissivelmente trágico pensar uma forma de escrita que seja fria e descarnada para esboçar uma história sangrante e tétrica. Talvez for este o terrível panorama com que Karl Marx, velho e derrotado, se topou quando por volta de fins da década de quarenta abordou a ingente tarefa de razoar a barbárie do capital e pensar a sua superação, quando tivo que empregar aquela mesma linguagem mas subvertida onde, já nos vem parecendo, a Revolução se tornava formosamente fria e racional desgranando qualquer discurso: estava o velho revolucionário alemão a percorrer a patética sintaxe da sujeição forjada na relação--capital, no processo de produção e reprodução ampliada do capital. Então, exilado num Londres húmido e querido, sentou as bases do sonho.

     Hoje, na época da subsunção real que ele próprio deduziu num bestial desenvolvimento da linha de razoamento do materialismo histórico e que desde aquele Outubro longínquo e quebradiço, com um pé já no estribo da morte, Vladimir Ilich Ulianov -como Karl, um dos homens mais buscados pelas polícias da Europa- parecia compreender num derradeiro e impossível intento de supressão material do que haveria-de ser terror estaliniano... hoje, digo, qualquer intento desapaixonado de narrar -talvez não mais podamos na nossa humildade- este crepuscular século decimonónico ao que ritualmente baptizamos vigésimo há-de sentir não menos friamente a pulsão material do pesadelo, dos infinitos muros que aquém e além de Berlim percorrem como espelhos reprodutores um mundo de exploração subsumida, da monstruosidade ilusória parida de um mundo da Ilustração que agora agoniza deixando-nos órfãos, fingindo indiferença enquanto todas as bases materiais desse vital COMUNISMO AGORA estão postas.

     Pois bem, uma escrita que simplesmente queira acertar a esboçar as linhas estruturais do terror de um socialismo que, como não podia ser de outro modo, pensou a libertação da consciência humana na subsunção do trabalho fabril, etapa crepuscular elevada de uma lógica de capital autista e exacerbada; esta escrita está -sob pena de cair em reiteração e inutilidade- obrigada a reivindicar como necessidade mínima, racional, asequível o COMUNISMO e a dizer insubornavelmente que vivemos no obsceno.



     Uma cousa é clara: a lógica da exploração é insuportável, a superação do capitalismo terrivelmente desejável. Portanto, o rechaço do núcleo produtor e reprodutor do todo o que o capital é, o pensar as suas formas, tem a ver com o mais radical materialismo, de Espinosa a Marx ou Lenine, como posição filosófica; tem a ver com o comunismo, como posição política... isso sim: percorrer este caminho é pensar a dantesca "Lesciate ogni speranza", esperança teleologista que tem justificado a ampliação do inferno fabril do trabalho. É, também, ter presente as sábias palavras de Boecio no seu De Consolatione Philosophiae, livro I, metro 4:

Nada esperes, nada temas e deixarás desarmado e impotente o teu mais airado inimigo; mas se trepidas pelo medo ou vacilas por uma esperança, já perdeste a tua firmeza, vendeste a tua independência, abandonaste o teu escudo e, desalojado das tuas posições, ataste ao teu pescoço uma cadeia que para sempre te arrastará.


Tarantino: «palavras mais, palavras menos»:

     É, esta, a força da palavra. A de guiar uma acção. Fílmica, neste caso. Como também a palavra do candidato republicano Bob Dole enceta nestes dias mais uma «caça de bruxas» contra a «feitoria de pesadelos e depravação» que Hollywood é. Palavras só, por agora. Depois, algum procedimento sacramental do estilo do lume inquisitorial. Sacramental e puruficador. Embruteceder e néscio também. É o mesmo. Pelo momento, na nova lista negra, lugar privilegiado para Reservoir Dogs. Não é a única. Nem será a última. Parecemos condenados a sofrer sempre a bestialidade maior daqueles que odeiam beleza e sabedoria. Enquanto haja tempo: falai, falai, malditos.

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