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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 37


 23 Abril 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza


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Finis-aqua

Pedro Diniz de Sousa


Os carrascos e a vegetação rasteira imediatos à falésia que dá para o buraco do mar ao pôr do sol têm os ramos alaranjados do ângulo oposto àquele donde ele vê. O vento sopra e o frio que traz esconde os ruídos. É nas finisterras do lado leste de Sesimbra, ou mais para Leste, na Arrábida, não excluíndo lugares semelhantes que existem no mesmo dia; não faltam na Europa precipícios costeiros recortados à espera de anoitecer.

Ele encontra-se para os lados da Aldeia do Meco, o mar é uma angústia azul e distante lá em baixo. Não foi ali fazer uma coisa normal. Aliás, não podia ser manhã, neblina reflectindo muita luz e isso. Era impossível. Encontra-se sozinho com o carro, sujeito passivo duzentos metros atrás dele, e ao lado esquerdo a cem metros está um restaurante que parece um hangar e uns carros à porta imóveis ao vento e umas pessoas, nem meia dúzia, em trânsito entre os seus carros e o restaurante. Este conjunto do lado esquerdo é tão estranho como uma orientação que a vida podia ter tomado aos nove anos de idade a partir duma situação impossível de lembrar ou tentar lembrar. Por isso do lado esquerdo há vento e as pessoas abraçam os próprios pullovers contra si e amam-se das posições relativas em que andam devagar porque são familiares entre si e o que é melhor estimam-se sendo adultas.

Ele vai ficando a ver as ervas, os carrascos, um ou outro saco de plástico a esvoaçar no isolamento da morte e à distância a argamassa do mar compactada pela perspectiva e gelada, e profunda como quem tem sono. Ele parado, existindo por sobre a paisagem e só isso. Pensa? Pensamento insondável no desvario em que anda, um remoínho. Não foi ali fazer nada a não ser andar de carro, perseguir as estradas, as curvas, dominar, dominar o que nunca foi dominado e que é a vida.

Mas isso do carro é antes, e depois, porque ali propriamente ele não foi fazer nada. Mas lá que o vento frio e a paisagem são um estranho remoínho... Talvez o que o detenha ali seja que a paisagem toda e cada parte contêm a sua infância, essa claridade afogada no esquecimento; e o esquecimento não é mais do que a pressa para cumprir a morte; talvez daí a inquietação. A bola de soprar, às cores, saltando na praia, na década de 60 e no respectivo imaginário moribundo para ele. Pois o Estoril. Pois a empanagem do carro num pinhal qualquer e os tios e aqueles sons da 40 do Mozart, o combóio da Parede, azulejos do chão do quintal pelo verão, e décadas depois Setúbal, a Martine, o desespero tá tá tá, os primeiros medos do mar, e tanta tanta tanta coisa e e e e e e e e e...

Um desvario. Uma excitação de morder o não ter havido aquilo, tá tá tá, morder o que houve e não sabe. Hoje já nada sabe a nada ali ao vento, o calor laranja nu do sol diz que sim, concerteza, nada sabe a nada. Nem os sacos de plástico brancos e o acolá azul-claro passam do que são. Nada passa do que é. O écran da matiné ali mesmo, o Peter Pan projectado no écran do céu do cabo, não. Pelos rochedos que dali não se vêem entra-se no mar. Entra-se mesmo. As ondas grandes, a espuma, tudo: entra-se. Depois as pulsações aceleradas com o alto do precipício lá em cima no começo do céu, e o envolvimento na água propriamente dito. A seguir o escuro, o engolir a água salgada, e o morrer afogado de solidão, os rochedos mortíferos dos lados e atrás a praia escassa, a ravina impossível de subir. Mas tudo isto é um delírio porque dali não se vêem sequer as rochas, a praia, as ondas, embora se possa ouvir o murmúrio. E o que existe é o que se vê dali.

Há tanta coisa que passa fora da vida. O que não passa fora de certeza é as ervas verdes esvoaçando alaranjadas pelo sol poente e o perturbador vácuo do precipício logo a uns metros, e o horizonte de mar; numa palavra, a infância. Ela não passa fora. Ele é uma criança. Terá deixado de o ser em certas alturas, terá até dobrado para outro oceano, mas regressou ao primordial, ao oceano de água doce da infância. Condição de criança como preço a pagar pela possibilidade que há de viver.

Dentro do carro semi-adormece ao som da rádio. Roda a chave, desliza suavemente sobre a terra batida, eras de experiência. Vai-se daquele lugar penetrando a estrada com satisfação selvagem.

Impossível ali de manhã com uma coca-cola na mão e olhar incendiário. Impossível o avesso da vida. Vida uma submissão miserável. Ser incendiado ele pela paisagem, mãos nos bolsos, alma querendo engolir a cidade longínqua onde mora aquela pessoa. Alma louca de alegria por poder estar no impossível através da vegetação rasteira e do mar. Mas sabendo, submissa, ser impossível ali de manhã. PORQUE NÃO FOI.


9.outubro.1990


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