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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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 21 Novembro 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

“Vivemos numa democracia que vinte e três anos após o 25 de Abril continua a contar com mais de um milhão e duzentos mil analfabetos
. . .
Vinte e três anos após Abril há uma democracia por inventar”
Memória de Abril

José Paulo Serralheiro

http://www.a-pagina-da-educacao.pt


Na vida de um povo vinte e três anos é pouco tempo. Na vida de cada um de nós é tempo demais. Passaram-se vinte e três anos sobre aquele salto que demos da cama sentindo no coração a paixão do novo, o medo de sonhar, o peso do passado, tudo submerso em ondas imensas de esperança. Por pouco tempo, foi ainda o medo que era preciso limpar dentro de nós. Depois uma paixão e uma esperança tão fortes que foram capazes de nos cegar. E acreditámos que a vida se podia viver num longo abraço.

Vinte e três anos depois aqui estamos obrigados a viver. Ninguém nos perdoa se não formos capazes de escrever um simples texto sobre Abril. E no entanto é tão funda a dor dos sonhos por viver que nos apetece pedir perdão e desistir. A obrigação leva-nos a percorrer o tempo, a relembrar factos, a confrontarmos sonhos com a realidade e tudo nos parece vazio. Por muitas voltas que possamos dar, Abril leva-nos sempre ao mesmo sítio, ao sonho e á memoria do que sabemos ser incapazes de contar. Mas que seria belo se acaso os homens tivessem já chegado ao tempo de se viver.

Resta-nos a aparência da realidade e o fingimento. Vivemos na sociedade do espectáculo. Deixe-mo-nos pois do essencial, do que só captamos através de todos os sentidos, do que está para lá das palavras e vamos escrever apenas o que é possível escrever. Vamos ao trabalho sem emoção.

Uma nota de realismo sobre o tempo. Estamos hoje convencidos que uma razão para a nossa amargura vem do facto de o essencial da vida humana ser uma construção de gerações. E a nossa vida é apenas um brevíssimo momento da vida de um povo. Ambicionamos o impossível que é ver o mundo transformar-se no decurso da nossa vida. A amargura vem desta impaciência de não termos tempo para dar tempo ao tempo. Dos vinte e três anos que decorreram após o 25 de Abril recusamos uma visão a preto e branco. Se acentuamos os traços negros é ainda o desejo de intervir e de transformar, de procurar para todos e não apenas para alguns uma vida melhor.

Em que país vivemos vinte e três anos depois de Abril? Vivemos num país em que o primeiro ministro é o Senhor Guterres sucessor do Senhor Cavaco Silva. Governado por outros senhores que só se diferenciam do Senhor Cavaco Silva porque não nasceram em Boliqueime. Mas atenção, não estamos a criticar. Vivemos em democracia. Os governantes foram escolhidos pela maioria do povo. Uma maioria que curiosamente gosta do Marco Paulo, do Clemente, do Quim Barreiros e por vezes do Hérman José. Uma maioria que esqueceu, ou nunca conheceu, Adriano Correia de Oliveira e Zeca Afonso. Uma maioria capaz de levar as televisões a rivalizar nas telenovelas, nos concursos, nos apanhados, na porno-chachada e noutras imbecilidades, tudo em nome da conquista das maiores audiências.

Mas não vivemos só numa democracia governada pelo Senhor Guterres sucessor de Cavaco Silva e pelos seus acólitos. Vivemos numa democracia que vinte e três anos após o 25 de Abril continua a contar com mais de um milhão e duzentos mil analfabetos. Uma democracia na qual a maioria esmagadora da população é profissionalmente desqualificada. Uma democracia em que os muitos milhões de contos que vieram para qualificar profissionalmente os trabalhadores foram parar aos bolsos de meia dúzia de "empresários de sucesso".

Esta democracia em que vivemos fez acentuar nos últimos anos o fosso que separa ricos e pobres. Portugal, país da Europa, vizinho da Galiza, membro de pleno direito da Comunidade Europeia e Internacional, possui hoje mais de dois milhões de cidadãos vivendo na zona de pobreza e cerca de meio milhão de homens e mulheres procuram trabalho sem o encontrar. Em vez de diminuir, o número dos socialmente excluídos vai em crescendo. E tudo em nome do progresso, do crescimento económico, da moeda única, da modernidade, da pertença europeia.

A democracia em que vivemos caracteriza-se também por adiar a justiça social e acentuar a insegurança e a exclusão social. O sentimento de pertença a uma comunidade e a corresponsabilização pelo que nela se passa não são aprendizagens escolares. Ou a sociedade desenvolve as estruturas que a favorecem ou esta deixa de existir. O trabalho e o sentimento de pertença a um local de trabalhado e a um grupo de companheiros de ofício são factores fundamentais à coesão social. A política de precarização do emprego é um dos traços mais negros da actual política do nosso governo. Não só pelos prejuízos que acarreta para cada um dos cidadãos vítimas de tal política, mas pela exclusão social que provoca.

Vinte e três anos após Abril gostaríamos de ver uma sociedade mais solidária, mais coesa, mais igual. Uma sociedade onde a dignidade de cada um fosse mais respeitada e não adiada. Mais próximos daquela velha máxima “de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades”. Vinte e três anos após Abril há uma democracia por inventar. Vinte e três anos após Abril é tanta a mágoa que temos medo de desesperar. Medo de perder a esperança. Medo de já não saber combater.

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