Çopyright
pensamento, crítica e criação

62

20 Julho 1998

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait

Corunha
Galiza

 

Três autores:

2. Erica Hunt

Ao chegar ao seu segundo aniversário, Çopyright dedica-lhes três números a três autores que nunca saberão da nossa existência: Ray DiPalma, Erica Hunt e Leopoldo María Panero.

Çopyright também sabe mui pouco deles. Nada há neles em comum, além do feito de estarem vivos. Entre os três, pertencem a dous países diferentes, a dous géneros, a dous sexos, a dous livros, a dous lados da loucura. Simplesmente, os três compartilham o azar de terem sido traduzidos por divertimento, e de acabarem aboiando na mesma gaveta.

Por tudo isto, por todo este azar sem fronteiras, e porque merece a pena lê-los, estes três autores são nossos. Como tudo o que não leva um nome de Pátria.



Meu Caro

Erica Hunt

[De In the American Tree, uma escolha de literatura norte-americana actual editada por Ron Silliman e publicada por The National Poetry Foundation, Orono, EUA: University of Maine at Orono, 1986, pp. 437-440.]


Caro Caro

O impacto da chave inglesa a estralar contra as tubagens de cobre nalgum lugar do edifício (a sua origem muda) livra uma exasperante vibração que se escuta em todas as alcovas; os hóspedes já afadigaram o gerente e ajudantes com as suas queixas.

O grupo actual de turistas já não baixa ao vestíbulo. Como só as suas alcovas têm ar acondicionado e o vestíbulo não, a humidade aqui é espessa como para esfregar entre os dedos produzindo uma colheita de lesmas, lentas demais como para não serem cordiais, mas os folhetos não lhes contam isto aos viageiros.

O moço, um tipo escrupuloso, ferve antes a água que agrega às garrafas de licores que logo sela e envia para os quartos.

Três dias depois de o primeiro cano estourar o gerente mandou uns homes para enrolar a alfombra e guardá-la. Nenhum dos hóspedes o notou, pois já rara vez se atrevem a sair.

Graças aos facsímiles facilitados pola Oficina de Informação o viageiro pode fazer-se uma certa ideia de como era a praça provavelmente. Os mausoléus sugerem temas heroicos. As colunas de granito branco, de cimos afusados, conferem uma dignidade intemporal às fachadas que refulgem brancas como gelados sob o obeso sol do meio-dia. O edifício norocidental mostra a cena dum sol a fugir para o oeste perseguido por numerosas pombas. Os remates de bronze no final do corredor produzem o efeito duma árvore ateigada de fruta ou das florações que adornam os pilares dos volumes clássicos. As lâmpadas, penduradas exactamente uma após a outra, estão pintadas de nectarina, e água-fortes de passarinhos criam nelas a ilusão duma fontinha para aves numa loja.

Imagina uma sequência de murais baseados no motivo das estações. Na Primavera, a chuva reverencia com o chapéu a um Sol que entra escoltado por mulheres vestidas em névoa. O feminino Sol, dacavalo dum carneiro, traz escoltas com véus cruzados sobre os ombros poderosos. Braços que não rendem serviço ao Sol estendem-se graciosamente sobre as cabeças, palmas arriba. Na tábua do Verão o Sol espalha-se num divã azul, admirada e abanada polas assistentes. Acima delas o baldaquino tem cor de cobre curtido, e ao longo da sanefa brincam às bochas na erva jubilosos meninhos de rosto envelhecido. No Outono descem folhas sobre as chavenas dos clientes dum café na rua, sentados com insone olhada agradecida, soterrados. No Inverno, Sol e assistentes descem do estrado e recolhem os seus parasóis à porta. Entra de novo a chuva a suster o chapéu a certa distância da cabeça e ceiva um dilúvio.

O herói da praça está imortalizado numa enorme peça de mármore verde, no centro da anegada entulheira que antes fora uma reprodução em azulejos do sistema solar. Tem a olhada alerta ou amistosa. Alguma vez o herói caíra preso e negaram-lhe papel e pluma. Comunicava-se astutamente com os companheiros a botar leite na ração de pão que levava consigo à cela depois do jantar; com o leite escreveria cartas nas folhas em branco das leituras permitidas. Mais tarde, quando se observava a página frente a uma chama, os companheiros patriotas podiam ler as suas palavras. Uma vez foi interrompido de súbito por um guarda e com rapidez comeu-se o pão. Daí vem certo dito, semelhante ao nosso de «tragar-se um as suas palavras». Mas aqui tem um sentido tão distinto.


Meu Caro

Um oquinho de luz. Os espaços entre as palavras as dilatam deixam rios na página que esculco. Pregas borrosas no reflexo das ringleiras de árvores elevadas horizontais na água. Ventres de pássaros reflectidos aí também mais pequenos e grandes quando viram. Tu boca abaixo a fitar para dentro da água uma mão fora como para tocar o que houver justo detrás.

Começo a dançar na solaina de trás e ver sombras em ziguezague polas tábuas e varandas algo flores trevas dançam tenuemente mas os membros das árvores que caem no valado do pátio em canles de vento dançam esvaziando-se de fruta.

Cão preto com lencinho vermelho muda minimamente de lugar na solaina todo o dia de sombra em sombra resiste urgência por mover rabo à minha sombra que se inclina.

É como enviar um telegrama para o céu, «Não sabes o que te perdeste».

Ou talvez porque o sabes muito bem saes fora a fumar um cigarro.


Meu Caro

Eu leio as aparências. Ao passar hoje por uma loja percebi que um manequim do escaparate vertia serradura. Periodicamente a figura movia-se de golpe porque a sua musculatura ressumava de vagar pola pele de saco.

Por fim ficou plano como a classe de envoltório utilizado para enviar caixas. Não está melhor assim mas elimina o lermos a impressão que fica num fato de ombreiras redondeadas como tu a ondear os ombros em imitação dum sereno dia litoral na meseta onde Agosto abandonou um par de sapatos nas rochas que complicaram o regresso.

Se não somos quem éramos então então quem somos agora? As personagens multiplicam-se enquanto o editor de dobragem perde interesse. A imaginação não é um génio a desairar. Amiúde nos forçam a consentirmos a crença de que somos tão contínuos como outros nos imaginam. Quando tu mudas de ideia não obstante fazes-me cúmplice duma peculiar sorte de traição.

Em momentos mais leves lembro o que gostei de ti duma distância prudencial: a tua forma de conduzir-te como uma antiga figura africana, pernas algo afastadas e dobradas, ventre em descanso, espalda curva num delicado esse que portas sem qualquer urgência.

Em segundo lugar não aparentavas medo por chamar a uma relíquia um naufrágio a uma crença um sintoma a uma escaramuça uma missão inútil. O que alguns chamam doméstico outros chamam indolência privilegiada. O que alguns chamam segurança desde outros olhos semelha apenas o ardil de encarcerar-se com mais objectos dos pensáveis. De igual jeito estou pronta a admitir que às vezes disponho para que se representem dramas com a ajuda involuntária de quem por acaso estiver diante.

Contudo estou atónita pola coincidência. Eu cansei já de acordar num lago. Tu estavas a comer da tua própria mão e não te agradava. É impossível termos uma melhor causa em comum.

 

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