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Favelas no Rio
Favelas no Rio

E aí descobri por que não estamos ali, nem podemos estar. O caos ou azar fez de cada um de nós uma disposição distinta da matéria. Jamais poderemos ser aquele que não somos. A unidade da espécie descompõe-se perante a evidência do azar e da História. Diante dos olhos de qualquer de nós, diante dos olhos meus ou de quem me lê, uma só e impiedosa imagem das terríveis favelas, estendidas como excrescências orgânicas polas abas das montanhas, situa-nos onde realmente estamos, lembra-nos quem somos realmente, e lembra-nos a miragem de imaginarmos uma nova História possível. Porque no mundo da Rede ou da palavra escrita as favelas não existem, não podem existir. Podemos dizer Non!, podemos expulsar em alto esta ânsia antiga, humana, legítima, mas o nosso enunciado primordial e por isso profundamente libertário não poderá evitar a persistência desta epopéia de miséria. E é que as favelas não precisam explicação nem admitem combate. As favelas são a sua própria evidência, emergem como um malefício insofrível, delatam-se como um duríssimo fracasso. As favelas são uma metáfora da mente.

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