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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 12


2 Setembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Com data de 1995 saíu à luz na Corunha um volume de poesia
que contém o trabalho poético do grupo Hedral,
reunido ao abrigo da agrupação cultural
O Facho.
O livro, singelamente intitulado 7 POETAS, distribuíu-se gratuitamente.
No mesmo espírito livre e não comercial,

Çopyright conclui neste número a reprodução sem fronteiras
da obra dos sete poetas.

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7 POETAS

Mário J. Herrero Valeiro

Apontamentos para uma Máquina de Guerra
ou um Mundo Crânio (antilogia)

Fim Fim de Çopyright 12

Três textos revolucionários.

I. (teoria do desejo e cultura da satisfação)

A cultura da satisfação procura por cima de tudo a destruição do desejo, a ânsia. Desejo e ânsia são pleonasmo. O desejo é revolução. A ânsia é subversão, caçaria, matança interna. Frente à forclusão, à denegação social imposta polos satisfeitos, erguem-se a minoria deleuziana, o grupúsculo guattariniano, o sujeito-Panero, o significante-comunismo, o princípio fundante anarquia. O desejo. Não há mais aventura que o crime, nem outro herói que o assassino. O poeta é um assassino. Mas também pode ser cão do Estado. Ou miséria da Pátria: significante desterritorializado, assimilação semântica. O mito do malditismo. A ânsia é subversão, atomização, desintegração do desintegrado. Ânsia é antónimo de Deus. Desejo é antónimo de família, de amor, de literatura. Desejo é uma invenção política em demência, arquitectura de cadáveres. O crânio do que deseja é a próprio tempo a cúpula do templo e o altar do sacrifício. E terá de ser também a vítima. Ânsia é a perversão de uma vida. O suicídio teórico aquele praticado e negado por Benjamin ou Panero actua como fundamento do sujeito da ânsia. A esquizofrenia é uma das suas exterioridades. Outra é a violência revolucionária. A prática activa do comunismo. A concretização do modelo anarquista. Scardanelli cantando à primavera. Loucura ou terrorismo são significantes falazes com os que os satisfeitos estigmatizam a consecução do desejo. O sujeito-repressão desborda o modelo de Jano. A repressão é uma realidade técnica, uma criação necessária que ultrapassa os níveis da mediocridade de qualquer modelo político designado democracia. As múltiplas faces da repressão representam um modelo ontológico, uma representação dos cosmos. Scardanelli oferecendo um modelo de loucura. Hölderlin objecto de repressão responde com poemas da loucura. A repressão tem por objecto a eliminação do desejo. Portanto, a consecução da felicidade através das nossas misérias, dos nossos micro-fascismos fundamente inoculados em cada célula, em cada poro da pele. Não há outro herói que o assassino, arroja Panero. E é certo. Porque o crime concretiza o desejo. O desejo da sangue da massa. Assim ETA, Sendero Luminoso, Baader Meinhoff. Caminhos de luz vermelha. Estado é pleonasmo de repressão. Ou instrumento. O terror é monopólio do Estado, da repressão. Mas isto não é nada novo. Bergamín ou Albiac, sem irmos longe nos nossos espanhóis referentes que denotam a nossa colonização. O Estado não comete crimes; os militares argentinos aplicando a picana nos testículos de um militante da extrema esquerda criam uma realidade necessária. Um dirigente socialista espanhol negando há anos a possibilidade de aparição de provas da intervenção do Estado nos GAL realiza uma função purificadora na dinâmica poder-submissão. A elaboração de qualquer texto actua como substitutivo da consecução activa do desejo, da materialização da ânsia. Henry Miller na procura de palavras que destruam o mundo. Com Foucault bem o sabemos, a repressão é primeiramente a criação de uma realidade, da realidade. Assim o Deus dos católicos. Por isso, desejo só pode ser perversão do silêncio. Objectivo social do desejo: levar até as últimas consequências o tempo dos assassinos. Miller e Rimbaud. Utopia interna, descarnada, bebendo do sangue. Mau-Mau para Panero. Ou mão negra. Matança. Em paradoxal concordância estética com o neofascismo italiano. Ou Sendero Luminoso. Poesia é substitutivo de matança, não nos levemos a enganos. Desejo, ânsia ou matança. Panero dá-lhe forma linguística com um monstruoso aviso aos civilizados. Bukowski disfarça-o de lixo e vómito, em urbana revolta polo chão, em canto de derrota, com o nojento aroma do vinho barato. Em Vallejo ou Miller confundia-se com o sexo. Mas penso que a confusão é falaz, produto de leituras fragmentadas, desintegradas. Porém, é seguro que frente ao Estado da felicidade, a cultura da satisfação, existe uma Somália da alma, uma ética do desejo e uma estética da matança, uma agonia do espírito que vomita sobre Deus e os seus sicários. Começo a intuir a sua existência desde há mais de cem anos, um mundo que se constrói através da desintegração contínua, do suicídio diário, das estratégias da derrota esteticamente insuperável. Uma demente arquitectura de cadáveres frente à colonização do indivíduo através dos instrumentos repressivos (ou seja, criativos): psiquiatria, psicologia, filologia, política institucional, política sem território, educação para as boas bestas nos colégios eleitorais, nações sobre as vísceras dos eternamente derrotados (sempre Benjamin). Ou da sua destruição absolutamente física: heroína, álcool, família, seitas. Vivemos um mundo que é um ermo, o mais produtivo dos desertos da alma. A ânsia é uma ética da resistência em luta com os instrumentos de colonização, de forclusão, de alienação, de destruição que faz de nós a perversão de um deserto. O desejo é uma estética do suicídio, construção que necessita de um escasso vocabulário. O significante da vida é hoje arquitectura de cadáveres, isto é: poesia, pois outra cousa não é a palavra contra Deus na terra. Poesia é revolução no centro do panóptico. E desejo só pode ser denegação do paradigma da felicidade burguesa. Isto é: revolta. Como os camponeses na França medieval. Matança. Desejo é desejo de morte, de construção através da desintegração contínua e total, através do suicídio da esperança. Desejo é elaborar um trilce e exercer de são-gabriel no sexo da virgem. Castração. Sejamos sinceros, a ânsia exige a eliminação das línguas subsidiárias, da falácia das palavras inocentes. Não há inocência no centro do ermo. Desejo é nomadismo em espaços mortos. Pensamento nómada em corpos atrofiados. Perverter a perversão das mesetas esquizofrénicas. Castrar a vida. Eliminar o prazer dos sentimentos menores. Morrer de fome entre as pedras da Etiópia literária. Agoniar nos olhos de um deus desnutrido com esse ventre descomunal. Recobrar agora toda a dor do futuro. Castrar o horizonte desintegrando-nos. Ser areia no deserto de Ocidente. Ultrapassar o comunismo. Ir além de anarquia e niilismo. Fazer de Niestzche a música do blues derradeiro. Ser um signo menos numa matemática demente. Construir um discurso de vento e sangue. Ser um nómada na procura de uma ética do delírio. Construir palavras para um desastre. Eliminar os oásis. Oferecer as veias e encher de sangue um poema. O desejo só pode ser a perversão do silêncio, o jogo a morte contra o tribunal dos inocentes.

II. (éticas do sacrifício, novas palavras de desastre. Texto sobre estética)

não compreenderão os homens a magnitude do desastre. Verão factos vulgares, palavras difusas ou olhos queimados, mas não saberão ler a escrita da desolação. Escrever em vermelho sobre os desertos da alma, dixo um dia o caído. E em horas inacabáveis de desgraça, o sangue tingiu papéis impróprios. Se fosse burguês, seria louco. Se fosse crente, seria profeta. Se os olhos ultrapassassem a maré imensa de ódio, acharia em silêncio o rosto de deus. Quando vejo os estigmas nas minhas mãos, alcanço a intuir a importância vital do sacrifício na dinâmica desta destruição. Se eu fosse um homem, seria assassino, seria caçador e amante na batalha. Verão olhos queimados. Os seus olhos em descomposição. Poetas são aristocratas de cemitério. Leitores desesperados de páginas perdidas. De signos inúteis sobre o deserto. Se fosse sacerdote, cravaria as cruzes e alçaria as facas. Alçaria as facas e em danças vermelhas debuxaria o mundo. Se fosse cão, ouvearia a matança. Verão só os factos e a estética da decrepitude: para que escrever a Bíblia se tudo está no ódio de um homem empunhando um fuzil? para que ler páginas sagradas se alguma mulher procurará a salvação no amor de aquele homem? Quem lerá sobre o meu cadáver? Quem recolherá todas as vísceras sobre o chão? Afinal sempre a imagem do sangue a tingir o deserto. Afinal sempre a visão exterior de línguas subsidiárias. Lembro um dia em que chorei, um dia em que falei, um dia em que morri e arrojava flores e música. Lembro também as palavras dos outros e ao instante não eram. Se não fosse um covarde, estaria fora. Se não fosse um herói, não escreveria as letras supremas sobre a terra. Cospe sobre a voz do morto. Queima os seus restos e derruba a sua morada. Frágil como um anjo, a luz acocha-se trás-do muro. E a verdade terá nome de catástrofe. Escrever em loucura; na loucura que Bukowski designou ordinária, quotidiana. O fascismo quotidiano de Deleuze, de Guattari, de Albiac, dos obreiros que não queimam as fábricas, dos alunos em escolas de miséria. E os seus livros gangrenados sobre as mesas. Como parábola do pensamento. O suicídio de todos os dias. O estar fora, o escrever desde fora, o morrer num desastre diário. Palavras de um assassino; a consigna é de Leopoldo María Panero. Palavras sempre para a hecatombe. Palavras insuficientes para o desastre. Não compreenderão os homens o espaço nómada, aniquilado quase instantaneamente polo discurso. Ditadura da voz. Cárcere para o desejo. Sobre estas páginas como cadáveres, verte-se o ódio do mundo e os executores cumprem a sua tarefa em edifícios apocalípticos repletos de bestas que conformam famílias. Cairemos, cairemos, pois está escrito, escrito em ordem, escrito em amor, nadando sobre nós. E as roupas que cobrem o nosso corpo tomam forma de sudário e saúda-nos a noite com desprezo e os ritos alçam-se mais uma vez. Lerão só as linhas de água, tu sabe-lo, mas ignorarão as linhas de vento, aquelas que são nómadas, e assim assinarão a minha desaparição das suas mentes e já não serei uma faca nos corações. Não lerão esta dor e terão filhos. O homem é um ermo. Porém, alguns pervertem a sua própria essência e intuem a vida. Escrever em loucura. Ou em vermelho, pois sangue e loucura designam o mesmo no poema. Ou sangue e vida no instinto do vampiro: desejo de revolução. Necessidade de subversão. Elevar sobre o lixo uma mão de vencido, elevar as cruzes de ponta afiada, elevar os nossos silêncios até aos lábios do grande assassino. Elevar-nos e cair, como os bons bastardos que somos. E um beijo isolado não nos salvará da desgraça. Como não nos salvará um poema, nem sequer a lírica divina. Tão só o vento aberto entre os gumes das espadas. O homem é um ermo, pele e ossos a surgirem do lixo. Palavras insuficientes para o desastre. Como os beijos para a salvação. Chegado o momento, as nossas lágrimas lutarão distantes. E entre nós, o gume denegador da fronteira que deforma os nossos rostos. Ou a mentira da linguagem.

III. duas orações (relativamente inconexas)

Primeira.
somos, alguém o cantou com voz amarga há anos, os meninhos loucos que esperamos pola chuva do verão, este é o primeiro dia, um crepúsculo de séculos, uma execução descrita nos seus mais mínimos detalhes desde o começo atroz da viagem até ao atroz final no sacrifício, sem rastos que deixem constância do percorrido suicida, do caminho iniciático até às primeiras fontes, até à derradeira morte, até ao assassínio que é útero e féretro, até às sombras do meu rosto e os espaços vazios que um dia os meus olhos ocuparam: as palavras de combate que há séculos iniciáramos continuam agora, igual de inúteis, aniquilidadas na inexpressividade de toda insuportável dor, de qualquer doença, do que sou, do que até à inexistência serei

Segunda.
com os olhos queimados e as línguas de lume, sonhamos a nossa impura estrangeirice, o desejo de traspassarmos os muros, de levarmos a diferença até ao último extremo: a intuição do afora, do fundo silêncio da guerra verdadeira, o necessário incêndio das nossas nojentas casas, das nossas limpas tumbas, dos espaços cruéis em que as vozes devêm nada, e fazemos uma biblioteca com os nossos versos de erros e cadáveres, uma biblioteca num deserto com um único livro, não apenas de areia, mas do sangue incessantemente derramado num milenário sacrifício, como na cruz, como cada dia de suplício no Calvário de um bairro exterminador. E com as mãos tingidas de merda e a boca como sempre fechada, acordamos agora, no âmbito da massacre quotidiana, inocentes como todos os traidores, e reconhecemos a sombra do nosso leito, e é então, meu senhor, impotente deus dos infernos, quando mais desejamos a morte, o castigo de estarmos sempre dentro, de sermos sempre a doença, nadando na fronteira, nos jardins dos cemitérios, entre a mentira que é a existência na cidade e a vida que poderosa nasce no exercício libertador da loucura


     Uma pupila de areia
     configura o rosto arbitrário do poema
     António Ramos Rosa

a possibilidade de ouvir as vozes insondáveis
de um claro inverno, estranho à nossa vista,
incita-nos a uma reflexão leve,
como a debilidade do nosso pensamento
ou das nossas pernas, leva-nos a um comentário
subtil, a um pequeno jardim de ideias
inconcretas, inconsistentes como o universo,
a um exercício de amor, como afinal descobrimos
talvez desconcertados, e ao próprio tempo
surpreendentemente tranquilos, como um assassino
depois de um crime, mas de jeito totalmente diferente;
como é diferente o perfil do nosso olhar
nestas tranquilas tardes longe da massacre da cidade,
longe dela mesmo, entre as paredes deste
cárcere do intelecto ao que os que dominam
concedem o estúpido nominalismo do universal,
tumba de qualquer desejo de recriação
que é a nossa guarida agora, longe da matança,
longe de qualquer morte entre edifícios e ruas,
e a um tempo a pior entre as mortes; e agora
com estrépito pensamos, e movemos as mãos
com louca liberdade, e na nossa boca nada
é já preciso, nenhum desnecessário som,
nenhuma descarnada palavra, apenas
a salvadora balbúcie que algumas tardes nos acompanha,
aquela que fixo cantar poemas de loucura
em afastadas terras, em afastados tempos,
ainda que sabemos que agora o bosque é simplesmente
uma irreal sombra através da janela,
e a água um eco que intuimos em qualquer lugar
que nunca veremos, se não é entre as pernas
da mulher que nos ama. Que, contra toda lógica humana,
se obstina em nos amar, sem saber das cores
que a tragédia emana, sem saber dos cheiros
que desprende a nossa pele de cadáveres, sem saber
nada da nossa nada. Entre papéis sem sentido,
convertendo em silêncio a nossa falta de voz,
descobres agora um pensamento mísero
mas contínuo, um instinto ancestral de batalha,
a lógica da guerra que nos fartamos de relatar
sem que ninguém tenha aprendido a ler ainda,
e que nunca aprenda para nos roubar o segredo,
o arcano que é a chave da nossa fugaz resistência
de séculos (nós, que não somos burgueses,
não poderemos ser loucos; nós, que não somos
sacerdotes, seremos privados das luzes da revolução;
nós, que conhecemos a morte, ignoraremos
a falácia de uma vida; nós, desprovistos de voz,
desprovistos de escrita, e que não as desejamos,
nós, desamparado, alçamo-nos neste instante
sobre as inconsistências da noite que se aproxima,
e sobre este espaço aniquilador
em que reproduzimos a nossa podridão até ao infinito,
até ao final, contra adoradores e filósofos,
eternamente contra os sacerdotes da verdade,
entoamos mais uma vez a nossa litania
e balbuciamos como nunca
os nossos silêncios de guerra)


HENRY MILLER (Profeta. Assassino Grande cabrão)

este é o universo this is the end
filho da puta, o universo escrito,
tudo está escrito, nem uma folha deixaste
e só fica calar e apenas um rio para não dizer nada, evidentemente nada, de trópico a trópico
e morte e final, profeta grande cabrão, final e morte
estão escritos e os pequenos filhos nunca saberão ler
páginas cheias de branco, branco sem mácula em sexo de mulher,
as lições estão bem aprendidas
não haverá happy end pois nem uma folha,
nem uma linha, nem um fonema... pequenos filhos não
querem ler this is the end, nem portas para profanar,
irmão réptil com língua de lume, incêndio para assassinar
holocaustos e tu, tu, tu, tu, nem um silêncio deixaste,
porco indecente, pequenas putas querem ler um rio
que não diz nada, um rio sem mar,
uma história sem herói, uma lei sem juiz,
muitos juizes sem lei, pequenos cabrões têm olhos indecentes
e não sabem ler o que um pobre porco escreve no lixo,
este é o universo this is the end, irmão réptil,
quando os porcos escrevem na terra e os homens não sabem ler
nem uma linha, palavra, nada,
nada irmã indecência em busca de moral, lei sem juiz,
tu, filho da puta, teu é o ódio e o desejo de ódio e o amor,
como não, tu, tu, tu, língua de lume que queima espaços
em branco e sou eu, pequena puta, um rio para não dizer nada, uma nada this is the end, uma nada, tu, na cidade é inverno,
na biblioteca, a solidão é eterna, ai, nem uma linha,
o rio é eterno, a nada não,
de trópico a trópico
e morte e final,
porcos que escrevem livros, livros que escrevem vidas,
e pessoas, quem o poderia dizer... pessoas, pessoas escritas
em ódio ou desejo ou amor, no amor é inverno,
inverno dos grandes cabrões sem tempo para os assassinos,
bom tempo para cães de chuva, bom tempo para éticas de um,
bom tempo para pesadelos eróticos e molhar em sémen tanta dor,
tantas páginas inúteis, tanta dor, irmão língua de lume,
fode, fode mas cala e não queimes mais,
fode e morre, filho da puta, nem uma linha, fode
todas as linhas, enche-as de sémen e enche-te de todo o álcool
do mundo, fode e escreve por mim, é bom tempo,
tempo sem profecias, tempo sem sede de dor,
bom tempo para calar, bom tempo para odiar,
bom tempo para chuva e cães, bom tempo para morrer


morrer é simplesmente reconhecer que tens vivido
assim é: deus de palavras desordenadas
reclama um espaço para os suicidas em vida,
caminho na plenitude do ermo
polo ventre do deus deixarei a minha merda
como sinal para os cegos que me sigam na viagem:
a necedade de falar não é nada
a monstruosidade de pensar é o tudo
é o verde ao começo da vida
é o escuro nos sonhos e a dor que morde na manhã
é o vermelho quando saímos à rua
e nos sujamos do vómito interminável
que mana deste inferno falaz, desta biblioteca
de paródias e livros de dor que se repetem até
ao infinito, fábrica de capitais e mãe de todas as mortes,
pai de todos os pais
em monólogo de vitória pois hoje estou vivo
e reconheço a minha morte de séculos
a minha chuva em precoz demência
a necessidade de um espaço sem ordem
entre um castigo e outro, uma opressão
na base do crânio está a converter-me
em ser que caminha insone polas ruas, ser vermelho
apagando-me em cada sol da manhã
perguntando onde acaba
o percorrido, onde... aqui o final é o começo,
e o fim será verde, cor de morte por ser cor de vida:
viver é simplesmente reconhecer que estás morto
semente escura nas minhas mãos
é a queda do primeiro Império:
inconsciência no ventre aberto,
solidão de multidão fechada
a língua queima, os escravos mortos
e o amo morto, inconsciência
da luz para sobreviver na matança
sémen para continuar o jogo,
sinto a morte manar, sinto o tempo,
sinto a solidão de séculos, sinto
o crânio em revolução,
sinto o coração da terra no meu sexo,
sinto o sexo da dor nos meus dentes
e os beijos nos testículos, ardem os lábios
e os pés estão bailando no meio da estrada,
espaço para suicidas é o coração,
vento nos olhos para cegar as mãos,
já calarei, cão de chuva podre, calarei
quando por fim tenha algo a dizer
e sinta o sexo da dor além da minha boca
e a semente escura molhe a língua
e morrer é simplesmente reconhecer que tens algo a perder,
apenas o ventre aberto, um intestino de neuronas,
um molho de falácias, uma faca atravessa a mão esquerda,
deus filho à direita, um cadáver no centro,
sinto a morte chegando com estrépito desde há anos,
sinto-a bebendo-me as ideias, as unhas dos pés
que dançam, o crânio desesperado, a enfermidade de ser
ou dizer ou, talvez, querer,
já calarei, um discurso para irmãos podre, calarei
quando tenha tempo, tempo para reconhecer que a morte
é simplesmente um longo solilóquio


«Y sin embargo hay quien, más simplemente, se limitó a decir: "ça baisse", eso jode, eso goza: así afirmó al comienzo de su proyecto el tandem "Deleuze-Guattari": y ello no es cierto, por cuanto la verdad es que eso sangra, sangra, eso sí, por doquier: desde la triste infancia hasta los mucho más tristes trópicos, existe por todas partes una persecución del "eso"»
     Leopoldo María Panero

Encontrei um segmento de mim morrendo
entre as flores dos Coen, as misérias de Europa,
aqueles misfits de decrepitude, e o veludo azul bebendo o
sangue, aquela Rosellini destroçada e formosa, e Hopper res-
pirando o ar puro. Creio que a música de Waits pensou antes o lu-
gar, preparou com paciência o leito que me havia de receber: nega
a existência
dos cães que choram, goza, goza, és a máquina perfeita, canta a
lua triste, não jogues a nómada, edifica uma casa nas estepes, uma
língua da chaira, um sexo de lençóis brancos, uma cadeira de ouro
para os olhos de Édipo, um banho de vinho para os bastardos de
Deus, não jogues a nómada, não destruas os espaços, abre uma
meseta e lê os versos iluminados, situa ali
a minha fracção vermelha, onde a senda perde a luz,
palavra de Mao, louvado o Senhor. Encontrarei
um segmento de ti, poeta, e de ti, esquizo sem sexo,
e de ti, excremento monárquico: barbárie ou barbárie! Isabella es-
tava estranha, com aquele ventre exagerado, e a olhar extraviado.
Um segmento de Isabella por cima dos excrementos, sujos filhos
da pátria da democracia: isso fode, isso fode, isso fode, Miller era
a máquina e o coração, Dennis e Isabella sangravam em sonhos,
misfits de uma idade impia, e os meus olhos abertos perderam en-
tão um segmento, e um mais talvez,
viajando polo limite do ermo. Falando contigo.
Não são os mesmos trópicos. Mas sim o mesmo sangue.


COM FINAL EM BADIOU

O desejo finaliza, a força revolucionária
é agora pura aniquilação, filha bastarda do crepúsculo.
O desejo morre em páginas caladas. Loucura,
flores, iluminações, versos do assassino:
o desejo saindo tremente à superfície
para legar a estas bestas
a formosa violência da revolução.
A luta é a perversão de um poema.
Uma matemática demente.
Um dous destroçado.
Uma invenção política, democracia
arrastada polo chão. Uma pragmática utópica.
Uma pausa na dinâmica da criação.
A luta é uma fenda no coração,
um lago no fundo do crânio.

variante sobre os dous últimos versos:

A luta é um lago no fundo do crânio,
uma fenda no coração.


em terras de ausência não há palavras que sobrem,
não há sons inocentes, não (já conheces tu
a recorrência das minhas fórmulas rituais
de fúnebres paralelismos), nestas frias chairas
em que morrem os nómadas começo agora o meu discurso,
num pensamento, débil e massivo, de uma
estética de guerra, de uma metáfora agressiva,
erótica, amatória do amor que por ti gozo,
edifico, construo e constantemente destruo
com as aleatórias regras da arquitectura do deserto,
perversão dos nobres dominadores das areias, face
em sombras, caçador sem armas, nómada sem cavalgadura,
derrotado de mão alçada num aristocrático gesto de arrogância,
a ficar com o orgulho que nasce da miséria,
no exercício da extrema soledade
na silenciosa crueldade de uma noite qualquer,
e agora, como nunca, tenho a constância
de que estes são os versos que jamais hei-de escrever,
e que, mesmo assim, sangrante na quotidiana
morte, sem território já, sem resto de esperança,
eu, contra ela, em exercício dantesco, com um louco te amo


(eu, em tempo de elvira)

as peúgas velhas sobre uma cadeira de ferro
o meu cérebro como uma máquina de gelo
os sapatos de anos fazendo um ângulo por
cima do meu peito, as minhas mãos
vazias, os sacos sem nada numa esquina
do meu quarto, lembrando-me o passado,
o gigantesco armário testemunhando
durante anos a punição da morte,
demasiados livros no chão à direita
do meu corpo, miseráveis, miserável,
pequenas chaves de prata vivem no interior
do envelope da minha pele, as roupas diárias
que constroem o nosso esqueleto, a contínua
punição sob o a alcunha de vida, as vozes estrangeiras
desde o rádio na desconstrução complexa de uma identidade,
essa tormenta nos andares progressivos da minha cabeça
e as portas, as portas do devir, aprendiz de filósofo,
negação de poeta, catastroficamente um homem, apenas uma voz
emudecida, uma série contínua de possessivos
sem possessão que reclamar, como a necessidade comunista,
como o deus desnecessário, como a obrigação de sermos,
e de morrermos, as velhas peúgas vestindo os meus pés,
mas os meus dedos despidos, os meus dedos despidos,
os sacos vazios que esperam o meu coração,
com cautela explorar os espaços mais extremos
da topografia que a pele conforma ao estender-se numa mesa, tal-
vez ali se criou o projecto de uma família,
a herança de uma maldição,
uma prega inexplicável no fundo do mapa da memória


DIE WÜSTE WÄCHST: WEH DEM, DER WÜSTEN BIRGT...
(«Cresce o deserto. Ai de quem desertos acolhe!»)
F. Nietzsche

às vezes escrevo da areia
e então faço um retrato da minha mente.
deformado, sei-o bem, como só um materialista pode idealizar os traços do seu rosto,
mas o vento que move as dunas
fala bem das pregas da minha face:
faço-me velho, vejo-o nos meus olhos
e não tenho forças para revoltar-me;
ainda que os meus inimigos me chamarão novo,
faço-me velho. e assim escrevo da areia
que levo em mim, e que bebo de manhã, e que
vomito de noite, e que desejo na alba,
folhas de areia às que ninguém chegará nunca,
e então hei-de morrer aniquilando como derradeira vontade,
e hei-de morrer aniquilando-me
como se o dia da morte não for mais que um dia qualquer
e decerto assim é, a consecução da derrota,
o fazer-se eternamente velho entre as entranhas da terra, fazer-se eternamente verme e continuar cego
como o dia primeiro, como os deuses talvez
ou como os cavaleiros azuis massacrados,
e o seu sangue criando blasfemamente fronteiras no deserto descreve o declinar de uma raça,
o devir nada, nada como a areia
para saber que o destino dos nómadas
só existe contra os desejos dos homens
Hoje sou um tuareg que escreve
sobre a areia que conforma o interior do seu crânio


falo, meu amor, da paisagem que eu sou,
das árvores que me conformam, das folhas
que são a minha pele, e que importa?
que importa se tudo é apenas um prólogo?:
já vês como me movo entre os caçadores de cabeças,
torpemente, com o medo dos que se sabem isca,
com a fúria contida que nos protege do abismo;
já vês como com dificuldade me movo,
entre os obscuros sacerdotes, entre os cérebros das
bestas inteligentes, caçadores de ideias, pequenos deuses da falácia; já vês como me movo, mais sozinho do que nunca,
escasso de lágrimas, a realizar-me na areia,
no espaço infinito do fracasso, débil até à intransigência,
débil no combate, débil na derrota, débil
na vitória que há-de ser ineludível no momento derradeiro;
arrastar-se, arrastar-se, esse é o caminho,
com a suprema consciência de sermos trágicos,
de pisarmos a terra desde há mil anos,
com gestos aristocráticos e palavras comunistas,
dionisíacos e marxistas,
onze anos de mutismo, ou um século
inteiro de silêncio: o âmbito do nosso cárcere.
O nosso percorrido finaliza num crepuscular manifesto,
tudo em nós fala da morte,
agora conhecemos a face do carrasco,
um tiro na nuca será o nosso prémio

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