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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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 4 Agosto 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

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O Lugar

Ana Silva Fernandes



SOM: Webern, Anton, Passacaglia, 5 Movements for string orchestra op. 5, 6 Pcs. for orchestra op. 6, Symphony op. 21


      Quando decidi voltar a esse lugar geográfico sabia que não ia encontrar esse lugar mental. Lembrava-me de uma parte da estrada que tinha sido rasgada precisamente no cimo das montanhas e a sensação que me ficara era de percorrer um imenso planalto o mais perto do céu que é possível. Tirei algumas fotografias. Experimentei calcorrear alguns metros de um caminho no meio do mato e dos poucos pinheiros que tinham escapado aos últimos incêndios.

      Nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro, era isso, Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia, Fernando Pessoa.

      No meu caso não se volta a um lugar que nunca se deixou, tu nunca partiste realmente, disse a mim própria, foi apenas uma questão de espaço físico e de tempo físico. A tua razão de existir está irremediavelmente ligada a este lugar porque simboliza tudo o que procuras. Também te fartas de dizer que as pessoas mais interessantes apenas existem na tua memória e que é por isso que não te consegues desligar dessas personagens. Como é que andamos imenso tempo à procura de uma coisa e de repente surge-nos à frente. O que aprendemos não se constrói de forma contínua mas numa série de acasos. Numa questão de segundos podemos descobrir uma coisa que demorámos anos a procurar. Quando começamos à procura só nos conseguimos afastar do que procuramos. Pensei, todas as injustiças são pessoais e subjectivas. Este lugar tão importante para mim está completamente abandonado e tem todos os sinais desse abandono e da decadência que se lhe seguirá. Vai desaparecer do mapa, vai passar a ruínas.

      Havia uma determinada claridade neste lugar que nunca mais vi em lugar algum. Tinha a ver com os pinhais que se mantêm todo o ano. Agora praticamente não há árvores, só alguns pinheiros e cedros. Desço a última encosta e paro no monumento ao Cristo Operário. Leio de novo a data da inauguração: um dia de Agosto de 1967. O único som é o do vento e ao longe um ou outro carro ou motorizada. Esta solidão não é desconfortável como eu esperava. Preparei-me mentalmente para uma solidão pesada e encontro este som pacífico, este quase silêncio. As personagens que amo pertencem a este lugar. E este lugar é o único onde a minha realidade existe. A minha e a dessas personagens. Durante muito tempo não soube porquê. Talvez já o suspeitasse, mas não sabia. As pessoas que o habitaram não tinham aqui raízes, essa é parte da explicação. Há um carácter universal num lugar que cresce repentinamente do nada, que se constrói de um dia para o outro e que atrai pessoas de todos os lados e de todos os géneros. Há uma liberdade quando não há um passado comum, uma diversidade que não se pode uniformizar, um número infinito de possibilidades para um lugar assim. É como se pudesse ter surgido com estas características num lugar qualquer do planeta. É uma espécie de estação ou aeroporto ou rampa de lançamento, em que as pessoas estão de passagem. Um lugar assim que não nos prende nem limita é um lugar mágico, sobretudo para quem como eu absorveu essas características. Um lugar assim permite-nos ser autênticos, embora não por muito tempo.

      As primeiras casas alinhadas, com o ar estranho das casas sem gente. É como os documentários de guerra, de um momento para o outro vemos tudo vazio. A igreja, a escola, o armazém, os escritórios, o campo de hóquei, o clube. A mesma poesia, mas não a mesma filosofia. Por aqui passaram grupos de mineiros, a mim sempre me pareceram uma espécie de astronautas, com o fato de macaco, as lanternas no capacete. Agora o meu olhar simplificou-se (ou talvez se tenha tornado mais complexo). Vejo o que uma criança apenas suspeita. Uma terrível lei que se sobrepõe à realidade de cada indivíduo e o limita a uma existência condenada à doença, à velhice prematura. Esse olhar sobrepõe-se a tudo. O trabalho em túneis subterrâneos e escuros nada tem de poético. A ausência de claridade nada tem de poético. A ordem natural das coisas, pensei, que nada nem ninguém consegue alterar. Estes homens enfiam-se em buracos, vivem grande parte do tempo dentro desses buracos, até saírem desses buracos envelhecidos antes do tempo. Alguns dos poucos que ainda trabalham aqui foram meus colegas de escola nos anos sessenta. Só para alguns este lugar é uma rampa de lançamento. Estes homens estão presos a este lugar, mesmo que sejam condicionados a sair levam as marcas deste lugar. Como é possível que um lugar com tantas possibilidades seja também um lugar tão injusto, pensei. É uma contradição, as imensas potencialidades do subsolo e o tipo de vida dos homens que aqui trabalham. E o que leva estes homens a manter uma ligação afectiva a este lugar e a este trabalho. O que leva estes homens a falar da doença que inevitavelmente os espera, de acidentes horríveis e da velhice precoce de um modo natural, como se tudo isso fizesse parte da sua existência, como se não imaginassem outra existência possível.

      Esta realidade é a mesma em imensos outros lugares, mas este é o lugar que eu conheci (ou pensava conhecer). Pensamos conhecer um determinado lugar mas nunca conhecemos o que amamos. A memória das coisas é demasiado poética para ser autêntica. Passo para o outro lado, os correios, as casas com jardins agora abandonados, a messe, os campos de ténis, o hospital. E o caminho que seguia pelo pinhal ao lado de um pequeno vale com uma ribeira. Penso no Engenheiro e nos passeios solitários, uma figura alta e esguia e vários cães, os únicos ouvintes, a companhia ideal.

      Os pinheiros devem ter ardido em sucessivos verões. Neste país nada resta de pé, parece-se cada vez mais com um deserto, uma terra devastada. É o país das contradições, mas todos os países devem ser assim. Porque todos os homens são contraditórios. E muitas vezes nem se apercebem das suas limitações e da sua cumplicidade na destruição das coisas, das pessoas. A cultura de uma comunidade inteira pode ser destruída em pouco tempo. Pertencemos a uma espécie cheia de erros e violência e somos ignorantes e incompletos e deixamos atrás de nós os sinais da nossa decadência. Verificamos com o maior horror que somos da mesma espécie dessas pessoas (personagens) que desprezamos profundamente. Somos da mesma espécie do que rejeitamos completamente, a falta de sensibilidade sobretudo, a tendência demente para a destruição.

      Passei por este lugar como por tantos outros lugares, por estas personagens como por tantas outras personagens. Talvez eu já soubesse que tudo não passava de uma farsa, as personagens, a ordem natural das coisas, mas quem é que consegue viver com essa realidade, pensei. Passamos a vida a construir razões para nos confortarmos e tranquilizarmos e o resultado é esta mediocridade, esta mentira em que vivemos. O meu fascínio pelas pessoas é poético, não é autêntico. Nada na minha vida foi autêntico. Venho a este lugar para destruir as ilusões. Nada do que entretanto vi ou me deram a ver me aproximou deste lugar ou das pessoas. O que sei da vida e das pessoas é uma construção frágil que se vai refazendo constantemente. Uma ideia pode destruir em segundos o que levei anos a elaborar. Este lugar e a minha vinda a este lugar simboliza essa ideia. Não há princípio nem fim de nada, tudo está ligado a imensas coisas e ideias que já existiam e tudo se vai ligar a imensas coisas e ideias que estão a surgir. A história é uma abstracção. O olhar original não existe. Vim aqui e este lugar já não me reconhece nem eu o reconheço nem me reconheço a mim. Vim aqui para descobrir que nunca conheci a realidade deste lugar. Nem as pessoas que amei como personagens.

      Somos uns pretensiosos até nos nossos pensamentos. Sempre quis evitar a mediocridade e vivi na mais completa mediocridade. Sempre quis manter a autenticidade e vivi na mais absoluta mentira. O que é que me levou a fazer esta viagem, por exemplo?, o que é que me prende ainda a este lugar? Eu já não existo, a minha realidade sempre foi paralela à realidade dos outros. Para fugirmos ao nosso desespero somos capazes da maior loucura, de nos transportarmos por exemplo para essa realidade paralela em que somos apenas observadores. Esta sensação absoluta de não pertença a um espaço ou a um lugar definidos como se fôssemos uma espécie virada para o infinito.



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RIO SEM REGRESSO E ANSEL ADAMS. Por
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Fotografia de Ansel Adams. Por favor, active Carregar Imagens

Ansel Adams, The Tetons and Snake River, 1942


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