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 21 Março 1998 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

turista nada acidental

Rui Bebiano

Naquela manhã, já não muito cedo – talvez cerca do meio-dia, coisa que aqui em Portugal configura já, como se sabe, a hora do almoço de sopa e prato completo – entrei na livraria, à procura de um livro de que precisava. Andei pelas estantes, a tactear, deparando com aquilo que não procurava mas que acabei por meter debaixo do braço: um manual de computador para aprender a desenhar capas de livros, uma revista de poesia que trazia um retrato do Al Berto, um volume que me parecia falar num tom diferente do habitual da ditadura de Salazar. Carteira na mão, dirigi-me à máquina registadora, esperando a minha vez de pagar a conta e, já agora, também para procurar saber, no indispensável computador que ali trabalhava, se a tal edição que inicialmente procurava existiria em stock. À minha frente uma mulher de meia-idade, bem vestida (ou antes, vestida com roupa cara), penteada como uma verdadeira senhora (mais precisamente como uma tia, como agora se diz), com brincos de ouro e pulseiras, provavelmente da mesma matéria nobre, a chocalhar com bastante ruído. Pedia ela à menina morena da caixa: "Olhe, por favor, eu quero um livro sobre o Quénia!". De preferência, como acrescentou, "igual aquele que comprei no ano passado sobre a Tailândia!". Ora pronto, pensei, aqui vai outra à procura daquilo que lhe prometeram no cartaz da propaganda turística.

Na verdade, desde há muito que, apesar de sentir sempre uma grande atracção pelas viagens – que tento sempre conciliar com o profundo medo de andar de avião – que tenho, dizia, uma profunda aversão pela triste figura que, habitualmente, faz o típico turista. Lembro-me do ar de mal disfarçado gozo com que fui uma vez tratado quando, de calções de caqui, boné de basebol, óculos de sol e mapa na mão, perdido que estava numa aldeia qualquer dos arredores de Barcelona, me dirigi a uns velhotes que jogavam cartas à volta de vários copos de vinho. Ou de me ter sentido muito envergonhado quando me vi uma vez, perto de Marraquexe, e quase sem dar por isso, a ser fotografado (claro que para, supostamente, depois pagar muito bem pela fotografia) ladeado por dois figurantes disfarçados de tuaregues.

Conhecer outras terras, outras e variadas gentes, lugares distantes e imaginados, cheiros desconhecidos, pedras que viram outros olhos e outros dias, árvores de estranho porte, melopeias diferentes das de todos os dias, constitui, para a maioria das pessoas que o podem fazer, alguma coisa de atraente. Que traz, por momentos, por algum tempo, um pouco de felicidade. Um hiato razoavelmente feliz numa vida de todos os dias na qual o cenário permanece quieto. E alguma coisa para, como diz o anúncio, mais tarde recordar.

Desconfio que os ibéricos viajantes das trajectórias marítimas de "descobrimento" terão sentido, apesar do desconforto da viagem, dos perigos à espreita, e das graves preocupações de proselitismo e comércio, um pouco isso. Se calhasse, o adamastórico e nada fotogénico gigante do cabo das Tormentas teria aliás sido, se tal objecto lá tivesse chegado – saído do futuro, bem entendido – registado em videotape por um excitado turista-navegante. Para depois mostrar à família, na tentativa de impor a inabalável certeza de que o pai, ou tio, ou parente, realmente "esteve lá". E sem dúvida que Colombo, sem malas com etiquetas ou guia Michelin, sentiu também um arrepio de emoção quando aterrou em Guanahaní, lá nas Bahamas.

Mas existe também o lado, que me pareceu notar naquela nóvel recruta do departamento de turismo da república do Quénia, do tipo de pessoas que procura o sítio da moda, o lugar exótico, o sentimento desconhecido de quem quer encontrar, nessas paragens, um pedaço daquele delicioso programa tv-cabo da Odissey. Lá em Nairobi chegará de vestido impecável e lenço na cabeça, por causa do vento e do pó, irá directa para o hotel em autocarro previamente climatizado. Comerá doces altamente calóricos e apenas os pratos que já conhece. Poucochinho de cada vez. Beberá água mineral. Assistirá a espectáculos de folclore local no salão do hotel. Irá depois, agasalhada e devidamente enquadrada por um simpático funcionário e pelos seus companheiros de rota, ver os picos gelados. Molhará os pés no lago Turkana, que a maioria dos ingleses com mais de cinquenta anos insiste em chamar de Rudolfo. Mas, se aqui não me engano, jamais verá o Quénia.

Ainda na livraria daquela manhã olhei para o lado e consegui entrever na esquina da estante as lombadas, coloridas e muito alinhadas, dos livros de Bruce Chatwin. E pensei na imagem frágil e loira do caminhante. Suado, cansado, mas sorridente, a mastigar pop-corn e, lápis na mão, a tomar notas no seu caderno de viagem num barzinho escuro e mal varrido do Kansas. Como um nómada que não foi nunca, a não ser por acidente, turista.

Publicado também em Non! crítica e intervenção


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