Çopyright
pensamento, crítica e criação

88

31 Julho 2003

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/

Corunha
Galiza

Os sinais de passagem
e outros poemas

Iza Quelhas


OS SINAIS

Passam os barcos e ontem foi jamais
termos visto esses precoces sinais:

deuses, em ferro moldados,
pousados sobre águas,
com seu lixo, luzes que não apagam
(qualquer Césio brinca de fazer dormir
gente e animais).

matizes de púrpura na tarde quente,
o cheiro, o gemido da garganta oca,
como quem não vê desígnios na fumaça

na usina, na fábrica, no estaleiro,
amontoam-se detritos, falta ar
e a bolha
com sua palidez de morte
nos espreita


PATER

Viajarei, meu pai, até o pôr do Sol,
quem sabe navegar pelo rio Solimões?

será outro país a visão da nascente,
fim dos latifúndios e
aldeias arruinadas.

só água e terra se contornam.
só o tempo funde todos os elementos.
só a humanidade consegue transtornar tudo:
basta um instante.


VESTÍGIOS DE TUDO

Após noites de resacas
iluminou-se um litoral de restos.
um mar cinza trouxe os resíduos de tudo:

sandália, cordas, brinquedos quebrados,
esqueleto de guarda-chuva.

da praia, mirámos os restos
que sempre nos são devolvidos,
nós, donos de resíduos,
com seus tesouros sem caixas,
e seus deuses desnudos,
olhámos desamparados
a vasta riqueza do mundo


OS SINAIS DE PASSAGEM

Antes da era de granizo chegar até nós,
as palavras serão ditas,
quem sabe possam
reter a vida em folhas de celulose.

Como decifrar os sinais do labirinto?

Vamos falar do exato lugar onde nossas
mãos se deram,
transformado em lago gélido,
indiferente à súplica de nossos olhos,

dispersos entre tantos sinais.

Vamos lembrar o verde das folhas,
a terra úmida.
Éramos crianças e um inverno sem estação abrigava uma fera e nos rondava.

Entre rodas de cantiga, traziam
os ventos uma morte antecipada,
oculta em sementes e suas cavidades.

Espalhávamos segredos,
alegria devagar, mansa, última
a lentidão de um dia.

Apagados as rotas dos navegantes e sua cobiça, a calmaria dos barcos
e seus rastros de feridos.

O que restou do jardim é cinza de todos os lugares,
praga de algum adivinho.
Ficou sobre os telhados essa cor escorrendo,
telhas incendiadas no ruir das torres.

Apagados os vestígios,
as bruscas tempestades.
Nada restou ou poderá restar
sob uma Lua recuada.

A raiz das águas, fontes,
peixes e pássaros congelados,
mortos como se fossem parte
dessa humanidade displicente.

Os seres de uma insuspeitável ternura,
bois com seus olhos cerrados,
estarão como nossos sonhos:
para sempre dormindo.

A nuvem atômica ou rede sobre nós foi
lançada:
depois do acontecido, nada mais vivo pulsava.

Sob um céu sem cores, uma luz de fogo ilumina insetos e suas lendas.
Nunca mais os charcos e sua beleza,
acordamos para a morte
num mundo sem diferenças.

O fácil presságio esparrama-se por toda a parte,
artefato por gentes elaborado,
indiferentes às crianças e suas mãos de gesso.

Hoje, somos lendas, eventos fantásticos,
iluminuras:
foices, fogo, cabeças suspensas, corpos mutilados
ou fogueiras
sem sumários julgamentos.

Na desértica paisagem já não mais se vêem
a influência dos astros e suas rotas:
só resta a miragem dessa
insensata experiência.


Do livro A passagem dos sinais (1996), Rio de Janeiro/Niteroi: EDUFF.


anteriorÇopyright 87: Foi o tempo em que
caíram as estátuas

índiceÍndice

Çopyright 89: Documentos Sonoros #5: O porvir do galego,
um debate entre R. Carvalho Calero e C. García Gonzálezpróximo
Colaboradoræscolaboradores