Çopyright
pensamento, crítica e criação

61

17 Maio 1998

http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait

Corunha
Galiza

 

Três autores:

1. Ray DiPalma

Çopyright chega ao seu segundo ano neste 17 de Maio de 1998 e, sem motivo qualquer, dedica-lhes este aniversário e os próximos números a três autores que nunca saberão da nossa existência: Ray DiPalma, Erica Hunt e Leopoldo María Panero.

Çopyright também sabe mui pouco deles. Nada há neles em comum, além do feito de estarem vivos. Entre os três, pertencem a dous países diferentes, a dous géneros, a dous sexos, a dous livros, a dous lados da loucura. Simplesmente, os três compartilham o azar de terem sido traduzidos por divertimento, e de acabarem aboiando na mesma gaveta nestes dias terríveis em que morrem a centos os indonésios enquanto o ocidente chora a Frank Sinatra.

Por tudo isto, por todo este azar sem fronteiras, e porque merece a pena lê-los, estes três autores são nossos. Como tudo o que não leva um nome de Pátria.



Zero de Janeiro

Ray DiPalma

[De In the American Tree, uma escolha de literatura norte-americana actual editada por Ron Silliman e publicada por The National Poetry Foundation, Orono, EUA: University of Maine at Orono, 1986, pp. 464-467.]


Colho um copo. Encho o copo. Bebo a água. Lavo o copo. Seco o copo. Dou-te o copo a ti. Colho uma garrafa de leite. Ponho a garrafa na mesa. Abro a garrafa de leite. Colho um copo limpo. Encho de leite o copo limpo. Dou-te um copo de leite a ti. Bebo um copo de leite.

Vou até à porta. Paro-me na porta. Empurro a porta. Saio pola porta. Passo ao vestíbulo. Fecho a porta. Vou à SAÍDA. Paro-me na SAÍDA. Empurro a porta. Saio pola SAÍDA. Passo ao vestíbulo. Fecho a porta.

Chego à porta. Paro-me na porta. Empurro a porta. Entro no quarto. Fecho a porta. Chego à ENTRADA. Paro-me na ENTRADA. Empurro a porta. Entro pola ENTRADA. Entro no quarto. Fecho a porta.

Vou até à janela. Abro a janela. Olho para fora. Fecho a janela. Vou até ao meu assento. Sento-me. Levanto-me. Vou até à porta. Abro a porta. Colho a carta. Fecho a porta. Vou ao meu assento e sento-me.

Colho a carta. Abro o sobre. Saco a carta. Leio a carta. Ponho a carta no escritório. Ponho o sobre no escritório. Levanto-me. Vou até ao escritório. Colho um livro. Abro o livro. Olho uma ilustração. Fecho o livro. Ponho o livro no escritório. Vou até ao meu assento e sento-me.

Este é o meu livro. Abro o meu livro. Passo as páginas. Leio o livro. Fecho o livro. Ponho o livro no escritório. Vou até ao meu assento e sento-me. São as seis. Esperto. Levanto-me da cama. Retiro as mantas. Fecho as janelas. Lavo a cara e as mãos. Lavo os dentes. Visto-me. Penteio-me.

São as seis e meia. Colho dous bolinhos e manteiga. Ponho os bolinhos e a manteiga num prato. Colho dous ovos. Rompo os ovos numa taça. Boto sal e pimenta nos ovos. Como um bolinho com manteiga com os ovos. Tomo uma taça de café. Boto açúcar no café. Boto leite no café. Colho uma culher. Remexo o açúcar no café. Remexo o açúcar com a culher. Como um bolinho e manteiga com o café. Como ovos e bolinhos de almoço. Tomo café com leite de almoço.

Colho uma barra de pão. Ponho o pão na mesa. Corto seis talhadas de pão. Unto manteiga nas seis talhadas de pão. Meto cebola picada entre duas talhadas de pão. Meto carne picada entre duas talhadas de pão. Meto marmelada entre duas talhadas de pão. Fago três sandes. Envolvo o sande de cebola em papel encerado. Envolvo o sande de carne em papel encerado. Envolvo o sande de marmelada em papel encerado. Envolvo um pedaço de torta em papel encerado. Meto os sandes e a torta no fiambreiro. Meto duas laranjas no fiambreiro. Fecho o fiambreiro.

São as sete. Ponho o abrigo e o chapéu. Colho o fiambreiro. Digo «Adeus». Vou até ao tranvia. Aguardo a que pare o coche. Subo no tranvia. Pago o bilhete. Vou ao trabalho em tranvia. O tranvia pára. Baixo do tranvia. Vou até à ENTRADA. Entro pola ENTRADA. Entro nos vestuários. Quito o abrigo e o chapéu. Meto o fiambreiro no meu armarinho. Penduro o abrigo e o chapéu no gancho do armarinho.

São as sete e meia. Entro na sala de trabalho. Digo a todos «Bom dia». Vou para o meu lugar. Começo a trabalhar. Trabalho. Trabalho até às doze. São as doze. Deixo de trabalhar. Lavo as mãos. Vou até ao meu armarinho. Saco o fiambreiro. Vou para o comedor. Sento-me junto a uma janela. Abro o fiambreiro. Janto. Janto sandes, torta e laranjas. Bebo café no jantar.

São as doze e meia. Meto o fiambreiro no armarinho. Saio à rua. Caminho por aí e escuto. Volto e entro na sala de trabalho. Trabalho até às cinco. São as cinco. Deixo de trabalhar. Lavo a cara e as mãos. Penteio-me. Ponho o chapéu e o abrigo. Colho o fiambreiro. Digo a todos «Adeus». Vou até à SAÍDA. Saio pola SAÍDA. Vou até ao tranvia. Vou à casa em tranvia.

São as seis menos quarto. Chego à casa. Digo «Boa tarde». Ponho o fiambreiro na mesa. Penduro o abrigo e o chapéu nos ganchos. Lavo a cara e as mãos. Penteio-me. Vou ao comedor. São as seis e quarto. Vou até ao meu lugar na mesa. Sento-me no meu lugar. O meu prato está na mesa. A minha faca e o meu garfo estão junto ao meu prato. A minha culher está junto à minha faca. Boto água no meu copo. Colho o meu guardanapo. Desdobro o meu guardanapo. Ceio.

Colho uma cunca de sopa vegetal. Colho pão e manteiga. Como o pão com manteiga com a sopa. Colho um pêssego e uma pera. Como a fruta. Tomo uma taça de café. Dobro o guardanapo. Ponho o guardanapo no meu sítio. São as oito menos quarto. Vou à minha alcova. Olho para o meu abrigo bom. Vejo que o abrigo tem um roto. Ponho o abrigo velho e o chapéu. Dobro o abrigo bom sobre o braço. Vou ao alfaiate. Dou-lhe o abrigo bom ao alfaiate. Mostro-lhe o roto do abrigo. Digo: «Por favor amanhe-me o abrigo. Quero-o para o sábado à tarde. Quanto vai ser?».

São as nove menos quarto. Estou canso e com sono. Digo «Boa noite» e entro na minha alcova. Desvisto-me. Penduro a roupa nos ganchos. Ponho a bata e as chinelas. Entro no banho. Abro a água quente e a água fria. Penduro a bata num gancho. Meto-me no banheiro. Meto-me na água tépida. Lavo o corpo com água tépida. Lavo o corpo com sabão. Seco o corpo com uma toalha. Ponho a roupa de noite. Lavo os dentes. Ponho a bata e as chinelas. Entro na minha alcova.

Ponho o despertador para as seis. Ponho o despertador perto da cama. Aparto as mantas da cama. Abro as janelas. Meto-me na cama. Deito-me. Subo as mantas. São as nove e quarto. Boto-me a dormir.

 

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