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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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 27 Dezembro 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

“(O)s cidadãos e cidadãs da ilha (...) semelham dar bastante pouco crédito aos cantos de sereia que do estrangeiro chegam com a sua consabida ladainha de aberturismos políticos, democracia liberal, economia de mercado, pluri-partidismo e mais ismos ao uso. Ao cabo, mal que bem, continuam a saber-se donos da Terra que pisam.”
Cuba, entre o silêncio e a esperança

Carlos Velasco Souto


Quando em 1989/91 se veio abaixo o chamado campo socialista, poucos eram os que davam um patacão pola sobrevivência desta pequena ilha, longínqua e pobre. Não contaram com a imensa criatividade e capacidade de adaptação a situações difíceis deste povo, tão valeroso e imaginativo como indisciplinado e protestón. Também não contaram --e se quadra isto é menos desculpável-- com outros dous factores sem os quais resulta inexplicável uma resistência tão insólita frente à adversidade: por um lado, o facto de o socialismo cubano ser uma construção inequivocamente autóctone e nacional, não o resultado de qualquer imposição exterior, nomeadamente soviética; por outro, o alto grau de consenso social no que se alicerça o regime revolucionário, directamente vinculado ao estilo dos seus dirigentes, situado nas antípodes do das opacas burocracias da Europa do Leste.

Se o esbarrulhamento da U.R.S.S. e mais o C.A.M.E. ocasionou uma perda do 70% da capacidade de compra do país e uma queda em picado do nível de vida da população cubana (até daquela situado a anos-luz por riba do dos restantes povos latino-americanos), sumindo esta num estado de autêntica indigência material, não é menos certo que esta catástrofe atingiu a sociedade cubana em pleno processo de rectificação dos erros cometidos nos anos anteriores. Daí que a sua capacidade de manobra --ainda dentro do desastre-- fosse bastante maior que a duns cidadãos soviéticos (ou europeus orientais) para os que o sistema socialista carecia já de qualquer credibilidade. Para além disso, a cúpula dirigente do país era consciente, desde meses atrás, do que se lhe vinha enriba, o que explica o enérgico e decidido das medidas implementadas para fazer frente à crise e garantir a sobrevivência da Pátria, a Revolução e o Socialismo. Ditas medidas, constitutivas da nova orientação estratégica conhecida como Período especial em tempo de paz foram as seguintes:

  • Assegurar a alimentação de toda a população através da posta em marcha de um plano alimentário de urgência no que se centrassem todos os esforços.
  • Impulsar o sector da cana de açúcar entanto que rubro fundamental da economia nacional e principal ramo das exportações.
  • Potenciação do turismo como fonte de captação de divisas.
  • Apertura da economia a investimentos de capital estrangeiro, sempre conforme às prioridades estabelecidas polo Governo da República e rigorosamente regulamentados.
  • Mantimento do alto nível científico e técnico alcançado, com especial prioridade ao sector da bio-tecnologia e genética, no que o país é ponteiro à escala mundial e altamente competitivo.
  • Legalização do trabalho por conta própria, restringido a certas actividades e sempre subordinado aos ditados da planificação económica.
  • Redução do gasto público (incluído o militar) e progressiva integração económica no âmbito latino-americano.

Este singular plano de ajuste à cubana foi discutido amplamente antes de ser aplicado, participando nos debates todos os sectores sócio-profissionais da ilha; e, o que é mais importante, não supôs o feche de nem um só hospital nem nenhuma escola, ao contrário do que vem sendo habitual nos países do entorno, submissos seguidores das receitas do grande capital transnacional.

Quanto aos resultados, há que dizer que polo de agora foram modestos, ainda que esperançadores. A queda espectacular do PIB foi atalhada desde finais do 1995, iniciando-se a partir daí um crescimento, moderado mas apreçável (entorno ao 2%), que pode ser superior nos anos vindoiros a medida que o ré-ordenamento global da economia, previsto no plano de emergência, se faça realidade. Desapareceram já os cortes ininterrompidos do fluído eléctrico (os temíveis apagones), torna a haver combustível para o transporte (noutrora paralisado) e a dramática escassez de alimentos começa a ser ultrapassada graças à introdução dos agro-mercados. Contudo, a situação está ainda longe da normalização procurada polas autoridades comunistas. Nas ruas da capital e outras cidades que visitei recentemente, os rostos sérios da população --em contraste com a desbordante alegria de outrora-- dão conta das penalidades padecidas nos últimos tempos, assim como das incertezas que pairam sobre o porvir, deixando transluzir por vezes um certo desalento. A ineficiência laboral e mais a baixa produtividade --andaços de sempre-- continuam a pejar a recuperação da economia. O sector do açúcar, clave dessa mesma recuperação não termina de “despegar”. A crise fez ré-aparecer lacras extirpadas desde os primeiros tempos da Revolução, como a prostituição. E para que falar das consequências do inqualificável bloqueio económico, político e informativo mantido polo governo ianque. O pior de tudo é que a abertura económica ao exterior está a quebrar um dos principais sucessos revolucionários: o igualitarismo social, ao provocar a aparição de uma elite de “novos ricos” (embora mui controlados polo poder revolucionário) e o conseguinte alargamento da polaridade social.

Muitos são, decerto, os desafios que ainda aguardam ao sofrido povo cubano; entre eles --e não é um dos menores-- o de seguir suportando a insidiosa campanha de calúnias e isolamento informativo, além das desvergonhadas pressões diplomáticas da mal chamada “comunidade internacional”. No entanto, os cidadãos e cidadãs da ilha, preocupados por assegurar para si a subsistência quotidiana (que nada tem a ver, assim e todo, com a dramática miséria dos democráticos países circundantes) e, isso sim, sem perderem o seu aquel parcimonioso de sempre, semelham dar bastante pouco crédito aos cantos de sereia que do estrangeiro chegam com a sua consabida ladainha de aberturismos políticos, democracia liberal, economia de mercado, pluri-partidismo e mais ismos ao uso. Ao cabo, mal que bem, continuam a saber-se donos da Terra que pisam. E são mui conscientes de que a real beneficiária de uma mudança radical no estado de cousas não seria outra que a máfia gangsteril de Miami.

Entrementes, ali ao lado, no continente, para os pobres e esbulhados continuará a haver esperança enquanto a irmã Cuba subsista, enquanto o socialismo siga vivo na América Latina. Não sou eu que o digo. São eles mesmos que o dizem.

Galiza. Dezembro de 1997.
80º aniversário da Revolução Socialista de Outubro.

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