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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 38


 25 Abril 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza


No 25 de Abril: Aos que ainda lembram

Centro de Documentação 25 de Abril

Celso Alvarez Cáccamo


início
Este texto tem uma história estranha. Foi escrito em 1995 e enviado à revista A Nosa Terra, onde nunca foi publicado, ao parecer por razões de tempo. No ano seguinte, foi lido entre poemas de outros perante uma dúcia de pessoas que comemoravam, no local da Agrupação Cultural O Facho da Corunha, os velhos signos da revolta. Agora sai em Çopyright e, como texto, acaba o seu ciclo.


          Eu tinha quinze anos quando, numa manhã assoalhada, entre os corredores dos edifícios escolares, cresceu a voz jubilosa de que no Sul acontecera a revolução que outros jamais pudemos ter. Lembro-o agora, e lembro-o sempre que atravesso a ponte falaz do rio que nos divide, custodiada por sentinelas de doze estrelas amarelas circulares, um símbolo fechado como as fronteiras exteriores desta cruel Europa, um desenho que perverte a eterna geometria de Stonehenge, um frio emblema que emula a circularidade do Discurso donde emerge.

          Na verdade, nunca poderei conciliar de tudo a minha admiração por aquela revolta de flores e canções com a imagem dos tanques e fuzis, que sempre matam. Mas muito me temo que me respeito e respeito as minhas próprias contradições, e hoje, como então, percebo aquela manhã assoalhada talvez como o maior símbolo da nossa cultura política actual, porque a revolta dos cravos aconteceu aqui, na casa nossa, no nosso único território segmentado por dous exércitos rivais, simplesmente ao Sul dum rio imposto por outros para nos roubarem a História e a palavra.

          Tantos anos mais tarde, ainda há uma revolta pendente ao Norte e Sul do rio falso. É a revolta da fala, o balbordo das ideias e dos feitos, o reunirmo-nos sem causa nem escusa nas noites cidadãs para trocarmos textos, voltarmos a constatar o mútuo persistir, elaborarmos obsessos projectos de papel e resistência, cedermos finalmente perante a premura do alvor que já golpeia como uma maré de minutos implacáveis contra ruas e alcovas desoladas. Essa revolta de palavras inaugura-se cada dia nos actos mais miúdos. As mais das vezes não somos conscientes, mas estivéramos todo o dia a colocarmos pedras para acrescentar uma torre de palavras. Ao cair a noite vêm o vento e um deus cruel, e no-la esmagam. Espertamos com a língua resseca de falarmos. Mas, se cumprirmos de novo o esforço de procurar-nos mutuamente pelas ruelas em que ainda podemos habitar, se é assim, logo, a nossa derrota clandestina vale a pena.

          Somos poucos. Talvez eu nem sequer seja um de nós mesmos. Só sei que existe alguma gente com nome verdadeiro que não esquece aquela revolução de cravos, nem o poder da conversa, nem o ingrato trâmite de todos os dias alumiarem um sonho muito antigo à margem e por baixo dos formidáveis edifícios oficiais, onde se estende um ar podre de favores que espero que nunca alcance aos proscritos. Essa pouca gente reune-se sem grandes algaradas para lembrarem um povo e uma data nas ilhas anónimas das cidades: não debaixo do foco dos objectivos alerta, não diante dos microfones luxuriosos, não debaixo das alvas asas das editoras nacionais, não sob o pálio branco-azul que acolhe os heterodoxos consentidos, não nas revistas que reproduzem as minúcias fac-similares de autores da pré-guerra, não nos eléctricos escritórios onde subalternos mal pagados amartelam os projectos intelectuais do governo, não na voz ubíqua da rádio que em cada entardecer nos repete as mesmas convocatórias insípidas, as mesmas mediocridades, os nomes próprios de sempre. Não: essa escassa gente reune-se de dous em dous, de três a três, às vezes a sós, em torno dum longo café de sobremesa, com um caderno de manchadas notas apertadas, com uma brétema de cravos vermelhos imorrentes nas olhadas, sempre na formosa impossibilidade de serem multidão.

          Venim d'un silenci antic i molt llarg: vínhamos de um silêncio antigo, longínquo. Alguns de nós, ou deles, ou de vós, ainda o levamos acima, e o nosso sonho consiste em resgatarmos desse tempo antigo as poucas palavras certas que nos constituem, e em dizermo-las no papel como são, comuns e solidárias a Norte e Sul do nosso rio. E fazendo isso alguns de nós, ou de vós, arriscamo-nos ao escárnio e à mentira.

          É perigoso, não se engane ninguém: é perigoso. Mas somos assim, ou são assim, os que ainda lembram.


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Çopyright recomenda visitar o Centro de Documentação 25 de Abril
da Universidade de Coimbra, com informação dos acontecimentos
e documentação gráfica e sonora


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