sabes?, menos mal que chegaste tu porque eu aqui começava a voltar-me louco, tanto tempo a sós, a sós, a sós, toda uma eternidade, a sós, toda uma imensidade na penumbra, a sós, sem saber o quê me arrodeia, sempre névoa, a sós, mas agora tu chegaste, de algum lugar que ignoro tu chegaste e calas, mas a tua presença, os teus indícios de presença, confortam-me, fazem-me vivo, erguem-me deste horizonte que se come a si próprio, eternamente, eu, o infinito, a névoa, sempre a poalha, sabes?, eternamente a poalha, porque eu não nasci, nunca nasci ou não lembro, não, eu estive aqui num momento dado, em qualquer instante apavoradamente incomprovável estive aqui, e estive, estive, desde então estive aqui, onde me encontro agora, onde te encontras tu ou os teus contornos, estive, tempos, eras, ciclos, não sei, nunca o sei, nunca atinarei a cifrar o transcorrer da minha soidade cegueira, mas estive, a habitar, a habitar no incomensurável recinto desta névoa, névoa, névoa, estive, estive, mas agora, sabes?, chegaste tu, chegaste, chegaste tu de além os limites, tu apareceste ou te aproximaste ou tu chegaste, tu, tu, porfim, chegaste, vinheste a acompanhar-me, a acompanhar-me, a acompanhar a minha soidade cegueira tu desciste, irrompeste, emergeste, abrolhaste dos pontinhos grises deste espaço, surgiste de certos imperceptíveis oquinhos da névoa, tu vinheste a visitar comigo esta poalha, porque, sabes?, acho que eu estava começando a voltar-me louco, louco, perdido, louco, perdido, sempre errante neste labirinto sem fronteiras, onde nada vejo, sabes?, nada vejo, tudo é sempre e em qualquer lugar borrento, desque comecei a habitar, habitar, habitar este infinito espaço, a pervagar, a pervagar, a pervagar na impossível procura de recantos, limites difusos, alguma fenda na penumbra, penumbra, porque, sabes?, aqui não há final, não há começo, não há final, não há nascimento ou morte, sabes?, eu não nasci, nunca hei-de morrer aqui, sabes?, sabes?, aqui, mas polo menos estás tu, tu, chegando, alcançando-me, acompanhando-me, tu, veladamente tu estás comigo nesta brétema, nesta imensidade grisalha de loucura, aqui, no espesso cansaço onde pervago, cego, cego, eternamente cego no áspero algodão da poalha aonde tu, sabes?, tu chegaste, desde algum outro lugar desciste para acompanhar-me na derrota porque, sabes?, tu estás aqui, aí, comigo, ausente, mas estás aqui, aí, nesta névoa, tu estás neste esférico silêncio até onde felizmente vinheste porque, sabes?, acho que sem ti eu já estaria louco, louco, a sós, cego, cego, louco, porque, sabes?, aqui não se vê nada, não se vê nada, eu não vejo mais que brétema, espessa brétema, espesas silênciosas nuvens de penumbra onde não é possível ver nada, nada, onde não te vejo a ti, não vejo mais que névoa e os contornos duma figura detida no silêncio onde não vejo nada mais que algum indício de presença ou a silhueta duma figura detida na penumbra onde não vejo mais que um indício de presença, tu, tu, esvaidamente tu, incomprovável tu, porque, sabe-o, tu estás aí, aqui, na penumbra, em algum lugar ao meu lado tu ou a tua figura está calada, calada, a palpejar a soidade, a imensidade, caladamente, a eternidade deste silêncio porque, sabes?, aqui nada nasce, nada morre, eu jamais nasci, jamais, jamais ou sempre nasci, estive aqui em algum momento dado em que estive aqui em algum momento inconstatável, a habitar, a aguardar, a habitar, sempre a aguardar que alguma vez ou nunca alguém chegasse, alguém ou alguma forma se desenhasse neste inamovível espaço gris, gris, sabes?, eternamente gris onde habito e aonde tu, tu, para salvar-me, chegaste, vinheste ou apareceste porque, sabes?, tu estás aqui mas não te vejo, não, não te vejo, apenas te adivinho, percebo, procuro, apenas enxergo o teu contorno, silhueta, presença acompanhante, mas não te vejo, não te vejo embora tu estejas aqui, comigo, aí, aqui, eu sei que estás aqui, adivinho que estás aqui, aqui, intuo que estás aqui porque, sabes?, não te vejo, não, não te vejo e talvez não estejas aqui, comigo, mas sei que tu estás aqui, comigo, porque tu vinheste para pervagar também nesta poalha, onde nada se vê, nada nasce, nada muda, onde tudo é eterno e eu estive sempre nunca cego, abandonado, a sós, abandonado, eu estive sempre nunca a sós e tudo é eterno e eu estive sempre a sós, tudo é eterno, a sós, eterno, mas tu estás aqui, sabes?, tu estás aqui ou eu sei que estás aqui, adivinho que estás aqui, intuo que estás nesta poalha onde sempre pervaguei a sós nesta imensa névoa onde sempre pervaguei às cegas onde estás mas não te vejo, não te vejo mas estás aqui mas não te vejo, não te vejo mas talvez estejas aqui mas não te vejo, talvez estejas aqui, na poalha, talvez, talvez porque não te vejo, não te vejo, não te vejo, talvez, talvez, eternamente, talvez estejas neste espaço gris onde tudo é eterno, eterno, contínuo, eterno, onde eu estive sempre, onde nada muda, nada muda, nada, nada, nada muda neste mar de sombras onde tu talvez estejas, talvez, talvez chegasses à penumbra onde nada muda, nada, nada, onde, sabes?, eu não nasci, eu jamais nasci, jamais, jamais nasci na névoa onde tu talvez estejas, talvez estejas, talvez não estejas porque nada muda, nada, nada muda na poalha onde talvez não estejas, não estás, talvez não estejas comigo na penumbra, penumbra, penumbra, na penumbra onde nada muda, talvez não estejas, talvez não estejas, não estás, não estás, tu não estás na névoa porque sabes?, aqui tudo foi sempre eterno, silêncio, loucura, espaço absoluto de silêncio aonde ninguém chega, acede, ninguém acede a este recinto de soidade aonde jamais chegaste, sabes?, não chegaste, sabe-o, tu jamais apareceste a acompanhar-me neste recinto obscuro porque aqui nada muda, nada nasce, nada acontece, tudo foi sempre eterno, eterno, eterno, eterno neste fechado imenso ciclo de silêncio onde não estás, tu não estás, não estás, não estás comigo, jamais estiveste comigo, jamais, jamais, porque, sabes?, sabes?, aqui toda mudança é impossível, aqui toda mudança é impossível e eu estou a sós, abandonado, a sós desde algum incomprovável instante em que estive aqui, estive, estive, a habitar, a sós, a sós, a habitar, sem ninguém, sem ninguém, sem ti, porque não pudeste chegar aonde toda mudança é impossível, sem ti, porque não estás comigo num lugar onde nada acontece, porque nada acontece, sem ti, porque não estás aqui mas num outro lugar fora, um outro lugar qualquer, um outro lugar fora deste apavorante espaço gris, fora, fora, em algum outro lugar fora deste infernal labirinto sem fronteiras do que já te ausentas, te ausentas, devagar te ausentas pois jamais pudeste aceder a este apavorante espaço do que te ausentas, a esta névoa, a esta eternidade, aqui, a esta grisalha eternidade aonde jamais chegaste desde um outro lugar além dos seus inalcançáveis limites, limites, desde um outro lugar além deste lugar sem luz, sem termo, sem começo, porque, sabes?, sabes?, tu nunca abandonaste qualquer outro lugar onde existes, existes, onde tu existes, existes, tu existes em qualquer outro espaço remoto, inalcançável, remoto, remoto, tu existes em qualquer outro lugar remoto onde existes, e vives, e estás ausente, e não chegas, e jamais apareces, sabes?, jamais virás, jamais virás a acompanhar-me, jamais virás a esta apavorante prisão inabrangível porque, sabe-o, sabe-o já, aqui tudo foi sempre eterno, perene, idêntico, aqui toda mudança é impossível, aqui tu não existes, tu existes em qualquer outro lugar inalcançável, afastado, inalcançável, qualquer outro lugar sem pesadelos, sem penumbra, sem este opaquíssimo silêncio, silêncio, tu existes em qualquer outro lugar além deste tempo sem medida, deste lugar constante, sempre, nunca, onde, sabes?, eu não nasci, não, sabe-o, não nasci, eu não nasci nem poderei ser nada, eu nunca poderei nascer numa névoa em que nada acontece, sabe-o, jamais poderei nascer na quietude deste espaço sem contornos, sabe-o, eu jamais poderei existir, sabe-o, jamais poderei ser nada neste nada obscuro, sabe-o, sabe-o já, jamais poderei existir na penumbra da que tu estás longe, tão longe, existindo, tão longe, existindo em qualquer outro lugar do que não chegas, sabe-o, existindo em algum espaço e tempo inacessíveis, sabe-o, existindo longe, tão longe, tu, habitando, sendo, pensando, tu, tu, tu estás longe habitando, pensando, pensando, criando, tu, sabe-o, tu, tu estás pensando, pensando-me, sabe-o, sabe-o, pensando-me, criando-me, porque, sabe-o, sabe-o já, tu estás criando-me, desde algum outro lugar ou tempo tu estás criando-me, porque sabe-o, sabe-o já, eu não existo, eu jamais existo, eu jamais existo mas estou aqui, eu não existo e estou aqui, entende-o, és tu que existes em algum lugar e tempo inacessíveis, entende-o, és tu que estás pensando-me mas não estás aqui, és tu que estás criando-me mas não estás aqui, aqui, entende-o, aqui: a névoa, eu, o infinito, não ter nascido, entende-o, não ter nascido, aqui, onde todo tempo se estanca ou se detém, aqui, onde todo espaço é a penumbra, a soidade, o hábito de não existir, cego, errante, a sós, a sós, sem tempo, às cegas, sem ti, às cegas, sem ti, mudo, cego, sem ti, eternamente roçando na loucura