[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 35


 11 Abril 1997 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Galiza

Cinco poemas

João Rui de Sousa


Jamais a ordem como quem ordena
Ofício
Agricultura
O azul do entendimento
Amo tanto o amor como a amada

FimFim de Çopyright 35


início

Jamais a ordem como quem ordena

Jamais a ordem como quem ordena
o que intimamente jamais quer

Disciplina aqui é pôr regra
bem perto do fio que mais recorde
vontade própria         querer         mais vigilância
no caminhar sem fim onde se ergue
ilimitada esperança         ou vida ou obra

Existe a lei aqui mas não de pedra:
um livre rumo ao homem que se quer
em certa direcção quando navega


(in Meditação em Samos, Galeria Panorama, 1970)
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Ofício

Conduzo estas palavras que se erguem
num alteroso mar onde o que seja
a alegria, a dor ou a raiva imiscuídas
se transforma em árvores ampliadas
no arfado crescendo de uma forja,
no florescer de regras muito próprias
(às vezes descobertas, encontradas,
num rio de nudez ou no rumor
das ruas e da casa)
para o azul das massas levedadas
e para os pães de variadas formas
(e misturas, fermentos, intenções)
com que abro portas, muros e janelas
que dão para jardins que nunca acabam.


(in Enquanto a Noite, a Folhagem, Tertúlia, 1991)
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Agricultura

É preciso recolher as vagens
e dispô-las no chão

É preciso beijar as plantas
ou cortá-las ao meio

E ter sempre uma enxada
uma discreta atenção

ao silêncio da terra
ao calor das abelhas


Roubar à seara limpa
a planta podre

e queimar essa planta
em eira aberta

É preciso a visita do sol
o diálogo da chuva

É preciso a vertigem da esperança
e esperar com amor


(in Corpo Terrestre, Portugália Editora, 1972)
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O azul do entendimento

Aqui neste planalto raso de manhãs ao vento
- quando erva e relva tanto se confundem -
preciso é lavar o ar e a visão de dentro,
a fim de que o olhar não seja um caprichoso adejo,
um esvoaçar queimado em tanto encobrimento:
um só roer o espaço - sem caminho aberto.

Planalto que se azula em rio de entendimento
quando a visão é ter o olhar certo.


(in Palavra azul e Quando, Átrio, 1991)
início

Amo tanto o amor como a amada

Amo tanto o amor como a amada
sombra que certo dia se esvaiu...
Exausto às vezes, prestes a ser ave
sem ter lume, fósforo sem pavio,

amo tanto o amor como a amada
esfinge, submersa (e cauta) no vazio
de se exaurir para sempre na rajada
dum cavalo ardente em rumor de rio.

Amo tanto o amor como a amada
luz que, trémula, nos confins do escuro,
tão depressa é deserto como é mosto,

tão depressa é dormência como é viva
impulsão de dança, fogo posto
de medusa vibrante, embora esquiva.


(in Sonetos de Cogitação e Êxtase, Átrio, 1994)

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