Çopyright
pensamento, crítica e criação

69

5 Março 1999

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait

Corunha
Galiza

 

A história deste número é complexa. Em 1996, o colaborador da revista Alberto González-Alegre, como organizador duma exposição de arte contemporânea em Ponte-Vedra, pediu-lhe a Celso Alvarez Cáccamo uma série de impressões escritas sobre a obra de René Magritte Os Passeios de Euclides para o catálogo da mostra, assim intitulada. A exposição era subvencionada polas instituições galegas, e reunia artistas de toda a Península Ibérica.

Dous textos da série foram diligente e afectuosamente escritos. Porém, em seguida, sem surpresa mas com o dissabor de ambos, a possibilidade desses textos em galego-português serem publicados no catálogo foi rechaçada polos poderes institucionais patrocinadores do evento, nomeadamente a Deputación de Pontevedra. Mais uma vez, burocratas e políticos impunham a sua ignorância sobre a criatividade das pessoas, e erigiam falsas fronteiras linguísticas entre dous povos que são o mesmo ou nenhum.

A exposição celebrou-se. Os escritos do autor dormiram, mas não o desejo de falar, sempre, sem censura. Agora Çopyright reúne neste número aquelas e novas visões da ficção e a realidade, por Ana Gabriela e Celso Alvarez Cáccamo.

Este número está dedicado à censura ideológica e à ignorância interessada dos líderes políticos, especialmente os do Partido Popular da Galiza.


Os Passeios de Euclides

Ana Gabriela

Toda a nossa vida a organizar a realidade, cada coisa no seu lugar, estática, em equilíbrio. Toda a nossa vida a nomear as coisas. Toda a nossa vida a ter as coisas por garantidas, as coisas que olhamos de uma determinada maneira. Andamos toda a vida a construir próteses mentais com que olhamos a realidade que queremos ver (ou podemos ver). Construímos a realidade da forma que nos é mais acessível e cómoda, sem sobressaltos.

          Toda a nossa vida condicionada para não confiarmos na nossa própria percepção das coisas. A nossa percepção das coisas iria levar-nos à divisão que existe entre a ficção e a realidade. E ao afastamento social.

     A realidade preexiste. Não a questionamos. Não a tentamos desmontar. Mesmo quando nos é apresentada pela sociedade de uma forma alucinada.

          Estas ruas amplas e estes prédios alinhados... diria, uma prisão definitiva. Um cemitério florido. Uma morte antecipada. Nada disto é real mas seduz-nos sempre. A ficção sobre a realidade. É esta a nossa condição, a nossa mediocridade.

           Tudo isto é um cenário em papel que se pode rasgar e ver por detrás. Há sempre uma outra realidade por detrás do que vemos (ou queremos ver). E o nosso olhar procura o que o adormece e evita o que o inquieta. E nunca foi tanto assim como hoje. Camadas e camadas de papel de cenário a esconder a vida, as emoções, o sofrimento, a fragilidade. A moral da estética, do equilíbrio, do bem-estar, da segurança. A moral da morte.

          Confinamo-nos a essa prisão, voluntariamente. Porque ver é realmente doloroso. Já soubemos isso por experiência própria. Quando ainda não dávamos nomes às coisas e nos colávamos aos vidros das janelas, esbarrávamos em objectos, sentíamos a sua textura, as suas cores, o seu cheiro, os seus sons. Vibrávamos como cordas bem esticadas, prontos a novas descobertas. Depois, a programação para a visão de realidades cada vez mais ilusórias.


Os Passeios de Euclides

Celso Alvarez Cáccamo


UM

Uma pessoa caminhava rua arriba sob o sol a prumo do meio-dia sem sombra. E não tinha sexo. Não é comum imaginá-lo, mas a pessoa não tinha sexo. E caminhava no espaço entre uma projecção vertical e outra, na duvidosa geometria plana que confunde. E perguntava-se: “Permite-se-nos olhar as cousas desde uma dupla distância? Se continuo por aqui, é possível que depois de muito tempo esteja no mesmo sítio, a cavilar ainda, presa do desígnio que me decidiu, personagem imposta sobre uma superfície já acabada. Sou a consciência de quem me olha”.

          Examinando outra vez o espelho equívoco onde a matéria do tempo se desdobra, da figura fica apenas essa emulsão de cores translúcidas ao olharmos sucessivamente para uma folha escrita e para o sol. O quadro já nunca poderá ser o mesmo, nem o discurso que agora ou tantas vezes antes o fez realidade histórica. Essa pessoa ou personagem que caminhava entre os dous abismos da linguagem pôde ser eu também, quem o obstrói? Ou pôde ser o autor, canso de tanta figuração pública que lhe impedia exercer o prazer do seu próprio portento. Um dia entrou no quadro pola torre que levava à rua que levava à torre, e no frescor da galeria compreendeu o contraste do sol quando as lousas do texto se ressecam e fica só a essência primitiva da palavra, uma sílaba que é simultaneamente o significado e a sua imagem.

          Agora o autor vive lá, comovido, e de cada vez que a figura intrusa que é qualquer de nós se recompõe nesse espaço interior, sacode-se em vagas de cor branca a arquitectura que nos dita o sentido de nós próprios: representações apenas, reflectidas na ansiosa mimese plana do desenho, resíduos do signo que nos conteve a todos desde antes do tempo.


DOUS

          Dos sete passeios da figura que levava uma sombra vazia às costas ficou sempre no chão um signo lento, como uma mão branda que nos queria arrastar dentro da tela, em horas regidas por uma forma sem centro que chamamos tristeza. Quiséramos visitar esse além plano e aprender como da textura duma frase imaginada sob o sol de febre nasceu a arquitectura, no perpétuo abraço de dous discursos adversários que nunca poderão encontrar-se nesta terra. As pegadas continuam, a fundirem-se com uma claridade que só existiu no quadro e em poucos momentos da neneza, quando se abriam mundos no recolhimento dos lençois dormidos da manhã. Quiséramos também murmurar uma palavra a sós, ou ao ouvido dum amor que não nos entende, enquanto descobrimos o impossível de entrarmos na planície onde as cousas inocentes derrocam a lei da geometria.

          Os minutos, a miragem dos minutos, fatigam-se de tanto olhar-nos absortos a olharmos para a cidade contida em si mesma de que deveu falar Calvino mas não soube. E assim cai o crepúsculo sobre os ombros, de cada vez mais frio e letal, como se pesasse o vento e só nos restasse voltarmos à casa vagamente abraçados, entre árvores que quase não respiram e ruas de súbito desertas, até a uma alcova e um livro grande que contém a imagem sem bordas duma clara avenida onde afinal poderemos descansar,

por acaso brevemente unidos polas mãos,

por acaso em formosa soidade.

 

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