Çopyright
pensamento, crítica e criação

78

17 Maio 2000

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait/

Corunha
Galiza

 

Quinhentos OceAnos
Dous Discursos Contra Qualquer Conquista

Caras amigas, caros amigos:

Çopyright anti-comemora hoje qualquer cifra oficial, qualquer aniversário, cinco séculos que são pouco no percurso da espécie humana que conhecemos. Continuarão os poderosos a invadir terras, matar gentes, escravizar culturas, construir assim os seus Mitos. Poderão os resistentes reagir contra as cifras da conquista, aculturação, civilização, barbárie. Mas esta é apenas a infância dum episódio muito longo, que só tem duas possíveis culminações: o começo da igualdade, ou o começo do verdadeiro final.

Çopyright agradece à Núria Pons e ao António Gonçalves o terem distribuido os textos que se seguem na lista electrónica Galiza, e agradece, sobretudo, aos seus autores. Fala primeiro Gildo Jorge Terena, indígena de Rondonópolis, após ter sido malhado pola Polícia Militar brasileira em Santa Cruz de Calábria no dia 22 de Abril de 2000, com motivo duma manifestação contra os actos oficiais dos chamados 500 anos. A seguir, fala Luís Fazenda, representante do Bloco de Esquerda de Portugal numa sessão do parlamento português no dia 16 de Maio de 2000, na presença do presidente do congresso brasileiro António Carlos Magalhães.

E a Galiza contempla. Sonha sonhos de futebol e tudo o contempla.

 

 

Palavra de Índio

Gildo Jorge Terena

Cópia na íntegra do depoimento pronunciado no ato público de solidariedade e acolhida da delegação da Marcha Indígena 2000, na cidade de Rondonópolis no dia 24 de abril de 2000, na Praça dos Carreiros, às 17 horas

Nós somos índios reconhecemos nossa aldeia, reconhecemos o que é dor de um cortado que alguém corta em nós.

Estou aqui falando através de todos os povos nativos do Brasil que esteve aqui na nossa marcha querendo outros 500.

Com esses outros 500 que nós entramos, foi difícil colocar na minha consciência o que o governo fez para nós.

Foi difícil entender o que ele queria para nós, e fomos massacrados.

Eu mesmo, a minha pessoa eu coloquei a disposição da tropa de choque para que pudessem acabar comigo mas que não acabassem com o povo que estão em extinção.

Doeu em mim, eu vi mulher chorando sem saber de nada.

Doeu em mim, ver crianças olhando com desespero, eu sabia que eu era um ser humano, mas não um animal para ser tratado com bombas, com os cavalos.

Eu olhei para mim, eu coloquei primeiramente a Deus no meu caminho que me protegesse de todo o mal que ia acontecer comigo, eu abri as minhas mãos, pedi a orientação do Pai, que Ele pudesse me proteger.

Aí com humilhação de todos os povos em mim, me pus, me humilhei dizendo: parem com isso!

Não sabemos o que estão fazendo, nós não sabemos o que está acontecendo com nós, nós estamos apenas protestando com faixas, com cartazes, com camisas dos outros 500 anos que queríamos.

Doeu em mim, joelhei ali implorando Paz, implorando paz, só que ninguém me ouviu porque eu sou um, sou um ser humano não governante.

Aí eu implorando, cheguei na frente de todos os batalhões, pedi que não fizesse aquilo mais, porque nós ia parar para que nós não pudesse ser massacrado mais uma vez no entrando os outros 500 anos de novo.

“Eu não agüentei ver em mim que
um índio pisado, pisado no começo
de uma nova era de 500 anos”

Aí eu senti como se fosse os Cabral entrando na nossa terra brasileira, eu senti de novo outros 500 anos que eu ia sentir de massacre e violência para meu povo.

Eu coloquei de joelhos, andei mais de cinco metros de joelhos, pedi para que eles parassem.

Eu fui andando, andando de joelhos, eu cheguei na frente deles, eles diziam o soldado, que estava só cumprindo a missão deles.

Aí quando eu levantei, vi um daqueles colocando mais um, mais uma bomba, para jogar pró lado do meu povo, eu abri os meus braços, que eles eram prá jogar em mim e não neles e nisso eu fui empurrado pela bomba e eu caí no chão sem defesa nenhuma, sem agressão nenhuma, eu tentei levantar e fui pisoteado pelo batalhão.

Senti como se fosse animal depois.

Eu chorei, eu não agüentei ver em mim que um índio pisado, pisado no começo de uma nova era dos 500 anos.

Eu chorei, chorei me perguntando, o que eles estavam fazendo.

É doído, é doído em mim.

É doído ver meu povo triste de longe, de todo o Brasil, foi para protestar com paz.

Chegando lá com violência, foram embora, não de cabeça baixa, mas esperando os outros 500 que não possam ser assim.

E eu agradeço a todos que tem o coração índio, que tem um coração de espírito, de espírito que vê o outro índio, ou não índio, negro ou branco que possa olhar como ser humano aquele que pede esmola, aquele que não tem onde morar.

Aquele que sente racismo, que possa sentir em si que nós temos coração e só isso eu quero deixar para vocês.

Meu muito obrigado”.

 


 

O "achamento" do Brasil

Luís Fazenda

Os nautas de há 500 anos acharam-se a si próprios. Tiveram do mundo as coordenadas. Mapearam. Encontraram a tecnologia para aproximar a mundialização feita à mundialização a fazer. Foram chegando o planeta ao seu perímetro físico. Ficavam para trás dogmas e segredos proféticos absurdos sobre o geoespaço.

A razão e o experimentalismo tinham novos cursores. A centralidade do humano na sua relação com a materialidade e as suas leis e saber quebraram escolásticas reveladas e lógicas subjectivas. As navegações abriram as auto-estradas da informação da época. As navegações globalizaram a troca e prenunciaram o mercado global. Essa senda tem contributo português. Esse progresso foi libertador. De Espinosa a Marx houve a interpretação do ganhar de espaço para a ciência e para a evolução social.

Mesmo que a ciência desencadeasse reacções inquisitoriais. Mesmo que a evolução social gerasse outras opressões. Não fomos povo eleito, fomos o produto de uma encruzilhada ibérica e europeia. Dos impérios que se teceram não ficou o mito mas a superação histórica.

A razão e o escrutínio dos factos e das suas conexões levam-nos a olhar para o contraditório. As navegações produziram avanços incalculáveis. Produziram igualmente genocídios, tráficos de escravos, opressões de ignominia. Ao perscrutar a historia e as suas tensões não se pode das navegações extrair o discurso de litania do pequeno povo redentor que pela mestiçagem tocou o universalismo. Esse discurso e tão falso e tão unilateral e tão estúpidamente chauvinista, auto-desculpabilizante, auto-apologético que não tem sentido, nem eco universal. Mas também e estúpido percorrer alguma imprensa europeia recente que descreve as navegações e ocupações portuguesas apenas como a bandeira dos mata-índios, dos negreiros, dos saqueadores. A história foi global e multilateral.

A sua análise mostra o fio do progresso entrelaçado com a barbárie. É o que é. Se pontuamos o progresso pontuamos a barbárie. É por isso que se herda o passado. Herdamos universalmente. Os brasileiros de hoje estão tão perto do rei Manuel I, dito o venturoso, como os portugueses contemporâneos.

Não vale a pena especular com os códigos da época. Esses serão os códigos dominantes e não dos dominados. A informação electrónica globaliza barbáries. Não as denunciamos hoje? Mas queremos que a civilização do ciber-espaço produza outra civilização de solidariedade. António Vieira e tantos outros não se cingiram aos códigos da época. Mas também não fazem uma desculpa nacional. Foram adventos de modernidade sem fronteiras. Conhecemos na nossa geração manifestos dessa modernidade. Lemo-los e vivemo-los apesar de tanto mar, tanto mar a nos separar.

“Lá como cá as democracias simpáticas
fizeram reciclagem das elites”

Batemo-nos, brasileiros e portugueses contra ditaduras sinistras, protecções retrógradas de elites dominantes. Aproveitando os cursos da história no Brasil se exilaram portugueses. Em Portugal pós 74 exilaram-se brasileiros até ao final da década de 70. Fomos embalados não apenas pelo fascínio do chorinho, do forro, da corporização do ritmo, nós ouvimos o diálogo do Chico Buarque "a coisa aqui está preta", vincou-nos a alma quando Elis explicou qual a parte do latifúndio que cabia aos famintos do Sertão, lémos Graciliano, sabíamos do A5 e do fisiologismo, sabíamos tanto da amnistia como da finta do Pelé. E daquela poesia, Cecília... Conseguimos rir com tantos que vieram da tortura dos cárceres policiais e militares brasileiros quando diziam que "para tudo se dá um jeito", né...

Conheci quem foi morrer no Araguaiá. Conheci quem escapou de ondas de assassinatos. Não esqueço Diógenes Arruda, deputado federal cassado do seu mandato, que me abriu páginas do mundo do trabalho e da libertação social, que trouxe estórias de resistência e de heroicidade anónima. Que quase me explicou a ontologia do comunismo.

Lá como cá as democracias simpáticas fizeram reciclagens das elites. Lá como cá há políticos situacionistas de todo o tempo. Lá como cá todos entendemos a ópera do malandro, o raio x de poderes que fazem países desiguais e injustos de sem direitos, de sem terra, de sem esperança. Lá como cá paira o avatar de Vinicius para saber da cidadania de todas as cores.

Políticos que dizem governar com o chicote e o saco do dinheiro.

Lá como cá os poderes ensaiam truques de perpetuação.

E com requintes de crueldade diz-se que é preciso realismo e gradualismo. Realismos que muitos perante os vários achamentos de 500 anos não tiveram.

E esses são os nomes que estão todos pelas antologias literárias, páginas compendiadas de história, nomes de ruas... Dos que não tiveram esse realismo.

Os que ocupam terras no Brasil lutam ainda pelo espaço e não têm porto seguro. Somos solidários com essa gesta. O que pode a nossa voz ao lado de Saramago e Sebastião Salgado, referências mundiais. Os sem terra não precisam de astrolábio para essa expansão, precisam de direitos que não estão escritos nos astros.

Senhor Presidente da Assembleia da República,

Senhor Presidente do Congresso do Brasil:

Cortes de todas as épocas protegeram os iníquos.

Sempre ficaram para trás.

Olhando os meninos da rua, no Brasil ou em Portugal, não vejo o horror económico. Vejo o infinitamente grande da liberdade por conquistar”.


Nota do Bloco de Esquerda à imprensa

ESTALOU O VERNIZ DE ACM

António Carlos Magalhães, presidente do Congresso Brasileiro, decidiu terminar a sua intervenção com um violento ataque a Luís Fazenda, que expressara a posição do Bloco de Esquerda. Fazenda citara a frase de ACM, segundo o qual “governava com um saco de dinheiro numa mão e com o chicote na outra”, e criticara a opressão dos sem terra e dos pobres no Brasil e em Portugal.

O senador António Carlos Magalhães resolveu reclamar que o governo brasileiro agia contra os “desordeiros” -- o movimento dos sem-terra, das comunidades cristãs de base, das nações índias e até da FUNAI, organismo governamental de apóio aos índios, que contestaram as comemorações oficialistas dos 500 anos.

Lembramos, a propósito de “desordeiros”, que foi um major do exército que deu ordem de prisão a um juiz que trazia um mandato legalizando a manifestação dos índios no decurso dessas comemorações.

 


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