Çopyright
pensamento, crítica e criação

71

24 Abril 1999

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait

Corunha
Galiza

 

A continuar com o intuito de informar sobre a guerra de Jugoslávia, Çopyright reproduz aqui uma tradução duma entrevista feita ao líder albano-kosovar Ibrahim Rugova no Outono de 1998.

A seguir, Celso Alvarez Cáccamo discute aspectos económicos desta guerra de classe.


Tirando a força da desesperação
Uma entrevista a Ibrahim Rugova

por Marie-Françoise Allain

Os Balcãs: Outra guerra de classe
Celso Alvarez Cáccamo


Tirando a força da desesperação
Uma entrevista a Ibrahim Rugova

por Marie-Françoise Allain

Reproduzida de The Electronic New Presence # 48

Esta entrevista ao líder da Liga Democrática de Kosovo, que foi elegido presidente da não legitimada República Kosovar em 1992, apareceu no número de Outono de 1998 de Politique Internationale.

Ibrahim Rugova

Logo que Belgrado suspendeu a autonomia do Kosovo em 1989, os kosovares, tanto por necessidade quanto por eleição, optaram majoritariamente pola resistência não-violenta. Ibrahim Rugova, que já denunciara o terror nos seus trabalhos literários, estivo à cabeça desta resistência aberta e pacífica que tinha como alvo a independência.

Dez anos mais tarde, o banho de sangue que Rugova queria evitar estourou plenamente: ao marginar a questão do Kosovo nos Acordos de Dayton, o Ocidente entregou de facto o país aos carrascos sérvios. A consequência foi a formação duma resistência armada organizada, que até à altura tem servido sobretudo como uma escusa para os pogroms e para a explosão da violência étnica. Rugova enfrenta esta dramática realidade num momento em que parece que todas as soluções pacíficas estão esgotadas.

Sr. Presidente, a partir do final de Fevereiro e da ofensiva sérvia em Drenica, mais de 1.700 albaneses foram mortos, outros 600 estão desaparecidos e ao parecer mais de 900 foram presos. No mês de Setembro, destruíram-se 50.000 casas e 400.000 pessoas resultaram deslocadas. Tem-se falado em voz baixa da ameaça que pendura sobre o seu povo durante anos. Em que momento se virou o destino do Kosovo?

É difícil responder esta pergunta. A situação é tão instável que o destino do Kosovo pode inclinar-se em qualquer momento para melhor ou para pior. Os eventos dos últimos meses lembram alguma gente dos anos prévios e posteriores à Segunda Guerra Mundial, quando dezenas de milhares de albaneses foram deportados para Turquia. É como se a história estivesse a repetir-se, como se não fizéssemos o esforço de aprendermos as lições que nos evitariam repetirmos sempre as mesmas tragédias.

A gente leva a sofrer muitíssimo tempo. Em 1968, e também especialmente em 1981, a gente saíu às ruas para reclamarem igualdade com as outras Repúblicas [sic *]. Não queriam abandonar Jugoslávia, mas simplesmente ter mais direitos sociais e económicos. Neste período a repressão era terrível: "diferenciações", "isolamento", torturas, detenções "administrativas", desaparecimentos, "suicídios"... Tito já não estava aí para fixar os limites. E já sabemos o que veio a seguir: os sérvios, para quem nós desfrutaríamos de excessivas liberdades, procuravam reduzir a nossa autonomia. As primeiras campanhas de ódio, orquestradas polos intelectuais sérvios, foram desatadas em 1985, no congresso de escritores de Nova Said, e logo continuaram com a publicação do Memorandum da Academia de Artes e Ciências de 1986.

Era previsível a guerra?

A guerra do Kosovo realmente começou em 1989, com a chegada dos tanques que enviou o regime de Belgrado, e com o estabelecimento de leis de excepção e exclusão, que tinham como objectivo "racionalizar-nos". Éramos "demasiados" nas instituições, nas minas, no ensino, e, sobretudo, "demasiados" de nós tínhamos um número "irracional" de crianças, diziam os sérvios.

Por acaso esta grande proporção de albaneses no território do Kosovo constitui uma ameaça real para o "berço" da Sérvia?

No passado, eu acostumava dizer que "os sérvios também devem mostrar respeito por este berço... mesmo com as crianças albanesas dentro!". Esses eram tempos quando ainda se podiam dizer piadas.

Acredita, como afirmou o seu Ministro de Informação Xhafer Shatri, que as bombas lançadas em Croácia e Bósnia estavam destinadas para os seus?

O objectivo foi sempre romper a identidade do Kosovo, por qualquer meio. Primeiro, submetendo-o pola força, num intuito de destruir a sua cultura e de empurrar os kosovares para o exílio por desesperação. Com 300.000 ou 400.000 deslocados entre 1989 e 1997, não é um exagero falar de "limpeza étnica paulatina". Logo vieram as ameaças à sua integridade territorial. Sem dúvida escutou falar dos vários planos de divisão cozinhados polos sérvios, que privariam os kosovares da zona mais rica do país, consistente nas minas de Trepca, as centrais eléctricas e certo número de mosteiros. A nossa própria existência é que está no alvo.

Como descreveria os eventos do último ano?

No Kosovo fomos testemunhas duma verdadeira limpeza étnica. Desde Março, as tropas sérvias, o exército e unidades especiais da polícia levam lançando ataques diários. Não é uma guerra entre soldados. É uma guerra dirigida contra a população civil, as vilas e as aldeias. O planalto de Dukagjin, na fronteira ocidental com Albânia, resultou purificado. A zona central, com Drenica, resultou purificada. Queimou-se e espoliou-se tudo: casas, colheitas. Perderam-se todos os habitantes. A maioria refugiou-se nas cidades do Leste, mas alguns permaneceram nas montanhas, perto de Malishevo e em Drenica. Tinham medo de reclamarem as suas casas. Os poucos que se arriscaram a voltar às suas vilas, como lhes instava a fazer a propaganda sérvia, amiúde sofreram maus tratos.

Devemos velar por os albaneses do Kosovo poderem retornar às suas casas. É preciso contrabalançar a estratégia de limpeza étnica. Eu não quero um Kosovo esvaziado e purificado. Não quero um Kosovo convertido em "parque nacional".

Está ainda o destino do Kosovo nas suas mãos?

Estou aí para salvar o povo. É a vontade do povo kosovar o que poderá encontrar nas minhas mãos.

Há outros que também querem "salvar o povo": o Exército de Libertação do Kosovo (ELK) e a resistência armada imprimem-lhe ao conflito com Sérvia uma dimensão militar. Qual foi a sua reacção perante esta irrupção de novos actores na cena do Kosovo?

É um assunto de pequenos grupos de patriotas e cidadãos comuns que queriam defender-se. Mas, diante dum exército bem organizado, equipado com aviões e helicópteros, diante da artilharia que estava a canhonear as aldeias todos os dias, a tarefa era impossível. Ainda mais quando a polícia sérvia foi utilizada para isolá-los e impedir que se comunicassem entre eles. Alguns preferiram abandonar o país.

Do nosso ponto de vista, é claro que esperamos ser capazes de controlar estes grupos e discipliná-los, para os sérvios não poderem utilizar estes estalidos como escusas para atacarem e destruírem o Kosovo.

Estes "grupos" procuram os mesmos objectivos do que você?

A meta de todos os kosovares é a independência do Kosovo. Pola primeira vez na nossa história tivemos êxito em criarmos um contexto adequado para as aspirações dos albaneses, e para organizarmos a nossa sociedade não só no nível material mas também no moral. Paradoxalmente, é durante este período, em que fomos reprimidos e sujeitos a um regime de apartheid, quando nos "encontrámos" a nós própios e alcançámos a nossa liberdade interior.

Mas, afinal, a mocidade cansou-se de assistir a escolas escondidas nas garagens e adegas. Parte da população radicalizou-se e apanhou as armas. Queriam pôr fim à repressão e à violência.

Por acaso não conduziu a existência do ELK a um processo de militarização?

Se queremos salvar a população do Kosovo, o único caminho é a resistência não violenta. Apesar de toda a boa vontade com que podemos contar, é preciso lembrar que o equilíbrio de forças não nos favorece.

O ELK tem tentado obter polo uso das armas a legitimidade que você obtivo polo sufrágio universal. Não deveria estender-lhes uma mão?

Esta questão foi suscitada, com efeito, polos extremistas dentro do ELK. Os comentários sobre este tema circularam em Pristina e em círculos intelectuais "politizados". O resto da gente apoia o presidente, o Parlamento por ele criado, e o governo. Quanto a "estender-lhes uma mão" ao ELK, agora é o turno deles.

Pode resolver-se o problema do Kosovo num âmbito regional?

Eu não acredito na efectividade das iniciativas regionais. Nos Balcãs todas elas fracassaram, incluída a ideia de Jugoslávia. Houvo muitos projectos de alianças ou eixos dentro dos Balcãs no período de entre-guerras. Mas já não é possível criar este tipo de relações nesta zona de Europa. Todos somos pequenos demais para isso. Todos: inclusive os sérvios, o qual não é precisamente negativo... Eu prefiro olhar para Europa.

Acha que a comunidade internacional julga desconcertante a sua adesão a métodos pacifistas?

Durante estes anos, o meu povo e eu próprio levámos adiante uma luta não violenta mas nalgum sentido muito activa enquanto estávamos sob dominação estrangeira. Em vez de refugiarmo-nos na violência, os albaneses comprometemo-nos com políticas de resistência. Fomos capazes de erguer uma verdadeira sociedade paralela e de provê-la de estruturas sólidas: escolas, hospitais, uma rede de comunicações, e uma agricultura privada. É por esta organização que pudemos continuar a viver aqui no Kosovo. Sem entrar em longas dissertações filosóficas sobre os méritos do pacifismo, eu ousaria dizer que neste alvor do século XXI evoluirá por fim a consciência internacional e todos os esforços se orientarão para a paz.

A comunidade internacional inclina-se por uma ampla autonomia. Alguns líderes kosovares mesmo baralham a ideia duma "Albânia de todos os albaneses". Onde se situa você pessoalmente?

Eu estou aqui com o meu povo, e o meu povo quer a independência, sem as fronteiras serem alteradas. Todas as forças políticas tanto do Kosovo quanto de Albânia apoiam isto. A independência calmará todo mundo, mesmo se alguns líderes de Belgrado continuarão a opor-se a ela por razões económicas. Qualquer outra solução seria prejudicial, e contrária ao desejo do povo, que se manifestou na altura da dissolução da Jugoslávia. Lembre que o Kosovo foi uma unidade federal [sic **] da antiga Jugoslávia, e, como as outras unidades, temos o direito de abandoná-la e de provar a nossa sorte.

Para evitar todo conflito, eu espero que num período de transição o Kosovo se converta num protectorado internacional durante vários anos, enquanto se desmilitariza o país e se erigem instituições democráticas operativas.

Em que sentido constituiria um factor de estabilidade um Kosovo independente?

Um Kosovo independente calmaria os ânimos, especialmente os dos albaneses de Albânia. Se a comunidade internacional insiste em não reconhecer a nossa independência, será vã qualquer esperança de que se calmem as tensões nesta região de Europa.

Considera o antagonismo entre sérvios e albaneses inaplacável?

Infelizmente, no que se refere ao Kosovo todos os líderes sérvios tomaram sempre o mesmo caminho. Querem mantê-lo pola força e pola repressão. Porém, para estes líderes é preciso compreenderem que a nossa independência também seria positiva para eles. Se reparamos em todo o que tem acontecido, a coexistência é impensável. É mágoa, porque a população sérvia é muito menos hostil do que os seus líderes.

Não é esta uma visão um tanto utópica, senhor Presidente?

Talvez o seja. Polo menos na altura. Mas é preciso olhar para diante. Para a maioria dos sérvios, o Kosovo não existe. Só querem conservar este território porque produz riqueza. A respeito disto, as antigas Repúblicas Jugoslavas podem ter a certidão de que manterão os seus interesses no Kosovo. Continuaremos a prover electricidade para toda a região. Quanto aos sérvios que vivem no Kosovo, não devem preocupar-se: oferecer-lhes-emos todas as garantias que desejarem. As organizações políticas que instaurámos nos anos anteriores anunciam a existência dum futuro Kosovo independente: uma sociedade democrática e tolerante onde haverá lugar para todos.

Marie-Françoise Allain é professora da Universidade de Paris e autora de La question du Kosovo: entretiens avec Ibrahim Rugova (A questão do Kosovo: conversações com Ibrahim Rugova).


[*] O Kosovo nunca foi nem é uma "república" dentro de Jugoslávia. O Kosovo e Metohija, ou Kosmet -- no seu nome oficial -- era (e, no papel, ainda é) um território autónomo da República de Sérvia, à sua vez federada com as Repúblicas de Eslovénia, Croácia, Bósnia/Herzegovina, Montenegro e Macedónia dentro da República Federal de Jugoslávia. Até 1989 as competências do território autónomo do Kosovo foram ampliadas em progressivas leis da República Sérvia. [Nota do Tradutor].

[**] O Kosovo nunca foi nem é estritamente uma "unidade federal" de Jugoslávia. Ver nota anterior [N. do T.]

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Os Balcãs: Outra guerra de classe

Celso Alvarez Cáccamo

    Entre as características mais notáveis dos discursos actuais sobre a guerra em Jugoslávia, surpreende ver a omissão quase total da questão económica. Perante a afirmação de que também na guerra em Kosovo e Sérvia há bases económicas, tanto a direita quanto a "esquerda" parecem reagir com incredulidade, se não com clara oposição. Mas a omissão ou a negação da dimensão económica no discurso público são reveladoras. O Secretário Geral da OTAN, Javier Solana, em entrevista na TVE-2 de Espanha no programa "El Tercer Grado" (15-Abril-99) diz explicitamente "Esta guerra não é polo petróleo ou polos recursos naturais: é uma guerra polos valores humanos". Se a deciframos minimamente, a afirmação implicita um ingénuo reconhecimento de que outras guerras semelhantes sim que foram e são polos "recursos naturais". Perante esta descrição de Solana, um vê-se forçado a tentar compreender por que esta guerra especificamente não seria polos recursos naturais; quer dizer, um vê-se forçado a procurar as (inexistentes) circunstâncias peculiares polas quais a expulsão e o massacre de centos de milhares de kosovares das terras em que habitavam, e o intuito dos exércitos europeu e americano de, aparentemente, devolvê-los a elas, não seria um conflito económico. Eu pessoalmente não conheço nenhuma guerra que não seja económica, e a explicação é singela: nas sociedades de classes (todas), na matança de outros seres humanos há grupos armados que actuam como instrumentos de elites económicas e políticas para a apropriação de recursos e para o mantimento de regimes economicamente injustos (todos). A guerra armada é um produto da lógica de exploração que começa na submissão ao roubo do trabalho assalariado.

     Se o princípio geral se aplica a todas as guerras, o argumento (mesmo da "esquerda") de que a de Jugoslávia não é uma guerra económica só se pode interpretar em dous sentidos: (1) como uma implicação de que no Kosovo não há um interesse económico específico das elites (as sérvias incluídas) na apropriação de recursos materiais; ou (2) como uma total conivência discursiva da "esquerda" sociológica com a ideologia capitalista neoliberal. É curioso que os únicos argumentos sobre as ramificações económicas da guerra sejam emitidos nesta altura por economistas do sistema, que não podem deixar de reconhecer e analisar, como bons positivistas, os efeitos futuros do conflito.

     É iluminador, portanto, que até a "esquerda" chegue a omitir ou negar as bases económicas da guerra. Isto é índice do seu papel estrutural coadjuvante e da total ineficácia do seu discurso para a emancipação da humanidade. Neste negamento ou omissão, as "esquerdas" desaparecem de facto como hipotéticas forças de progresso. Mesmo um crítico como Chomsky, no seu artigo em Znet, em  Çopyright e EL PAÍS (19-Abril-99), salienta sobretudo a construção da "credibilidade" dos "EUA" e da "OTAN", e incide escassamente nas razões económicas.

     Analisemos a seguir o argumento (1), quer dizer, que em Sérvia e Kosovo não haveria recursos materiais em jogo. Para começar, este argumento cai polo seu próprio peso se constatamos que o principal recurso material no campo de batalha é a vida --e, portanto, a capacidade produtiva-- de centos de milhares de pessoas, assim como as suas terras no Kosovo, todo o tecido produtivo do país, e as fábricas e outros centros de produção em Sérvia. Guillermo de la Dehesa, vice-presidente do (nada libertário) Centre for Economic Policy Research de Londres, explica em EL PAÍS ("Los efectos económicos de la guerra en Yugoslavia", EL PAÍS, 17-Abril-99, p. 18) como a guerra acarreta a destruição inicial de força e capacidade produtiva, logo o endividamento dos países estragados, a inflação, e o "desvio de renda" do sector público para o privado (muito especialmente, deveríamos salientar, para o sector militar-industrial, em termos de "I+D" em tecnologia e indústria bélica). Isto, em termos mais claros, significa uma maior dependência do estado em guerra (mesmo o estado "social") do capital privado, e o endurecimento das condições de trabalho da gente, que deverá fazer fronte às dívidas do estado, à reconstrução das fontes produtivas, e à inflação ulterior.

     Adicionalmente, poderíamos acrescentar, no Kosovo há em jogo recursos financeiros estrangeiros. Solana anuncia na sua entrevista que a sua última iniciativa antes de deixar (eventualmente) a secretaria da OTAN a finais de 1999 será a proposta dum "plano de prosperidade" para os Balcãs que, traduzido a linguagem mais clara, significará a imposição polas elites europeias e americanas duma política de endividamento sobre o estado dum "estável" e "democrático" Kosovo e, possivelmente, duma já "estável" e "democrática" Sérvia, e de outros estados. Isto é equivalente a novo "Plano Marshall" proposto por Tony Blair e polo que já clamam alguns economistas. O significativo é que seja o Secretário Geral duma organização militar quem se anticipe a propor um "plano de prosperidade" económica. Na sua entrevista, Solana não oculta que "a Europa do euro" não deve "permitir" o que está a acontecer no Kosovo.

     Em resumo, numa Sérvia e num Kosovo independente (que possivelmente será o resultado final desta guerra) ou incorporado a Albânia, a população empobrecida deverá portanto levar sobre as suas costas a recuperação económica e sofrerá os maiores custes da inflação e da dívida pública. De qualquer ponto de vista progressista deve-se reconhecer que esta acentuada forma de submetimento da população à lógica do capital é singelamente um efeito positivo para o capital transnacional. De facto, o dólar segue a subir, e o índice bursátil Dow Jones segue a registar dia após dia "máximos históricos". Mas é claro que isto só poderá acontecer numa "Europa" estável, enquanto no Ruanda ou em Burundi operações de "estabilização" semelhantes talvez não poderiam garantir a geração suficiente de capital local como para subordinar a economia destes países a uma dívida de longo alcance.

     Guillermo de la Dehesa esclarece também uma questão importante quanto às supostas "despesas" armamentísticas dos países ocidentais numa guerra destas dimensões, e exemplifica-o com o acontecido na Guerra do Golfo: o 90% das despesas militares norte-americanos foram finalmente satisfeitas polos países árabes (concretamente Kuwaite) ou por Grã Bretanha. A lógica, simplificando, é a seguinte: as forças trabalhadoras dos países invadidos acabam pagando a dívida pola sua "salvação" militar, pola sua "independência" e pola "reconstrução" do país logo da destruição desencadeada durante a sua "salvação". De novo, é difícil negar que isto seja uma importante implicação económica da guerra de Jugoslávia.

Os recursos do Kosovo

      Mas existe também outra importante dimensão económica do conflito: o próprio controlo dos recursos económicos no Kosovo. O discurso propagandístico da OTAN bombardeia-nos com o mito de que o Kosovo é um "território pobre". É certo que a sua produção e renda interna leva anos em declive, em grande parte pola gestão económica. Parte da economia kosovar sustinha-se assim com as divisas que mais de 400.000 albaneses emigrados enviavam ao país. (constata-se, por exemplo, que entre os soldados do Exército de "Libertação" do Kosovo circulam profusamente marcos alemães). Uma parte deste dinheiro procedia duma florescente economia de tráfico ilegal de drogas ilegais (o 40% dos estrangeiros encarcerados em Europa por "narcotráfico" são albaneses). Durante os últimos anos, o dinheiro negro atraiu também muitos albaneses que fugiam da pobreza de Albânia, de maneira que entre os refugiados políticos "kosovares" em Albânia devem-se contar sem dúvida antigos refugiados políticos albaneses no Kosovo (além, claro, de sérvios, ciganos, turcos e outras minorias).

     Porém, significativamente, no discurso público sobre a economia do Kosovo omite-se uma questão crucial: A região de Trepca, no norte --e mais em geral toda a cordilheira de Kopaonik que se estende até Sérvia desde perto de Pristina-- contém importantes depósitos de minerais pesados (zinco, chumbo, níquel, e talvez ouro e prata), e é reconhecidamente uma das zonas mineiras mais ricas de Europa. Aos complexos mineiros unem-se centrais de energia eléctrica que nutrem o Kosovo e Sérvia, e que estão no alvo tanto dos sectores industriais sérvios, quanto das emergentes elites kosovares, e do capital internacional. Nesta região encontra-se também grande parte dos mosteiros que simbolizam a "alma cultural" do "povo sérvio".

     A total omissão destes dados no discurso público resulta esclarecedora. Desde 1989, com a eliminação da autonomia administrativa do Kosovo, o regime sérvio leva uma campanha sistemática de "desalbanização" não apenas das instituições públicas e bancos do Kosovo, mas também dos complexos mineiros de Trepca, esvaziando-os de albaneses nos quadros de gestão. As minas (com capital majoritário do estado) estão apenas agora a um 40% da sua capacidade, mais por falta de investimento que de potencialidade. Desde meados dos 90, aproximadamente, o governo sérvio acometeu um plano de privatização e de abertura ao capital estrangeiro. Concretamente, o "holding" grego Mytilineos tem capital em Trepca desde 1997 (http://www.gfbv.de/gfbv_e/docus/kosova_e.htm), e a companhia alemã de aceiros Thyssen investiu no convenientemente "desalbanizado" complexo Feronikl. De facto, durante anos o capital europeu começava a abrir-se à privatização do estado por Sérvia (quer dizer: apoiava de facto o regime do ditador Milosevic), enquanto o capital norte-americano não participava ainda do processo. Porém, o governo não-legitimado do Kosovo não reconhecia esta política. O líder independentista Ibrahim Rugova, presidente eleito da auto-proclamada República do Kosovo, declarou em Novembro de 1997 que "o governo sérvio pôs à venda as principais indústrias do Kosovo, como Trepca, a Companhia Eléctrica, Feronikl, etc., o qual é simplesmente uma forma de pressão económica sobre Kosovo e os seus cidadãos" (http://www.aimpress.org/dyn/trae/archive/data/199711/71118-027-trae-pri.htm). Rugova, antecipando a efectividade da independência do Kosovo, continuou a advertir que o governo kosovar anularia todos os contratos com as companhias estrangeiras. Naquela altura, os governos dos países ocidentais não apoiavam o "direito à autodeterminação" do "povo kosovar".

     A importância estratégica destes recursos para as economias de Sérvia e do Kosovo é reconhecida explicitamente por Ibrahim Rugova numa entrevista concedida a Politique Internationale em Outono 1998 e reproduzida na Internet em The Electronic New Presence e neste número. Algumas citações de Rugova serão suficientes:

"Para a maioria dos sérvios, Kosovo não existe. Só querem conservar este território porque produz riqueza. A respeito disto, as antigas repúblicas jugoslavas podem ter a certidão de que preservarão os seus interesses no Kosovo. Continuaremos a prover electricidade para toda a região".

"A independência calmará todo mundo, embora certos líderes de Belgrado continuarão a opor-se a ela por razões económicas".

     Rugova não afirma que estas sejam as únicas razões dos interesses do estado sérvio polo Kosovo. Mas o seguinte comentário é especialmente revelador:

"Sem dúvida ouviu falar dos diversos planos de partição cozinhados polos sérvios, que deixariam os kosovares sem a zona mais rica do país, que inclui as minas de Trepca, as centrais eléctricas e alguns mosteiros".

    O próprio Rugova parece reconhecer, portanto que, de todo o Kosovo, o interesse fundamental do estado sérvio é a região norte. Dentro deste quadro, como também sugere Carlos Taibo em EL PAÍS (20-Abril-99) a ideia de uma Grande (mas empobrecida) Albânia que reúna por fim todos os albaneses, ao Sul, não iria contra os interesses dos poderes sérvios. Obviamente, como bom líder nacional, Rugova não explica por que, se o objectivo era evitar o sofrimento de milhares de pessoas, a partição de Kosovo não resultou na altura um compromisso aceitável. Afinal, um Kosovo mais pequeno, sem "a zona mais rica do país", seria, de todos jeitos, um Kosovo "independente", e poderiam ter-se evitado o êxodo e o massacre.

      Estes planos de partição do Kosovo eram conhecidos, e foram postos sobre a mesa polo regime sérvio. Mas, no actual estado de cousas, tal partição parece inviável. Trepca pode ser importante para o capital sérvio, mas é provavelmente vital para o capital dum Kosovo "independente" e duma Grande Albânia. A diferença é que a riqueza mineral de Trepca em mãos do regime sérvio actual não garantiria a penetração segura de capital estrangeiro, enquanto uma Trepca dentro do estado kosovar, logo da "libertação", seria mais um rico pastel para investidores americanos e europeus. Quando, nos primeiros dias dos ataques da OTAN, surgiu de novo a hipótese da partição, Madeleine Albright manifestou a sua rotunda negativa (enquanto a partição de Bósnia fora produto dos governos ocidentais).

     Em resumo, na minha opinião as tácticas actuais de ocidente estão dirigidas a esta independência do território integral do Kosovo. Lembra-se pouco, por exemplo, que o chamado "acordo" (dificilmente pode haver "acordo" quando uma das partes não o assina) de Rambouillet praticamente assegurava a independência do Kosovo num prazo de nove meses a um ano. O ponto 5 "convidava" a OTAN a deslocar uma força no Kosovo, quer dizer, para o regime sérvio o "acordo" forçava materialmente a invasão do território próprio (à margem de quais sanguinárias elites militares o regem) por um exército estrangeiro. Portanto, com os seus ataques a OTAN está a aplicar, literalmente, o unilateral "acordo" de Rambouillet. O que seguramente se ignora é que, como informa Steven Erlanger em The New York Times ("Milosevic's New Version of Reality Will Be Harder for NATO to Dismiss", 8-Abril-99), o dia anterior ao primeiro bombardeamento da OTAN o parlamento sérvio aprovara uma declaração para a concessão duma determinada "autonomia" para Kosovo, supervisada por uma "força internacional" não especificada:

"Numa resolução -- pouco comentada -- do Parlamento Sérvio justo antes dos bombardeamentos, em que esse órgão escassamente independente rejeitava as tropas da OTAN no Kosovo, apoiava a ideia de forças da ONU supervisarem um acordo político na região".

     Numa entrevista recente a uma emissora da rádio pública de Boston, Chomsky informa do mesmo, e clarifica que esta força poderia ser provavelmente a ONU, mas logicamente não a OTAN. É apenas lógico perguntar-se, de novo, por que os negociadores não aproveitaram as possibilidades dessa resolução do parlamento sérvio, se o que está em jogo (como declara Solana) são "valores humanos" e a vida de milhares de pessoas. Terá isto algo a ver com o facto de que a (proposta) autonomia para o Kosovo dentro de Sérvia seguiria a manter a gestão da "zona mais rica" do Kosovo nas mãos duma elite não domesticável?

     Um dado adicional é o seguinte: No final da sua longa entrevista televisada, Solana desvela ingenuamente por fim dous dos planos estratégicos da OTAN e do ocidente a respeito do Kosovo. (1) O primeiro (e menos relevante para esta discussão) é que haverá luta corpo a corpo entre exércitos: Solana especifica as famosas 5 condições ao regime de Milosevic, que agora incluem "que se retirem as forças para-militares jugoslavas, que são as que matam" (sic; já não há menção ao exército jugoslavo); e quando houver um "certo (sic) acordo de cessamento do fogo", entrarão as tropas da OTAN. Isto sugere que para a própria OTAN é impensável esperar do exército jugoslavo uma retirada e um cessamento do fogo absolutos: se o que se exige é a retirada apenas dos para-militares, as confrontações directas estão contempladas na táctica da OTAN.

     (2) A segunda revelação de Solana contém-se nesta declaração: "Todos sabíamos, todo o mundo sabia que Milosevic preparava uma limpeza étnica total para a primavera se as negociações de Rambouillet fracassavam". A condicional "se as negociações fracassavam" é reveladora. Pois, se o móbil do ataque da OTAN são os "valores humanos", os poderes ocidentais tinham a responsabilidade moral de não fazerem fracassar as negociações de todas as maneiras possíveis: por exemplo, com concessões ao governo de Sérvia para este poder manter (mesmo ilegitimamente) o controlo do norte do Kosovo, e evitar assim a limpeza étnica "total".

     Mas, para entender por que as negociações "fracassaram", a explicação mais racional da estratégia da OTAN é, precisamente, uma explicação económica: O ataque já estava decidido porque o que está em jogo é o controlo económico do Kosovo e da região (recursos materiais e força produtiva para a sua "prosperidade" incluídos) por parte de capital dócil a Ocidente. Nisto, e não noutra cousa, consistirá a independência do Kosovo e talvez a Grande Albânia. Contra o que se pode pensar, a extensão do conflito não prejudica estes objectivos: quanto mais extensa a terra queimada, mais "prosperidade" sobre mais países (Kosovo, Sérvia, Croácia, Montenegro, Macedónia, mesmo Hungria) poderá impor o capital.

     É inegável que toda guerra é uma guerra económica porque encarna tragicamente a seguinte alternativa: a distribuição e gestão desigual dos recursos (e, portanto, a continuação da escravidão material e da dominação ideológica das gentes) frente à libertação da humanidade de todo tipo de desigualdades e o começo da sua emancipação. Obviamente, os detalhes sobre a base económica duma guerra de classe como a guerra de Jugoslávia podem e devem ser discutidos e questionados. Mas quando a "esquerda" ou esse "nacionalismo democrático" que alega o inalienável direito à "integridade do território" omitem ou negam a base material deste conflito, estão a negar o seu lugar na história do pensamento progressista.

 

Çopyright recomenda também visitar o sítio Non!, onde se encontram numerosos
artigos e ligações sobre o conflito do Kosovo

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