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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 36


 19 Abril 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza


Uma aproximação a Luz Central de Ernesto Sampaio (1)

Luís Maçãs

(com um poema de Ernesto Sampaio)


início

“O pensamento poético é para mim o único com valor porque é o único interessado na Realidade que se nos apresenta num todo e não parcelada”

António Maria Lisboa


          Esta obra supõe uma valiosa análise do acto poético, situando-o no âmbito próprio da arte que alcança uma consciência absoluta além da superficialidade do nosso tempo.

          Das argumentações expostas polo autor tiramos semelhanças com outros poetas surrealistas portugueses dos anos 50: António Maria Lisboa, Henrique Risques Pereira, Mário Cesariny de Vasconcelos, Pedro Oom (2).

          Ernesto Sampaio é consciente (veja-se o prólogo Antes de subir o pano) de perseguir com este livro tudo o contrário das edições actuais. Os “best-sellers” enveredam ao caminho apressado da produção em série. O escritor actual vê-se azafamado em produzir mais quantidade de obras, preencher o seu curriculum vitae, à procura de maior promoção social dentro das elites intelectuais.

          O poeta opera com uns interesses bem distintos, aparta-se das formas limitadas do seu tempo, mergulhando-se no universo do desejo. Bem é certo que a atenção tão operativa para a análise científica não tem validez para a criação poética. O racionalismo é deficiente em relação às necessidades ou objectivos superiores do homem. Impõe um controlo ao espírito. E um espírito dirigido fecha-se. O conhecimento poético só é possível mediante um espírito excessivamente aberto e absolutamente disponível que se assista num desdobramento dialéctico do consciente e do inconsciente. A poesia e a Pintura têm de ser um novo sentido físico a descobrir. Esta concepção da arte poética tem pouco a ver com a tradicional dança sensual de palavras ligada ao pensamento racional que não vai para além do plano referencial da língua.

          Se optamos por dizer que a criação leva inserida uma investigação da linguagem, é evidente que esta nova concepção da poesia exige um novo estado: o da hiperconsciência; onde as cousas, os objectos, desligam-se para serem unidos num nível superior. E podemos dizer que existe claramente um fio a ligar todas as cousas e que permite ao homem que deseja criar. Em qualquer processo criador é precisa a solidão, o estado de equilíbrio da consciência que prolonga a lucidez da mais simples até à mais complexa percepção. O poeta realiza uma verdadeira operação sacral à semelhança do homem que ama, ao transformar-se ele próprio em comunicação. O autor nega-se a si próprio, nega a sua particularidade em proveito da obra, e nega a particularidade dos leitores em proveito da leitura. Autor e leitores transformam-se em comunicação.

          Mas acontece que no artista, ainda que se liberte da sua condição particular e da sua responsabilidade moral ou histórica, às vezes ficam dentro dele outras partes que lhe assaltam o espírito reduzindo-o a uma dualidade. Temos então imitação do amor, estética. O artista quer ser amado e compreendido. Daí o estado de lógica artística, da simplicidade da grande parte da arte contemporânea. Contra esta lógica insurge a soberania do homem na procura de uma expressão de libertação total do pensamento, da concreção do espaço poético. Então o poema surge como um acto livre, aberto às determinações do tempo e da natureza.

          Na última secção do livro Para uma cultura fascinante, expõe que quando o homem tenta romper a particularidade dos seus limites transforma a sua vida numa angustiada insatisfação. Há nele uma força de morte que gera a vida. É a contradição que gera a afirmação; morrer de vida metamorfoseando-se em espírito que é revelação do ser. A poesia não é escolha, é necessidade, ou é essencial ou não é nada.

          E é esta a única poesia referida ao real, a única com qualidade iniciática. Assim o espírito, que participa da realidade principal, transforma o pensamento em desejo e o desejo em memória, que é transmitida cronologicamente na história pola tradição.

          O homem afastou-se do dinamismo natural que as altas tradições e as civilizações arcaicas reflectiam. Houve um tempo em que a cultura era queimar as formas para ganhar a vida (Antonin Artaud). Este não é o nosso tempo, é dos mortos. É também do conhecimento (empírico), oposto à criação. Criar é razão de ser, é estruturalmente destruir, aniquilar a história individual e colectiva. Só a tradição iniciática contém orgânica e intelectualmente a ideia da pessoa interior.

          O artista converte-se num iniciado que, através da criação, apaga a sua realidade individual, desmaterializa-a e funde-a interiormente com a realidade essencial. As suas obras não resultam de razões estéticas mas de leis cósmicas e divinas que ultrapassam o formal. Eis uma beleza que consiste na realidade interna. Esta transporta o homem para uma zona de Alta moral, onde o poeta deve substituir o seu inconsciente particular polo colectivo. Têm de ir à procura de formas de comunicação com os outros eus e assim medir absolutamente a veracidade da expressão do real no seu corpo.


          (1) Ernesto Sampaio, Luz Central, Hiena editora, Lisboa, 1990, 2ª ed. (1ª ed. 1957).

          (2) Remitimo-nos a A afixação proibida, texto assinado polos citados autores, que aparece recolhido na obra Poesia de António Maria Lisboa (Assírio & Alvim, Lisboa, 1995).
          Recomendamos a consulta de Surrealismo/Abjeccionismo, antologia organizada por Mário Cesariny, Edições Salamandra, 1992 (Edição fac-similada do original editado em 1963 por Editorial Minotauro), e a recente antologia de Perfecto E. Cuadrado You are welcome to Elsinore. Poesia Surrealista Portuguesa, Edicións Laiovento, Compostela, 1996.


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