Í n d i c e

Çopyright
pensamento, crítica e criação

86

17 Maio 2001

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait

Corunha
Galiza

O “Eu” e o “Mundo” de Rainer Maria Rilke

Carla M
milha@mail.telepac.pt

          A escolha de uma missiva como ponto de partida para uma reflexão sobre a literatura, pareceu-me interessante sobretudo porque a relação pedagogo (Rilke) / discípulo (Kappus), clara nas Cartas a um Jovem Poeta, reveste o discurso do emissor Rilke de um carácter pedagógico que comporta uma aproximação do poeta Rilke à sua própria poesia e, consequentemente, às fórmulas que a regem. Como tal, (e esta primeira carta demonstra-o) confrontamo-nos com ideias (que ás vezes assumem contornos de ideais) que o autor imprime fiel e coerentemente na sua obra, tentando seduzir o seu jovem interlocutor com a ideia de que a poesia e a vida se não podem distanciar.

Rainer Maria Rilke: O "Eu" e o "Mundo"
(Carta de 17 de Fevereiro de 1903)

Meu caro senhor:

Acabo de receber a sua carta. Não quero deixar de lhe agradecer a grande e preciosa confiança que esta representa, mas pouco mais posso fazer. Não analisarei a maneira dos seus versos, porque sempre fui alheio a qualquer preocupação crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada, aliás, pior do que as palavras da crítica, que apenas conduzem a mal entendidos mais ou menos felizes. Nem tudo se pode apreender ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que acontece é inexprimível e se passa numa região que a palavra jamais atingiu. E nada mais difícil de exprimir do que as obras de arte - seres vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera.

Dito isto, apenas posso acrescentar que os seus versos não revelam uma maneira sua. Contêm, é certo, gérmens de personalidade, mas ainda tímidos e escondidos. Senti-o, sobretudo, no seu último poema: A Minha Alma. Neste poema, qualquer coisa de pessoal procura encontrar solução e forma. E em toda a bela poesia A Leopardi se sente uma espécie de parentesco com este príncipe, este solitário. Contudo, os seus poemas não têm existência própria, independência, nem mesmo o último, nem mesmo o que é dedicado a Leopardi. Na sua carta encontrei a explicação de certas insuficiências que já notara ao lê-lo, mas a que não me fora possível dar nome. Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-mo a mim - depois de o ter perguntado a vários. Manda-os para as revistas. Compara-os a outros poemas e alarma-se quando certas redacções afastam os seus ensaios poéticos. Doravante (visto que me permite aconselhá-lo), peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para fora: eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode aconselhá-lo nem ajudá-lo - ninguém! Há só um caminho: entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se esta necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. Confesse-se a fundo: "Morreria se não me fosse permitido escrever?" Isto, sobretudo: na hora mais silenciosa da noite, faça a si mesmo esta pergunta: - "Sou realmente obrigado a escrever?" - examine-se a fundo até encontrar a mais profunda resposta. Se esta resposta for afirmativa, se puder fazer face a uma tão grave interrogação com um forte e simples "Devo", então construa a sua vida segundo esta necessidade. A sua vida, mesmo na sua hora mais indiferente, mais vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Então, aproxime-se da natureza. Experimente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê, o que vive, o que ama, o que perde. Não escreva poemas de amor. Evite, de princípio, os temas demasiado correntes; são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, por vezes brilhantes, se apresentam em grande número, o poeta só pode fazer obra pessoal na plena maturação da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite os que o dia-a-dia lhe oferece. Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o afloram, a sua fé na beleza. Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize, para se exprimir, as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações. Se o quotidiano lhe parecer pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há sítios pobres, indiferentes. Mesmo numa prisão cujas paredes abafassem todos os ruídos do mundo, não lhe restaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa magnífica riqueza, esse tesouro de recordações? Oriente neste sentido o seu espírito. Tente fazer voltar à superfície as impressões submersas desse vasto passado. A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas incertas do dia, uma espécie de habitação fechada aos ruídos exteriores. E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu mundo, não pensará em perguntar se são bons ou não, não procurará conseguir que revistas e jornais se interessem pelos seus trabalhos, porque gozará deles como de uma posse natural, como de um dos seus modos de vida e de expressão. Uma obra de arte é boa quando nasce de uma necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isso, meu caro senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota. Só lá encontrará a resposta à pergunta: - "Devo criar?". Desta resposta recolha o som sem forçar o sentido. Talvez chegue então à conclusão de que a arte o chama. Nesse caso, aceite o seu destino e tome-o, com o seu peso e a sua grandeza, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir do exterior. O criador deve ser todo um universo para si próprio, tudo encontrar em si próprio e nessa parcela da natureza com que se identificou. Pode acontecer que, depois desta descida em si mesmo, ao "solitário" de si mesmo, tenha de renunciar a ser poeta. (Basta, a meu ver, sentir que se pode viver sem escrever para que não seja permitido escrever). Mas, mesmo neste caso, a introspecção que lhe peço não terá sido vã. A sua vida dever-lhe-á sempre, quanto mais não seja, caminhos próprios. Que esses caminhos sejam bons, felizes e longos é o que lhe desejo como não sei dizer-lhe.

Que poderei acrescentar? Creio ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a evoluir segundo a sua lei, gravemente, seguramente. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua evolução do que dirigindo o seu olhar para fora, do que esperando de fora as respostas que só o seu sentimento mais íntimo, na hora mais silenciosa, poderá talvez dar-lhe.

Gostei de encontrar na sua carta o nome do professor Horacek. Dediquei a este sábio um grande respeito e um reconhecimento que já duram há anos. Quer dizer-lhe isto da minha parte? É uma grande bondade dele, que muito aprecio, lembrar-se ainda de mim.

Devolvo-lhe os versos que tão amavelmente me confiou e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.

Nesta resposta sincera, escrita o melhor que soube, procurei ser um pouco mais digno dessa confiança do que o é, na realidade, este homem que não conhece. A minha dedicação e a minha simpatia.

Rainer Maria Rilke
Paris, 17 de Fevereiro de 1903


Rilke, Rainer Maria, Cartas a um Jovem Poeta, trad. de Fernanda de Castro, contexto editora, Lisboa, 1994.

          Desde logo ressalta uma dualidade significativa entre o “Eu” e o “Mundo”. Rilke afirma que os poemas enviados por Kappus “não têm existência própria, independência,...” e explica-o através do interesse desenfreado que o jovem parece demonstrar em ser aceite e reconhecido com prontidão o seu talento. A renúncia ao reconhecimento exterior, numa palavra, a solidão, é tida por Rilke como a única forma do homem eventualmente encontrar ou não o poeta que habita dentro de si. A auto-interpelação necessita do cenário ideal - a hora mais silenciosa da noite - , liberta de influências externas; o “Eu” encontra-se consigo mesmo, questiona-se na busca da verdade que determinará o seu modo de vida doravante e, chegando à outra margem desse imenso e agitado rio, a inadiável decisão terá de ser tomada. Acreditando que a sua vida nada significaria sem a escrita, então, diz Rilke, o homem tem que construir a vida segundo esse ímpeto, ela tem que se converter em testemunho dessa necessidade e é pertinente aqui assinalar essa relação entre vida e poesia que perpassa ao longo de toda a carta.

          A aproximação à natureza é tida como passo fundamental para esse percurso e é aconselhada uma abordagem quase adâmica do que rodeia o homem na medida em que, a melhor forma de apreender pelo menos parte do que nos rodeia (até porque “nem tudo se pode apreender ou dizer, como nos querem fazer acreditar.”) É essa espécie de regresso a um estado puro. A natureza, em permanente transformação, é o espaço de contemplação privilegiado pois nela nada existe de banal e repetitivo. Na verdade, a escrita de poemas de amor é condenada por ser um tema corrente, sujeito a uma vastíssima tradição que ante a novidade aponta o defeito, simplesmente porque esse passado implica por parte do poeta o seu domínio, caso contrário a dificuldade do tema é intransponível.

          A exortação a uma escrita com base no quotidiano, transporta Rilke rumo à questão da possível pobreza desse mesmo quotidiano. Se o quotidiano parece pobre então a culpa é do poeta pois não possui talento suficiente para abarcar as suas riquezas. Para o verdadeiro criador nada é pobre e a própria distância temporal ou espacial apenas intensifica uma proximidade. Aliás, são esses ecos distantes da infância ou de tempos idos que povoam a solidão do poeta, mas é sempre um mergulho no seu mundo, sendo que o mundo exterior não deverá de forma alguma inundar o espírito do poeta (aí, provavelmente, e segundo o ponto de vista de Rilke, deixaria de ser poeta porque o abandono ao exterior faria com que uma possível “maneira própria” se diluísse nas águas poluídas das ideias feitas ).

          O trabalho poético é visto como um modo de vida e a não divulgação desse mesmo trabalho é encarada como uma “posse natural”, algo não partilhado com o mundo exterior que permanece envolto num manto de pureza, a partilha da tinta com o papel, do “Eu” com o seu mundo povoado de fantasmas, fortaleza inexpugnável que, incólume, se ergue ante um tempo e um espaço não seus.

          Apenas a necessidade interior pode produzir uma boa obra de arte e o seu único crítico deverá ser a natureza da sua origem.

          A vida brota do mais profundo de cada um de nós e essa incursão (que é quase um excurso) pode, em minha opinião, ser comparável a um retorno ao momento primordial e primeiro da nossa existência, quando submersos no líquido amniótico, distantes do mundo ao qual em breve pertenceremos, apenas nos chegam os disformes fragmentos de algo que desconhecemos.

          Ser poeta é responder a um chamamento, aceitá-lo como um destino e nunca pretender uma recompensa vinda do exterior. A visão do criador como um microcosmos (“o criador deve ser todo um universo para si próprio”) que se basta a si próprio e nele tudo encontra, bem como no pedaço da natureza com que se identificou, conduz ao internamento do “Eu” em si mesmo (Rilke fala em descida ...), a uma solidão “estratégica” que se reflectirá na sua poesia. A introspecção trilha os caminhos próprios necessários à maturação do “Eu” e à inevitável identificação da arte com a vida. As respostas do discípulo só poderão ser encontradas em si, no “espaço” mais solitário e simultaneamente mais povoado que existir possa, o espírito.


anteriorÇopyright 85: A vida de uma história,
Edmundo Cordeiro
índiceÍndice

Çopyright 87: Foi o tempo em que caíram
as estátuas
próximo
Colaboradoræscolaboradores