Çopyright
pensamento, crítica e criação

80

3 Julho 2000

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/

Corunha
Galiza

 

Vozes

Ana Gabriela

(Selecção do livro inédito do mesmo nome)

À Çopyright:
Editor, Celso Alvarez Cáccamo
e a todos os Colaboradores
que fazem esse País Sonhado...


Andamos à procura de um Porto Sonhado
e ficamos sempre a olhar para trás
Esse Porto Sonhado
que sabemos não existir
começa a parecer-se com o Porto das Coisas Perdidas
Não haver terras com nomes como Sonolongo
nem um Porto das Coisas Perdidas
Não haver um rio muito azul que em vez de caminhar
    para poente resolvesse descer para sul,
    sempre para sul
Chegar a um porto por terra e não por água
Tudo ao contrário e tudo tão certo
Este Porto Sonhado
é muito mais real que o outro
o que vejo através dos olhos dos outros

Vivi durante muito tempo na ilusão de amar acima de tudo
determinados espaços inabitados
A claridade própria desses espaços
Agora penso que o significado desses espaços está ligado
às personagens
Não se ama um lugar abstractamente
Já não utilizo a palavra paisagem
que passei a detestar
Espaço é a designação que agora me parece
mais adequada
Aprendemos a simplificar tudo
até às últimas consequências

Durante muito tempo
(tenho dificuldade em traduzir este tempo
em anos, meses, dias)
não tive memória propriamente dita
havia o presente (uma espécie de ponte flutuante)
e o futuro (uma espécie de nuvem)
Eu andava no presente com um futuro vagamente previsto
mas que na realidade não existe
O futuro é apenas o prolongamento esticado do presente
e o presente uma sucessão de momentos e de realidades e de sonhos

Há pouco tempo (e continuo com esta minha dificuldade
em concretizar este tempo)
comecei a ter memória das coisas
Tudo começou em sonhos
uma espécie de filme sem música com pessoas e sequências estranhas
Esse filme começou a sobrepor-se a pouco e pouco
Surgiu-me um passado no meio do presente
Esta experiência modificou em mim certos raciocínios
certas formas de ver as coisas
Pensei, eu não conhecia isto, eu flutuei por aqui
e não me lembro de ter cronometrado o tempo
esta realidade passou por mim sem deixar marcas
A memória é uma espécie de construção
e a própria realidade multiplica-se em mil e uma realidades

Agora posso recriar-me finalmente

Antes procurava as pessoas com mais frequência
Nessa altura eu tinha certezas sobre quase tudo
agora não tenho certezas de nada
A verdade é que não podemos contar com as pessoas
são o mais incertas possível
Mas se pudéssemos contar completamente com alguém
teríamos medo dessa dependência
É melhor não contarmos com ninguém
é o que dizemos a nós próprios
Se nem connosco podemos contar verdadeiramente
apesar de cada vez mais procurarmos
apenas contar connosco

Porque não consigo eu ver as pessoas como elas são
mas as personagens que vejo nelas
Ou é porque as vejo como elas são
que procuro logo as personagens
(como uma sobreposição de imagens?)
Às vezes vejo as pessoas em radiografia
como uma alma virada do avesso
(ou o que se parece com a alma)
Outras vezes vejo-as em fotografia
como um filme estático
e as imagens são quase poéticas

O que é que leva uma pessoa a registar momentos
a fazer uma colecção de momentos
como se fossem únicos e já o soubesse na altura
uma colecção de momentos
registados com a maior atenção e intensidade
E o que leva uma pessoa a guardar esses momentos
e a guardá-los como se soubesse que é o que viveu de mais intenso
e que nunca mais viverá dessa maneira
e que o mundo real (ou que eles dizem que é real)
não se compara ao mundo do sonho
E o que leva uma pessoa a registar tudo isso
esses momentos intensos e autênticos
registos de coisas memorizadas
para alguém e quem é esse alguém
e será que isso existe na cabeça de quem regista
esse alguém
Talvez não exista ninguém
já nos habituámos aos desertos
à não existência de alguém
É o que dizemos a nós próprios
que não o fazemos para ninguém
mas para nós próprios
porque nos é essencial

Nunca conseguimos construir um percurso
coerente e consequente
O que se vai constituindo no tempo e no espaço
é uma peça ilógica
fragmentos de monólogos
ecos de outros monólogos
silêncios absolutos
desencontros

 



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