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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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 14 Dezembro 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza


A melhor orthographia

Fernando Corredoira

Notas e Referências

     O. Em contra do que alguns com obstinada tenacidade ignoram, outros sabemos que a da orthographia não é apenas, nem sequer fundamentalmente, uma questão técnica.

      Índice de especificidade e de afirmação nacional, a ortografia é uma questão que, como tudo o que atinge à língua, suscita reacções emotivas. Recorde-se, por exemplo, a resposta, fervorosamente patriótica, dos media espanhóis, tão inclinados à perplexidade hostil perante às reinvindicações linguísticas “periféricas”, aos boatos que ameaçavam a pervivência do eñe, emblema ortográfico castelhano. Ou pense-se que, na Catalunha de princípios de século, a controvérsia acerca de i ou y (conjunção copulativa) tornou algumas amizades de longa data em cenreiras implacáveis.

      O carácter distintivo e delimitador da ortografia é particularmente evidente nas situações de contacto linguístico em que os utentes de uma das línguas sentem a necessidade de marcar a distância em relação à outra. Esta necessidade é tanto mais intensa quanto menor é a distância estrutural entre as línguas em contacto. Tenta-se, então, em primeiro lugar, diferenciar quanto possível no plano gráfico a língua em questão em ordem a tornar mais visível a sua diferença e, em segundo lugar, capitalizá-la simbolicamente de modo prestigiante e singularizador.

     1. O caso da língua portuguesa é exemplar neste sentido. Numa altura (séculos XVI e XVII) em que o castelhano se instala em Portugal como língua cortesã e literária, os defensores do vernáculo nativo devem esforçar-se em distingui-lo (nos dois sentido da palavra) do concorrente.

     E se, conforme à impressão comum, expressa por Juan de Valdés, a língua “portuguesa tiene más de castellano que las otras [isto é catalão e valenciano] tanto que la principal diferencia que a mi parecer se halla entre las dos lenguas es la pronunciacíón y la ortografía” (1), cumprirá, justamente, acentuar e positivizar a diferença ortográfica.

     Em busca de uma especificidade lusitana, salienta-se (e, em certos casos, força-se mesmo) positiva e estrategicamente um parecido com o latim, ressaltando, assim, a afinidade e a filiação e, com elas, a dignidade e a individualidade da língua portuguesa:

“Grande he a contenda entre os peritos, se hemos de usar de , se de am, ou seja os nomes Perdigaõ, ou nos verbos, amaraõ, amaram. Nam me atrevo a condenar o vulgar modo de escrever , usado de muytos; mas sou do parecer que usemos de am; porque além do demandar diversas pronuncias, por razam do ao junto com til, que tem força de m, e fica soando aom. Se usarmos de am, nos assemelhamos aos latinos, os quays põem, am: musam, legebam [...]. E nesta forma semelhantes aos latinos melhor responderemos a ordinaria objecçam, que põem os Castelhanos á nossa língua tachandoa de grosseyra, dãdo-nos em rostos cada dia com os nossos , , [...]. Respondendo logo que nisso nos ficamos parecendo mais ao latinos do que elles se parecem; porque os latinos acabavão frequentemente seus vocábulos de toda sorte em am [...], nós assim queremos acabar, para ficarmos mays semelhantes a Latinos, particularmente Romanos, do que os Castelhanos [sublinho] (2).

     2. Na Galiza dos séculos XVI e XVII a questão da escrita correcta nem sequer se suscita, simplesmente porque o galego já não se escreve. Quando, desde a segunda metade do século XIX, reapareça uma literatura no dialeuto regional e se coloque, pela primeira vez, a questão da sua ortografia, a interrupção secular da tradição escrita, a castelhanização das classes dirigentes e a satelização linguística determinarão a adopção pura e simples da ortografia da língua oficial.

     Assim, na primeira gramática galega (3) a questão da escrita não é objecto de reflexões ou comentários. Trascreve-se o galego ao jeito castelhano, simplesmente.

     Na segunda, a Gramática Gallega (4), de Juan A. Saco Arce, que é, na realidade, a primeira digna de ser chamada gramática, obra infinitamente superior do ponto de vista descritivo e informada de intuitos patrióticos, a questão ortográfica merece cinco páginas de atenção. Saco parte do pressuposto de que “[são] aplicables casi en su totalidad á la ortografía del dialecto gallego, en lo relativo al uso de las letras y á la puntuación, las reglas de la ortografía castellana”. Portanto, o assunto pode ser despachado logo, limitando-se a “hacer algunas advertencias sobre las letras i-y, n-m, x, sobre los acentos y algun otro signo” (5).

     Acerca do “suave sonido de la ch francesa, propio también de nuestro dialecto”, escreve: “[...] nos parece que debe representarse constantemente por la letra x. Algunos hay que sostienen la necesidad de atender á la etimología para usar la g, la j ó la x en la representación de dicho sonido. Pero siendo sumamente vario el origen latino de este, resultarían gravísimas dificultades para el estudio de la ortografía gallega” (6).

     Saco parece querer reduzir a questão da ortografia a um assunto meramente técnico-prático Com efeito, são tecnicamente aplicáveis ao galego as regras gráficas do castelhano; com efeito, distinguir ortograficamente j, g e x é praticamente mais dificultoso do que usar apenas x (7).  E se para quase todos os potenciais receptores da Gramática o galego é um idioma mais ou menos familiar, mais ou menos contaminado, para todos o castelhano é a única língua escrita.

      Saco é testemunha perspicaz e magoada tanto da estigmatização social do galego como da acção destruidora que exerce sobre ele o contacto com a língua oficial: “la lengua gallega [...] tiempo ha que viene sufriendo una lenta, pero incesante destruccion, merced al contínuo roce con la lengua oficial y clásica de los españoles”, diz no Prólogo. Porém, conjugando hierarquicamente patriotismo provincial-galego e nacional-espanhol, é incapaz de tirar as conclusões lógicas da sua observação e apressa-se a dissipar os receios dos que consideram que o cultivo dos dialectos regionais poderia actuar em “detrimento” da “unidade nacional”: “No es mi ánimo con esto excitar al abandono ó descuido del majestuoso idioma castellano, el cual lejos de perder, ganaría mucho con el estudio y comparación de los dialectos afines” (8).

     Desta contradição nasce outra: embora plenamente consciente de que, por filiação, o galego é uma língua de pleno direito como as outras neo-latinas (às que repetidamente acode para assinalar afinidades nobilitadoras com o galego), politicamente, em Espanha, a língua é o castelhano. Destarte, se do ponto de vista linguístico, o galego é uma entidade autónoma, como o francês ou o italiano, do ponto de vista político é o “dialecto” de uma província, um sub-conjunto do espanhol. Não resolve a contradição. De onde a flutuação de denominações referidas ao galego: “idioma”, “dialecto”, “língua”, “língua regional”, conforme se encare de um ponto de vista ou de outro.

     Isto explica, e volto à ortografia, que, na realidade, o aspecto técnico da questão ocupe um segundo plano. Porque para Saco o essencial é que a autoridade da Real Academia Española de la Lengua é guia também para o galego: “Parécenos por tanto que el sonido gallego equivalente á la ch francesa debe representarse, cualquiera que sea su etimología, con un mismo signo; y ninguno creemos mas á propósito que la letra x, ya que es la letra castellana, cuyo sonido imita mas al nuestro; ya porque, segun la autorizada opinion de la Academia (en las primeras ediciones de su Diccionario), tuvo aun en castellano antiguamente este mismo sonido;[...]” [sublinho], escreve no Prólogo.

     Longe do meu pensamento a suspeita de que os legisladores linguísticos galegos de hoje continuem ainda sob a tutela da Academia Espanhola. No entanto, faço notar que nas normas da língua galega em vigor, no que se refere ao alfabeto, as únicas concessões à etimologia (b/v e h) coincidem com as do espanhol.

(1) Diálogo de la lengua, edição de Cristina Bartolini, Madrid, Cátedra, 1987, p.141. A obra, redigida c. 1550, foi impressa pela primeira vez em 1737.

 

(2) Padre Bento Pereira, Regras gerays, breves e comprehensivas da melhor orthographia, com que se podem evitar erros no escrever da lingua latina e portuguesa, para se ajuntar à prosodia, Lisboa, por Domingos Carneiro, 1666, pp. 64-5.

 

(3) Francisco Mirás, Compendio de gramática gallega-castellana, con un vocabulario de nombres y verbos gallegos y su correspondencia castellana, precedido de unos diálagos [sic] sobre diferentes materias [...], Santiago, Establecimiento tipográfico de Manuel Mirás. 1864.

 

(4) Juan A. Saco Arce, Gramática Gallega, Lugo, Imprenta de Soto Freire, 1868.

 

(5) Op. cit., p. 227.

 

(6) Ibidem.

 

(7) No galego moderno, como se sabe, perderam-se as sibilantes sonoras. Assim, por exemplo, o j de jeito articula-se como o x de caixa. De facto, na ortografia oficial, jeito escreve-se xeito, gente como xente, etcétera.

 

(8) Op. cit., p. VII.

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