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pensamento, crítica e criação

79

28 Junho 2000

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/

Corunha
Galiza

 

 
Uma infinita atracção pelo que não existe

Assim define neste texto o amigo Rui Bebiano a necessária procura da utopia

Uma invenção permanente do futuro

Concordamos com o Rui, claro que concordamos

Mas, porque não procurarmos a utopia no presente, para o futuro começar a ser passado?


 

 

 

Demanda da utopia, elogio da errância

Rui Bebiano

[publicado também em Non!]


(*) "La renaissance de l'utopie", in Magazine
Littéraire
, no. 387, Maio de 2000, pp. 18-68.


     Em artigo aparecido no número que o Magazine Littéraire dedicou há pouco ao renascimento da utopia (*), Christian Godin - que acaba de publicar uma obra justamente chamada Faut-il réhabiliter l'Utopie? - distingue aquela que se apoia nos factos, possuidora de uma natureza acentuadamente totalitária, julgada “má”, daquela outra, considerada “boa”, que se funda em valores e lhe parece profundamente centrada numa experiência de liberdade. Esta distinção perde o aspecto baço de simples hipótese académica e torna-se interessante quando passa a servir para que se reconsidere o papel da dimensão utópica na definição da cidadania e na formulação de alternativas renovadoras da política que conhecemos e da sociedade em que vivemos. Pode então servir para contestar a sua recusa, feita habitualmente com base em dois preconceitos conhecidos: ou porque remete para o reino da impossibilidade, para o universo do devaneio, domínios que tendem a ser afastados da esfera da prática política tal qual ela nos é mostrada pelo poder e suas margens, ou, por outro lado, porque pensada como modelo de ordem e de igualdade entre os homens acabou por se afirmar - os exemplos abundam - como fonte envenenada de mundos totalitários.

     A utopia pertence, de facto, ao domínio do faz de conta. Procura, desde Thomas More, ou desde Platão, ou, se for seguida a genealogia traçada por Ernst Bloch, desde os tempos pré-históricos, a invenção do que parece improvável. Mas representa sobretudo a sombra de um não-lugar, de um território ou de uma dimensão apenas tangíveis pela via da imaginação, e que, por tal motivo, permanecem improváveis, quiméricos, repugnando por isso a todas as formas de normalização social e de culto engravatado desse “realismo político”, descrito por Maquiavel, que se esforça por ocupar o lugar do sonho. Os partidos institucionais, e aqueles que com maior ou menos êxito os procuram mimar, fogem por isso da utopia como os vampiros da luz do sol: incomoda-os, sufoca-os, não sabem como lidar com ela, porque a pressentem fora da mera gestão de interesses imediatos que caracteriza a sua prática de todos os dias, porque não serve de indicador para as estratégias pré ou pós-eleitorais que tanto lhes ocupam a massa cinzenta. Quanto muito, falam do seu papel em momentos de campanha, como forma de seduzir sectores sociais - a juventude ou os intelectuais, sobretudo - para quem a ideia de utopia mantém em regra um valor positivo e estimulante. O actual abuso, no jargão eleitoralista, da palavra “paixão” (da educação, da saúde, da justiça, talvez, por um destes dias, da cultura também), possui essa conotação, uma vez que aponta para modelos de perfeição que atraem muitas pessoas, e, além disso, porque a força do ente apaixonado reside, como toda a gente sabe, nessa mesma desrazão que funda igualmente a utopia.

     Mas esta pode também ser um template, o projecto de um universo insular e imutável, sendo esse o seu lado mais sombrio e também mais perigoso. Como o demonstram os desvarios messiânicos das numerosas heresias dos finais da época medieval ou dos tempos de viragem de milénio, a intolerância que se detecta nas diferentes comunidades religiosas de inspiração calvinista, o rigor carcerário dos falanstérios concebidos por Fourier, a política assassina de “reconstrução social” levada a cabo por Estaline, Mao e Pol Pot, a subordinação concentracionária das populações albanesas e romenas num passado recente, o desenho a régua e esquadro de uma horrível “utopia terrena” fabricada e imposta pelo regime norte-coreano. A sua afirmação como modelo fechado, protegido, único, fundado na quimera de uma sociedade supostamente igualitária e perfeita que é imposta à própria realidade, que se torna a própria realidade, foi, e continua a ser, uma justificação para a privação de liberdade, para a multiplicação de injustiças, para a anulação dos direitos elementares das pessoas e do seu bem-estar, executada em nome de um colectivo utopicamente imaginado ao qual o mundo real se deve submeter.

a liberdade aparece como o valor em
relação ao qual o combate político ...
permanece mais claramente ambíguo
e imóvel

     Ora sendo os factos assim tão sombrios e detestáveis, porque motivo continua a ser olhada como decisiva a experiência da utopia? Provavelmente porque o seu habitáculo perfeito se encontra, como escreve Godin, no domínio da construção e do desenvolvimento, caracteristicamente humanos, de determinados valores. Pode assim deixar de ser um modelo a seguir, para ter como objectivo a defesa de ideais que, por causa da universalidade que os caracteriza, se afastam de qualquer molde obrigatório: a paz, a liberdade, a justiça social, a felicidade para a terra inteira, para a humanidade inteira, e não apenas para o indivíduo, para a classe, para o grupo. Em harmonia com a tendência que permite atribuir ao processo de mundialização que presentemente vivemos um outro sentido que não o meramente económico, e às novas tecnologias da comunicação um papel distante daquele que lhe destinaram os que demasiado rapidamente se apressaram a diabolizá-las. Esta utopia de valores ampliados e ampliáveis é tanto mais urgente, imprescindível, quanto a afirmação crescente da desigualdade entre os que são poderosos e aqueles que o não são, entre os países ricos e os países pobres, entre os detentores de sofisticadas tecnologias e aqueles que não dispõem delas, recoloca a sua importância no domínio do combate político e na procura urgente de alternativas.

     Porém, esse esforço não pode ser parcial, nem comprometido com modelos de “realismo político” que desconfigurem o seu perfil utópico. Sob este aspecto, a liberdade aparece como o valor em relação ao qual o combate político daqueles sectores que clamam pela mudança, e que se identificam em regra com a esquerda, permanece mais claramente ambíguo e imóvel. Porque foi precisamente a esquerda que maiores responsabilidades teve na transformação de maravilhosas utopias em cenários gulaguianos de pesadelo, e porque tem sido justamente uma parte da esquerda a resistir à denúncia completa e sem artifícios do monstro, identificando a todo o momento a análise dos graves erros de caminho com a traição aos “princípios”. Nada de mais errado, porque o esvaziamento da memória não pode significar a destruição dos anseios que lhe são anteriores. A azeda polémica à volta do Livro Negro do Comunismo, que não convirá que seja já esquecida numa altura em que a objectividade dos factos que relata poderia servir como ponto de partida para uma compreensão aprofundada dos motivos que transformaram a utopia dos “amanhãs que cantam” num inferno de sangue e cinza, mostrou ao mesmo tempo os contornos dessa resistência atávica ao julgamento de uma ideia e de uma prática. Que se quer manter pura, que se quer preservar, como cenário inocente dessa ilha sem lugar de felicidade terrena que gerou sonhos e permitiu sacrifícios de gerações que imaginavam, nesse território “utópico e real”, a materialização dos seus valores mais profundos.

     A utopia é pois, precisa de ser, ingrediente fundamental da mudança e, simultaneamente, na construção de experiências renovadas, individuais e colectivas, de vida em sociedade. Mas, pela sua própria definição, terá de ser erguida, passo a passo, combate a combate, a partir de uma infinita atracção pelo que não existe, olhando sempre cada experiência como paragem da viagem interminável. Não como nostalgia do passado, mas como invenção permanente do futuro. Não como arquitectura de cidades perfeitas, mas como navegação num cosmos de inquietude e incógnita que é aquilo que verdadeiramente alimenta a ideia de liberdade, sem a qual a dignidade humana não existe. Essa “vida de marinheiro” surge assim como a imagem de um ideal humano de errância que emerge como incessante caminhada em busca de algo de melhor do que aquilo que já existe ou que vislumbramos apenas um palmo diante do nosso nariz. Olhando a linha do horizonte, os novos utopistas batem-se, sob mil bandeiras, por coisas que não são palpáveis e, imortais, se encontram sempre além, como a liberdade, a felicidade, a igualdade, a diferença. E procuram.

 


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