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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 41


 5 Junho 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

“A avalanche de palavras, de retórica, de comunicação, que desabou sobre o mundo, não foi uma forma de abaixar a voz humana, tornando-a inaudível?”
Linguagem e voz

José A. Bragança de Miranda


Está-se obsidiado pela «actualidade». Não pessoalmente, não há aí originalidade. Todos estamos ou temos estado, mais para nos afastarmos daquilo que tem de inusitado, mesmo de violento. Preparamos o acontecimento, estendemos as nossas redes para o apanhar, e uma forma milenar de o fazer é a teoria, mesmo uma certa filosofia. Outra forma, que compete em eficácia é rede de instituições com que se procura controlar o acontecimento. Preparamos o acontecimento sem nos prepararmos. Os modernos procuram encontrar no controlo uma capacidade de «produzir o acontecimento», querem evitar a sua espontaneidade quase absoluta. Tudo ilusões, justamente quando o espaço de controlo, sob a sua forma cibernética -e recorde-se que já no grego era esta uma das suas conotações-, parece estar a escapar à imensa maquinaria que entretanto se foi instalando. A luta pelo controlo do controlo, que quem imperou tenta ainda fazer jogar a seu favor, perde de vista que apenas se potencia o que se tem ilusão de poder dominar. Para bem ou para mal, a repressão do acontecer pela teoria ou pela instituição está a chegar ao fim. Chega ao fim quando o controlo se apresenta como o acontecimento decisivo, uma espécie de catástrofe da cultura, como um paradoxal retorno da Physis. A ser assim a própria ideia de linguagem -a que sempre se associou o humano do homem- entra em crise. O problema é que, do ponto de vista tecnológico não há diferença apreciável entre a voz, a escrita e a imagem. E te-lo-á menos no futuro. Todo o platonismo, que Nietzsche procurara inverter filosoficamente, desaba assim nas suas estruturas metafísicas. Mas talvez a ideia de linguagem que desenvolvêmos, retalhada entre as disciplinas e as poéticas, fosse inaceitável, pois ia dispensando a palavra humana na sua inteireza. No refluxo que Rorty chamou o linguistic turn sabemos agora com Davidson ou com Lyotard que a «linguagem» não existe. No fundo era uma espelhismo da vontade de controlo. A linguagem dos computadores, a língua da técnica como diz algures Heidegger, tende a tornar-se numa linguagem universal que lesa a voz humana, mas que também a liberta das «grelhas» (ou seria «grilhetes») linguísticas. Não será por esta razão que se procura impôr o diálogo, a conversa? Justamente porque não há nada disso? E seria desejável que houvesse? A avalanche de palavras, de retórica, de comunicação, que desabou sobre o mundo, não foi uma forma de abaixar a voz humana, tornando-a inaudível, naquilo que tem de singular choque com a outra voz? E enquanto voz humana, a promessa única do encontro comum de seres com voz, e não apenas de «indivíduos» que monologam num diálogo armadilhado desde sempre? Mas o botão línguístico ou o dos aparelhos de som que diminuiu o som da voz até a ocultar absolutamente, não anula o múrmurio de fundo que ela deixa quando o «low volume» ou a «pause» são activados. Como me surpreendo sempre quando o intervalo da «pause» termina bruscamente, e num grito brusco a voz revolta (se) do electrónico, com a intensidade do inesperado. Como se fosse possível controlá-lo. Que depois tudo retorne ao volume do som controlado, que pelo outro extremo, uma interrupção de «corrente» abale o continuum das intensidades, para de novo e por seu lado ser reposto, tudo isso já não consegue abolir essa surpresa, que enquanto durar durará.

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