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Çopyright - pensamento, crítica e criação em galego-português


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 25 Janeiro 1998 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

Reflexões sobre uma literatura funambulista

Alfredo Ferreiro

Publicado em Anto. Revista Semestral de Cultura (Amarante, Portugal), nº 2, Outono 1997, pp. 92-97. O número está integralmente dedicado aos laços culturais e literários entre Portugal e a Galiza, e inclui uma selecção de obra inédita de vinte e cinco poetas galeg@s, entre eles os autores e autoras do livro 7 POETAS que Çopyright reproduz nos números Ç3, Ç4, Ç6, Ç7, Ç9, Ç11 e Ç12.

     Quando o amigo Amadeu Baptista me propus escrever para a Anto umas linhas sobre a nossa visão actual da literatura galega, uma pulsão apaixonada se instalou no meu coração. Uma exaltação, uma convulsão interna poderosa parecia surgir da consciência de ter nas mãos uma oportunidade de ouro para exprimir a nossa perspectiva poética em um âmbito extraordinário, recebendo a nossa necessidade premente de acção poético-teórica um presente irrecusável. Vá aqui, então, a nossa perspectiva sobre a questão «literatura galega», aliás certamente uma das menos defendidas, embora este facto não comporte um mérito acrescido qualquer.

    A literatura da Galiza nasce galego-portuguesa. Este termo composto remete para uma unidade conceptual só seccionável, com posterioridade a um seu desenvolvimento díspar, em «galega» e «portuguesa». No fim da Idade Média e início do Renascimento acontece o declínio da «escola poética galego-portuguesa» e começa a supremacia da literatura «em castelhano» na península. Os poetas galegos (v.g., Macias o Namorado, João Rodrigues do Padrão) instalam suas criações na língua castelhana, enquanto em Portugal, chegado o domínio político castelhano, muitos dos seus poetas experimentam a mesma tendência. É um tempo de transição. Em Portugal, um passo para a consolidação de uma literatura própria. Na Galiza, inicia-se um passo para o vazio, para a falência de uma literatura escrita em vernáculo, quer institucionalizada quer não. Terá de ser, nomeadamente a partir do século XIX, que uma minoria burguesa, de parâmetros políticos que posteriormente se concretizarão em nacionalismo, recomece a construção da literatura galega. Não recupera, continua ou actualiza uma tradição literária anterior, de resto desconhecida na altura (não foram descobertos os manuscritos galego-portugueses medievais), mas começa a construir uma literatura própria em galego, passível de ser institucionalizada. Porque acontecia que estes escritores já conheciam uma literatura própria em castelhano.

    A língua utilizada em esta época é um «galego escrito em castelhano», ignorantes como eram de uma grafia galego-portuguesa histórica. Com uma língua galega usada pelo povo na prática totalidade, embora proibida de facto desde o século XV, o castelhano imperava desde o ensino como língua de cultura. O galego literário de XIX, a causa da desejada diferenciação do castelhano, língua que visava substituí-lo, preferia a utilização de localismos, vulgarismos e até invenções de modo à construção de uma língua literária galega. Nasce em XIX, portanto, uma literatura galego-castelhana sobre as colunas, de um lado, de uma língua galega «escrita em castelhano», vulgar e inevitavelmente castelhanizada a causa da promoção institucional secular do castelhano, e de outro, de uma tradição literária em castelhano.

     No século XX a situação não muda. O povo, galego-falante na maioria e escolarizado em castelhano, preocupa-se com a sua sobrevivência e participa da miséria da Espanha pobre de que, aliás, em termos de opressão, faz parte. A burguesia nacionalista pretende converter em populares seus parâmetros políticos, visando atingir a independência política de Espanha. Será neste quadro que situará o sentido da criação literária, de modo a promover a consciência ausente de identidade nacional através de uma dignificação da língua popular. Acontece então, como resposta às dia após dia maiores vitórias da classe operária espanhola no terreno político-social, a brutal devastação humana do general Franco. E começa um período de 40 anos de ditadura, de controlo absoluto da vida e da morte de toda a pessoa que depender do Estado espanhol. Em este momento, Estado nacional espanhol só admite uma língua, o castelhano, situação que irá minorando com o passo do tempo. Sob o manto da ditadura, literatura e identidade nacional juntam-se progressivamente na Galiza, até ao ponto de chegar a ser entendida a primeira, em muitíssimos casos, como dependente da segunda.

     A consequência da descoberta da tradição literária comum medieval galego-portuguesa, as preocupações filológicas pelo galego desenvolvem duas posições essenciais: a) a dos escritores que assumem a grafia castelhana como algo já instalado na língua, e que pretensamente facilitará a recuperação de usos linguísticos abandonados mediante uma ortografia coincidente com a castelhana, conhecida por aprendida na escola; e b) a dos que defendem uma reintegração no tronco linguístico histórico galego-português como necessidade absoluta para uma recuperação da língua, como única hipótese que a salvar de se converter progressivamente em um dialecto castelhano. Este confronto permaneceu mitigado sob a ditadura franquista, em que apenas falar galego, e poucas vezes escrevê-lo, era possível. Mas após a «queda» do franquismo reavivou-se. A par da postura «moderna» (se se me permitir o termo), aliás maioritária, desenvolveu-se a «reintegracionista», que propiciou o uso do galego escrito com ortografia galego-portuguesa por parte de certa intelectualidade. Com a morte de seu principal exponente, o professor Ricardo Carvalho Calero, um abandono destas premisas «reintegracionistas», que tanto interesse tinham produzido em intelectuais portugueses (v.g. o professor M. Rodrigues Lapa) favoreceu a perspectiva «moderna» chegar a ser maioritária, embora ainda hoje subsistam muitos «reintegracionistas» de coração, pois não de obra.

     A questão linguística, a que dedico tanta atenção, comporta parâmetros essenciais para o âmbito literário no que diz respeito dos referentes. O escritor galego assume, por já conhecida, uma tradição literária em castelhano a que, aliás, quer opor um sistema literário galego próprio que entende está a criar (gerando uma ideia de «literatura de resistência»). Mas esta oposição resulta extremamente incoerente, dado que a tradição literária conhecida é a castelhana e em castelhano se lêem os autores estrangeiros. Edifica-se assim uma literatura galega «dependente» do padrão conhecido de que se quer fugir, a literatura em castelhano, virando-se a literatura galega uma literatura «provinciana» ou «regional». Este sentido de dependência evidencia-se quando, uma vez conseguida a fama na Galiza (algo, de resto, fácil de conseguir, se bem relacionado politicamente), o escritor galego enceta o cenário das letras espanholas, quer através de traduções ao castelhano próprias ou alheias, quer através de colaborações directas em meios castelhanos. Demonstrando-se assim a que «sistema literário» se sente vinculado, em última instância, o escritor galego.

     Ao nosso modo de ver, um compromisso artístico real e não viciado de início com a literatura e a cultura galegas solicita outras estratégias, se bem que mais trabalhosas e politicamente mais arriscadas:

     1º. O tratamento literário da língua precisa da existência de um registo culto, quer para ser utilizado, quer para se opor a ele. Em todo o caso, para servir como referente e poder navegar, partindo de certa estabilidade, pelos mares de novos imaginários linguísticos. Uma base deste tipo não temos em um galego escrito «à castelhana» (salvo o próprio castelhano), mas sim directamente na língua portuguesa. Tal e como até hoje têm dito muitos autores galegos, a língua culta do escritor galego é o português. Nos casos em que este facto não é assumido, as consequências sempre são a utilização literária de normativas linguísticas caducas em pouco tempo, logo ultrapassadas por novas opções de escrita do galego que converte as obras rapidamente em produtos de museu. Não por casualidade, é este galego o subsidiado pelas instituições, comprometidas com uma promoção «folclórica» do galego que permita a cultura galega não passar nunca de um produto de «reserva cultural indígena».

     2º. A escrita criativa também precisa de uma tradição literária sobre que edificar-se, tanto para se identificar com ela como para pretender rompê-la e ultrapassá-la. No mesmo sentido que o ponto anterior, achamos que a literatura que primeiro deve o escritor galego assumir, além da própria da Galiza, é a portuguesa. Em primeiro lugar, por não ser o português distante, ainda hoje, das nossas próprias falas galegas, facto que em termos de língua literária constitui um tesouro desaproveitado à hora de apurar uma escrita em galego. Em segundo lugar, porque a partir de aqui sim pode o escritor galego enriquecer-se com uma literatura em castelhano à que tem tão fácil acesso, uma vez assente em um marco inicial galego-português próprio, quer dizer, uma vez tendo edificado a sua casa em sua pátria linguística, no conceito de Pessoa.

     Se os pontos acima apresentados podem ser obviados no contexto galego, como de facto o são, é consequência de dois motivos fundamentais. O primeiro, porque em ocasiões a falta de compromisso sincero com a arte recomenda aos escritores de não se preocuparem demasiado com assuntos conducentes à reflexão e à discussão. Assim se evita reconhecer a incoerência e não se resta tempo à produção. No conceito de Almada, desenvolve-se um ofício de escritor, fundamentado neste caso nas necessidades da nação e do reconhecimento pessoal (nem se sabe qual o primeiro), mas sem uma atitude abertamente artística, libertadora do eu e dos parâmetros da comunidade. O segundo, porque uma literatura se pode construir politicamente, acontecendo então que as discussões sobre a tradição, sobre os fundamentos culturais e o jeito de os aproveitar ou mudar resultam tempo perdido. Edita-se com fortes subsídios institucionais, estabelecem-se inúmeros prémios literários que engrossam o currículo, publica-se abundante crítica panegiricista, e fica assim, sob as características que no laboratório da intelligentsia político-cultural se tivessem criado, instaurada uma máxima que afirma a literatura galega ser um sistema literário próprio. Enquanto a Academia e a Universidade galegas põem o carimbo de denominação registada. Porém, esta perspectiva politicista da actividade humana baseia-se na falácia de que só existe aquilo que é realidade política. Assim as coisas, nós entendemos que, dado que uma inadequação de meios e fins pode conduzir a fins diversos dos desejados, a literatura galega deve ser focada de uma perspectiva artística fundamental, e não ter como objectivo uma literatura apenas rendível politicamente.

      Resumindo, que as circunstâncias históricas no nosso país deram lugar, em termos de sistema literário, a uma literatura galego-portuguesa originária que mais tarde passou a ser, no seu renascimento, galego-espanhola a causa da influência de uma política cultural espanhola de homogeneização, e na sua actual tentativa de consolidação, galego-espanhola também pela sua língua e pelas suas referências literárias e culturais mais amplas. Nós, neste necessariamente incompleto discurso, pretendemos evidenciar o confronto aberto entre a concepção institucionalizante actual de literatura galega e a nossa própria visão como grupo de acção poética. Somos escritores galegos, e como tais as nossas referências literárias e culturais partem de Galiza e Portugal. Situada referencialmente na corda bamba a literatura galega, advogamos pela sua queda para o lado galego-português. Pelo momento, a nossa poesia não necessita de tradução ao sul do Minho, embora saibamos que o génio, se o houver, faz soar as campainhas da alma sem necessidade de razoamento qualquer.

“[U]ma literatura se pode construir politicamente, acontecendo então que as discussões sobre a tradição, sobre os fundamentos culturais e o jeito de os aproveitar ou mudar resultam tempo perdido. [Na Galiza] edita-se com fortes subsídios institucionais, estabelecem-se inúmeros prémios literários que engrossam o currículo, publica-se abundante crítica panegiricista, e fica assim, sob as características que no laboratório da intelligentsia político-cultural se tivessem criado, instaurada uma máxima que afirma a literatura galega ser um sistema literário próprio.”

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