[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 11


1 Setembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Com data de 1995 saíu à luz na Corunha um volume de poesia
que contém o trabalho poético do grupo Hedral,
reunido ao abrigo da agrupação cultural
O Facho.
O livro, singelamente intitulado 7 POETAS, distribuíu-se gratuitamente.
No mesmo espírito livre e não comercial,

Çopyright continua neste número a reprodução sem fronteiras
da obra dos sete poetas.

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7 POETAS

Alfredo Ferreiro

Visão do médium
(Textos egoístas)


Fim Fim de Çopyright 11

REALIDADES E-VIDENTES

VISÃO DO MÉDIUM

Escrever um poema deve ser um dilúvio que agoniza.
Que aperta com violência o coração contra si.
Que sufoca até o limite.
Como a imagem do mar no horizonte.


FIGURA DO TEMPO

Caminhamos para uma espécie de essência continuamente.
Somos, errantes na planície, vítimas do vento astral.
Na demora das horas, devoramos o traje salgado da alma.
Só então é que ficamos fiéis à esfera celeste.
Na escravidão do sopro que nos arrasta.

A noite é um ninho infinito dado a volta.
Olhamos o relógio no puro ritmo do latido:
Despendura-se uma estrela
como quando a imagem do sol no pêndulo se enforca.


CANÇÃO SEGUNDA

UMA canção de inverno como prelúdio do ser.
Ou como a morte do ar
que se respira no relâmpago.
Como um passeio imóvel na floresta, no delírio das cores
na penumbra do recife do coração. Com a humildade
do mastro quebrado. Reverente e submisso como uma asa perdida,
deslocada na sombra.
Uma canção encarnada como um oceano de estrelas seduzindo a praia pola queda do sal
entre os dedos da areia do firmamento.
Uma canção ferinte como a matriz áspera da mais grande epifania.
Que é a epifania da morte, como um punhal cravado
no certo centro
de um desejo eterno de punhal.


ESTRANHAS RESULTAM AS CASAS SEM LUZ

Estranhas resultam as casas sem luz com corredores escuros. Estranhos. Uma casa deve ser um passadouro interminável de poemas rente um rio fresco de mãos abertas. Uma casa deve ser, ante tudo, um passadouro. Uma casa do caminhante exausto, n a que entre o sol apertando o colo das montanhas. Na que entre o homem derrubando-se sem medo. Na que poda ficar sem voz, em ausência de si mas em presença do mundo.

Uma casa é um ventre de mulher berrando um punho em alto. Uma fortaleza do sangue. Um prego ardendo no mais profundo do ferro da alma. No segredo último da alma, que é a pluma invisível com a que sonha para algum dia a possuir.

Não sei quem dixo um dia uma mentira: a casa é um refúgio. E não é certo. Porque a fugida expele um sabor do que a casa não participa. A casa sempre fica perto, nos reflexos húmidos dos olhos, no sorriso do s caminhos a se deixar caminhar. Não é certa a qualidade quadrada da casa. Razões são dadas. Mas é verdadeiro...

...seu ficar constante no retábulo da inspiração. A sua imagem profunda de rio é o chão que a sustenta. O seu tecto, é um baloiço suspendido e ridente a nos convidar. Sua porta equânime, o tempo entra ndo, e o movimento do espaço que respira. Ficando além da casa, um sonho de escuridão.


1(1) TEXTO(S) AUTOMÁTICO(S)

I

O sol cai na ilha
que queimada morre na água.
A caveira oferece os seus buracos escuros.
Também nós somos artífices da falésia.

II

São as horas elos que nos apertam.
Mas, às vezes, o tempo foge de nós, espavorido
no ceno estático que o sepulta.
Foge por salvar seus filhos de prata      -os momentos
nos que fitamos o limite com desprezo de deuses.

III

Cantam as aves com asas tensas de violino.
Mães fixas na penumbra
acossam nossos sonhos de arcos e colunas.
Cravemos os olhos na distância:
o caminho que nos leva flui como rio de estridências.

IV

Estamos no prado. Ao redor roxas flores
e magníficos mistérios. Quando o quadrado do sol
ganhe uma volta
voltaremos ao buraco das nossas sombras.

V

Na noite o sol come na sombra.
É um reflexo fugaz que nos adverte sua presença.
De não ser polos espelhos do lago
a noite asfixiaria os nossos pulsos tensados.

VI

A cama fica no ar perto da cabeça
como escudo de armas.     Fai a paz no branco do lençol!
Fai a guerra no sonho ardente do escândalo
das formas!

VII

Salta o rio satírico!     Corre monte arriba!
Fica na cadeira da árvore!      Gere o descanso.
Gera      -os braços abertos-
o descanso neutral da origem da espada.

VIII

O relógio come passas. Sem pevide na boca
balbucia um corredor de palavras para a sala do rei.
O rei não acha o ceptro
ante o vazio do mundo.      Mil cousas são só três
como o mar fai na praia uma unha.

IX

Um cântico no papel: tua gorja funda a suster
uma nota irrepetível.    Cessa o som
no quarto. Olhas o volume da minha mão
como facto virtual da agressão do objecto.
Cometo a falta de erguer o dedo
para ficar afogado no punho o cimo do mistério.

X

Uma terra agreste fica na mente.
Ante tal surdez, a humildade do caracol
caminha na linha do sol
crepitando um desejo de grito.
Um desejo e um grito
após o trânsito voraz do medo ao desgarro.

XI

Desgarro inevitável: minha mão fica despida
na palpitação do olho que me observa.
Três dedos ficam sós em solilóquios.
Do resto não se sabe
mais que o fim da carne
e um arrependimento inconstante no albergue
das ondas.


POEMAS DO MÉDIUM

ENIGMA

     Quando vejo um médium, minha mão cerra-se guardando as unhas na carne. (Cumpre não parecer agressivo).
     Aproximo-me de vagar, entre a multidão de sombras, por me fazer fotografar acarão dele. Grande erro: o médium odeia a fama como os ácidos o açúcar.
     Ante uma tentativa errada de perpetuação, compreendo que o assunto tem esquinas, e as esquinas sombras. Fixo então, simplesmente, os olhos nas suas mãos, respeitando a distância que em verdad e nos une. Para o meu assombro, um código de vidro abre-se ante mim: «Minha terça mão rege o punhal do tempo».

Mentres sucumbo no ossário do espelho
as minhas mãos têm a idade do universo.


II

O médium divisa o mundo desde o cimo da montanha dos seus olhos.

Às vezes, palpita na sua mão o assunto do tempo, a morte de alguém com passos apurados, que o médium conhece no cheiro a sapatos molhados. Então prepara a sua mala: por fora o coiro, por dentro sua mirada guardada.

A composição do ar indica-lhe o lugar da descomposição do homem. Chega cedo      -antes do que a morte sempre é cedo-
sua pupila ao quarto,
e com gesto procedente
os lençóis ultrapassa até a mesma alma.


AS VISÕES

Observa o médium a paisagem para ver mais dentro de si próprio.
Na árvore do jardim não vê uma árvore. Na poesia não vê um líquido transcendente. Tampouco vê nas veias dos homens o ácido transparente da alma.
O médium não tem olhos. São as visões, elas próprias, que a ele se apresentam: «Somos as visões e passaremos se você quiger, para ilustrarmos o mundo».


CANÇÃO DO MEDIUM

«Sou capaz
de dançar
no prisma
da minha morte.
Sou voraz
na minha mirada
desapiedado
na minha dança.
E durmo no sonho
das mortes vossas
na vertigem fugaz
no rito
na coluna eterna
que me suporta».


O LEVANTADOR DE MINAS

AS VERDADES OCULTAS

O jogo que nos possui fornece um abano de estrelas como uma mitologia. A neve que cai e se derrete no sonho. A luz e a luva que surgem da tertúlia do fogo. A arte duns dedos que por vezes nos tocam a amiúde nos devoram.

Cada qual é senhor deste mundo porquanto pode olhar o que o rodeia. Mais uma cousa é fiel como uma estátua: o sol a rolar ante os óculos da terra ou a maré firme no movimento do nosso sangue.


PERIGO DO JOGO

A morte inspecciona o jogo com um vocabulário envenenado.
Léxico de sombra, infância demorada, como a inocência que
descansa e mata.

O brilho dos olhos é sintoma de vingança.
Muda a tarde:
a voz muda grita dos peitos a palavra.


AS PEDRAS (ESTAT(U)ISMOS)

A VINGANÇA DO FÓSSIL

Jamais a vingança da pedra foi tão jovem.
Jamais a boca do sol foi tão grande
como o tabique do universo
nas unhas que afiam a nossa morte.
Uma estrela é uma marca dactilar,
e o céu uma enorme mão que nos aperta.
Três montes são três deuses e nós somos
seus altares. Se rompemos nossas faces
mil cores aparecem no prisma da nossa morte.


O CENÁRIO IRREPETÍVEL

Um dia chegará em que todos nos sentiremos o cérebro do deserto.
Uma areia subtil reinará como uma espada.
Um plágio do sol será a nossa casa.
Esse dia chegará em que mudaremos de alma como uma cobra.
Em que nosso olhar será um tabique do mundo
e não a estrutura óssea do nosso medo.
Nossos dedos coloridos pintarão o quadro
do nosso credo: uma caveira como uma luz na mão
e infinitos dentes na sombra do nosso peito.


OS ATLANTES

Têm as pedras um desejo volátil que nós não percebemos.
Um sentimento líquido, talvez, habita o seu coração.
Um modo aéreo de pensar-nos, uma forma vibrátil de olhar-nos
também mora em seu interior.
Não as compreendemos porque temos colunas por pestanas.
Porque talvez somos vã cousa
a crer-nos barro sem fim e molde de uma grande casa.
Capazes somos de ser o desprezo do chão
onde as pedras têm sua morada.
Atenção!: não somos nada. Apenas o que de dia se vê
sob a forma de uma estátua.


O TEMPO DE VIVER

Uma hora de pedra.
E o sol a virar louco polas esquinas do universo.
Nós, processando lamentos e passando a ferro
os sonhos.
Talvez nossa mão
nosso braço
talvez a mão do nosso braço seja nossa alma
e nossa face um espelho do nosso medo.
Capazes de virar em redondo nossa voz
atraiçoamos nosso gesto
na tangente do mundo.
Na pressão do ozónio meu cérebro vibra
e os ossos que me rompem construem uma figura
atroz como uma tíbia.

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