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pensamento, crítica e criação

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10.10.2997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Zona 3.5.5.01.06


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Protótipo de Globema
GONG (prefácio esperançado)

Carlos Quiroga


O texto que se segue pretendia ser prefácio a GONG (20 poemas globais e um prefácio esperançado), a publicar em Portugal. GONG significa Globemário Oscilante Nervado na Galiza, mas aguarda a ler para perceber. Nada melhor que este meio para, polo menos, conservar o pretenso prólogo e dá-lo em cópia decente às pessoas que o pediram após a sua leitura pública


prefácio esperançado

      A empresa de consultores Penâculos, criada no ano 90, recebeu a encomenda por parte de umha provisória Comissom de Cultura do partido BNG, para, por 250.000 pts., aconselhar a Junta da Galiza, no caso de ser governada por este partido após umhas próximas eleiçons, sobre como lançar um projecto ilusionante na indústria editorial em idioma galego. Esta situaçom representou umha oportunidade para a nossa Nova Consultoria (consultores sem contratos) desafiar as suposiçons sobre o poder cognitivo que atribui o mundo editorial a empresas de relaçons públicas e nom a grupos liberais de investigaçom de arte. A nossa proposta foi apresentada em duas fases à Comissom, a qual, entre outras cousas, pedira à empresa de consultoria que executasse um estudo de mercado no sentido de estabelecer qual o papel que o Estado Autonómico deverá desempenhar em relaçom ao livro em galego.

      Naturalmente a proposta começava por recomendar que se efectivasse a existência oficial de tal Comissom por legislaçom imediata, umha vez alcançado o poder político, e seguia aconselhando o desenvolvimento de um plano de 'marketing' a cinco anos. Recomendava incluir comissons de planeamento locais e havia outros vários pontos de enquadramento geral a considerar.

      Um dos pontos mais controversos advertia sobre o vazio em que a iniciativa se pretendia promover: nom só entre as camadas populares em geral havia um analfabetismo quase total na língua galega de uso escrito, mas tamém entre o quadro de funcionários públicos, professores e profissionais de todo tipo. Nestas condiçons afirmava-se suicida recomendar projecto motivante algum se nom existia destinatário qualificado. Ainda assim, a consultoria avançou propostas no sentido a remediar conjuntamente os inconvenientes da qualificaçom e da motivaçom para responder à encomenda. Entre outras cousas recomendou-se à Comissom retomar um princípio constante na história do galeguismo, e que tinha ficado como pura retórica esquecida nalgum canto dos velhos programas. Referia-se simplesmente a reforçar as relaçons com "os irmaos do sul": qualquer projecto ilusionante passava por divulgar entre a massa analfabeta galega a raiz prestigiada que o seu idioma supunha no meio dum universo editorial e cultural prestigioso, com vários centos de milhons de utentes. Ora esta proposta começava a chocar gravemente com os interesses e os rumos partidários do BNG, cujo crescimento já se estava dando com o apoio de cidadaos linguística e culturalmente assimilados polo espanhol. Além disso, nos quadros desta formaçom chamada a governar iminentemente tinha entrado pessoal que nom só desconhecia aqueles velhos princípios constantes na história do galeguismo, mas que tamém, ao igual que o professorado de galego que leccionava em espanhol, começava a fazer política pretensamente galega na dependência exclusiva do sistema central espanhol.

      A indicaçom deste último factor deveu causar algum incomodo na Comissom, que foi dissolvida antes de receber a 2 parte do informe e, por suposto, antes de pagar à Consultoria o conjunto da encomenda. Posteriormente Penâculos recebeu pressons nom identificadas para eliminar os materiais de arquivo referidos a este assunto, e sucederam-se várias circunstáncias inexplicáveis que dificultaram a sobrevivência da consultoria, que tamém acabou por desaparecer. Nem som convenientes para expor aqui mais pormenor es sobre como a prospecçom se alargou. Mas tudo isto é necessário como ponto de partida e explicaçom do que em concreto hoje se apresenta.

      Como membro da empresa de consultores Penâculos ocupei-me, junto com Svend Age Madsen, o "louco", de algumhas variáveis naquele informe final apresentado à citada Comissom. Foram consideradas pouco relevantes no informe, mas tanto Madsen como eu já as achámos extremamente sedutoras naquela altura para a formulaçom de um "projecto ilusionante". Umha vez extinta a Consultoria, que os dous co-fundáramos com outras 3 pessoas, só Madsen e eu, cada um por seu lado, continuamos esta pesquisa com vista a um aproveitamento estético dessas variáveis. Ele no terreno narrativo e eu no terreno poético. Os meus resultados correspondem-se com a declaraçom e proposta que se segue. Trata-se do "poema global", ao que acrescento dados genéricos e particulares (estes sobre a "novela global") facilitados por Madsen.

      Na Consultoria concluíramos que, enquanto o livro clássico vai perviver como fetiche, ampliando a sua vida nos suportes magnéticos, adquirindo várias formas e rostos virtuais, pairando até nas ondas da rede internáutica ou na privacidade do autoconsumo doméstico, dando novos frutos no sentido que foi marcando o OULIPO francês desde o 67, podem ser propostos novos "objectos de culto literário", de entre os quais o que aqui vou apresentar.

      Pola minha parte cheguei ao convencimento de que o poema global, ou globema, podia ser um sucesso inquestionável em resposta à pesquisa iniciada na consultoria Penâculos, embora apresente algumhas dificuldades que só se poderám manifestar após 4 ou 5 anos, no início do próximo século. Às mesmas conclusons chegou Madsen quanto à glovela.

      Os primeiros globos, concluiu ele, serám recebidos de bom grau polos leitores que rapidamente vam perceber novas profundidades, adquirindo assim umha visom geral muito mais ampla da existência e das condiçons de vida. A emoçom será comparável à que experimentou Colombo quando um bom dia tivo um ovo entre as maos. É fácil imaginar a sua excitaçom no momento em que, após umha ocorr ência genial, inscreveu, a modo de rascunho, os mundos conhecidos sobre a sua superfície. O Colombo que até entom tivera de conformar-se com as cartas náuticas planas com as suas margens abruptas.

      (Outras cousa bem diferente, diz Madsen, é que a história do ovo de Colombo tenha sido logo malinterpretada e rudamente tergiversada).

      No momento em que este primeiro globemário de signo matemático que remete para a esfera, e outros três que tinha previsto, fossem publicados, os livreiros e as bibliotecas começariam a dar a voz de alarme. Os globos seriam tomados como eminentes inovaçons, obras de arte significativas, cujo signo natural seria encontrar-se em qualquer biblioteca. Se houver lugar para eles. Porque os depósitos de livros ficariam bem cedo completamente ultrapassados polas publicaçons do clube de leitores de novos globemas e a inda de glovelas, já que seria o relato breve ou novela a que mais crescimento iria ter, depois do natural nascimento no terreno poético, que hoje celebramos. E, nos respeitáveis lares literários, os pianos de cauda veriam-se semeados de esferas.

      Nenhumha tentativa de oferecer umha soluçom prática ao problema do depósito seria inteiramente satisfatória, concluiu o meu colega. É de prever que apareçam livros pequenos, para que possam ser inchados antes de iniciar a sua leitura. Ou que sejam equipados com umha corrente para poderem ser guardados um dentro do outro, de maneira a ter um globo base, com muitas capas por cima. Com isto, o que se encontre dentro de todos os demais, no interior dos outros globos, tornaria-se extremamente inacessível. Apareceriam dobráveis, para que, seguindo um desenho engenhoso, pudessem ser comprimidos e colocados nas estantes ao lado dos livros planos de antigo. Sem embargo, acabaria por verificar-se que, ao receber este trato que lhes impinge vincos ou pregas antiestéticas e uns pontos débeis nas pregas, é como se perdessem umha dimensom.

      Por esta razom deveriam aparecer os cartógrafos de livros que projectam os globos poéticos na forma habitual. Está claro que umha projecçom deste tipo poderá realizar-se de várias maneiras, e de facto devem aparecer defensores de métodos diferentes.

      O problema, é claro, será maior nas glovelas. Enquanto um cartógrafo de livros será fiel à superfície, conservando o peso em proporçons exactas entre as diversas descriçons, haverá outro que será fiel à longitude, com o qual as personagens recebem a descriçom originalmente mesurada, mas entom estas nom aparecem relacionadas entre si do modo adequado. Tamém poderám ser fieis ao ángulo, conservando assim os pontos de vista, mas entom algumhas relaçons de suma importáncia ficam desmembradas. Nos globemas estará a dificuldade tonal, os efeitos sonoros, as recorrências inerentes à linguagem poética que os diversos métodos modificam. E cada um dos métodos teria as suas vantagens e os seus inconvenientes, polo qual será impossível determinar categoricamente qual das formas de representaçom será a melhor.

      Os problemas acabariam por ser tam grandes que globemários e glovelas, aproximadamente à volta do 2005, irám eclodir num passadismo estridente que deixará lugar a um novo salto qualitativo. A prospecçom da nossa Consultoria nom ultrapassou este limite temporal, nem entrou no novo campo, do mesmo modo que na minha pesquisa particular tamém fiquei nessas margens, salvo para advertir a previsível sorte final da inovaçom hoje lançada.

      No 2005 desaparecem sobretudo as glovelas da cena activa, pervivendo exemplares caros de obras notáveis, fabricados em material elástico de mais longa duraçom. Estes exemplares guardam-se com o mesmo fetichismo dos livros clássicos em casas e museus, nas estantes e sobre os pianos de cauda. O progresso tecnológico permite reproduzir mais precisa e nitidamente livros-planos e livros globo, até em virtual realidade tridimensional. O leitor pode levar, por exemplo, para a cama ou para o banheiro, um pequeno aparelho tipo transistor que lhe permita projectar fisicamente, de forma plana ou esferóide, só com letras ou com imagens, silenciosamente ou com som, a sua leitura preferida.

      Os globemas voltarám, entom, à primitiva posiçom de fetichismo que no início asignara o informe da nossa Consultoria ao livro.

      Postas assim as cousas, decidimos lançar a inovaçom apenas com carácter testemunhal, precedendo com este proémio ou síntese explicativa, na esperança de nom ilusionar inutilmente a povoaçom. Para nom provocar falsas expectativas de novos postos de trabalho, numha situaçom sócio-económica delicada nos países da área (no que se refere a fabricantes de fibras elásticas, licenciados em filologia chamados a ser cartógrafos de livros, e livreiros e conservadores de museus), decidimos apresentar simbolicamente um exemplar de globema, com o resto do material literário projectado na forma mais convencional do livro plano.

      O exemplar que se exibe, elaborado artesanalmente e com apresentaçom esmerada e ainda sem inchar, será distribuído só por encomenda especial conjuntamente com o livro plano. É de uso privilegiado em sessons literárias em que a leitura se realiza em voz alta, sobretudo em locais em que se consumem bebidas. Como normalmente é necessária umha dose de álcool para vencer a natural inibiçom dos protagonistas, tal e como nos ensinou a praxe do movimento RONSELTZ (cocktel literário), recomenda-se que seja o próprio encarregado de ler o texto quem tamém inche o globema. Assim, os músculos que vam intervir na leitura ficam purificados pola renovaçom continuada do ar, os vapores do álcool passam ao globema dando-lhe leveza apreciável (de modo a permitir mesmo que o globema paire entre o público assistente), e a cabeça do declamante entorpece-se um bocado por causa do esforço, com o qual a leitura fica libertada de influências mentais posteriores ao que está no texto do globema. Por outro lado, a leitura do poema global nestas condiçons permite que, quando já se lhe deu umha volta à esfera de leitura, se possa seguir lendo tranquilamente, dado que na seguinte volta a esfera conta algo novo. E o mesmo acontece na terceira volta. Para além do virtual uso desportivo do globema, que certo público culto sempre pode usufruir em períodos estivais de praia, e com carácter socializante.

      O método tem grandes vantagens diante da exposiçom plana, mas será um fracasso parcial por razons de espaço e de moda. Por isso cremos honrado lançar tal "projecto ilusionante" com este relatório, na esperança de evitar na parte da humanidade interessada polos livros umha revoluçom em grande escala que deixe no 2005 as cousas mais ou menos como estavam o 15 de Julho de 1997.

      Consequentes com o exposto, o que temos diante é a projecçom de textos de forma esférica sobre um papel normal, um plano possível do poemário global.


Foi lido no Pub Tarasca de Santiago de Compostela, na noite do 15 de Julho de 1997, fechando umha leitura de poemas. Com a última parte do texto foi exibido um globema que circulou entre o público. Qualquer parecido das personagens e instituiçons mencionadas com a realidade é, naturalmente, coincidência propositada, salvo no caso de Madsen, a quem pretendíamos reverenciar desde aqui. Decidi deixar o ortografia com os dois ou três tiques fora da Norma padrão, por fidelidade à ideia original de reclamar o galego em Portugal da mesma galáxia a que ele deu origem (e por lembrar que a Galiza ainda nom entrou bem nos Acordos, e que só tiques a diferenciam).



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