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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 34


6 Abril 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza


Algum deus ressentido que dirige o meu fado

Kiko Castro Neto


início Algum deus ressentido que dirige o meu fado
estará a rir de mim
eu maldigo-o
a rir de mim, grosseiro e baixo
eu-raiva!
eu-dor!
eu-loucura!
a rir de mim, alcoolizado
violentando, qual mulher, a minha alma
Que nefasta se tornou a minha Vitória!
e que cruel a armadilha em que me fizeram cair
E ri com ele também, lábios negros e rostos de neve crispada, uma hoste de maliciosos anjos que me insultam e pincham
e tu à cabeça, meu amor, na ronda com eles
tu que foste o meu cevo
tu... com a tua inocência:
o teu amor foi somente a brincadeira dum deus corrompido


Deveria rir eu também!
como tu ris, meu amor, em braços doutro
Ó raiva que eu matei esta manhã como me abrasas agora!
e antes do que o orgulho tivesse tragado as entranhas
que hoje a minha alma é negra
e porcos famintos surgidos da lama devoram, já insensível, a minha carne
Quiçá devesse eu rir, como riem eles
como tu ris
como ri toda a gente que me aponta com o dedo
chamando-me nomes
a chorar com o riso
(“Ó homem feliz: quem te levou ao Paraíso?”)


Dançam, febris, os anjos ao meu redor
beliscando-me
empuxando-me
a travarem meus braços e pernas
sussurrando-me, lascivos, no ouvido o que tu estavas a fazer, meu amor, esta noite
olhos de raposas que brilham
lábios negros
bocas miúdas (as bocas!) dizendo palavras que matam
meu grito é desgarrado,
(as bocas!)
línguas quentes e húmidas lambendo os meus tímpanos


O Paraíso é já tudo flores negras cortando os meus pés
flores negras
espinhas, terra seca
flores negras
tudo flores negras e a minha dor imensa.
Os anjos dançam, ainda mais furiosos,
a beberem do chão o meu sangue
derramado
banhando-se nele
bebendo até ao delírio
enquanto lagartos sedentos de pele viscosa esperam também a sua parte
(Tens sede tu, meu amor?... bebe, que o meu sangue é doce)
O pássaro negro de arestas agudas, poisado na torre, espreita a minha alma
murchando-a
Meu peito, manancial de sangue,
alguém rasgou ao sol do meio-dia
para as moscas poderem fartar a sua fome
mas tu, meu amor, no leito com outro, não deves saber de coisa nenhuma
não deves saber do punhal que tenho nas costas...
e rio eu também
contemplando a tua inocência
e fazem, os anjos, do meu riso coro
E rindo
convido, a quem quiser, a beber o meu sangue
(ainda resta)
e a rir comigo, a celebrar
Que este seja um dia de festa para todos!


Engolindo o vinho amargo que o deus vomitou na minha copa
rio louco
caindo no chão,
peso morto,
eu rio
abraçando os rijos anjos de asas de espinho: “Ó meus amigos, sangrai-me!”
eu rio
e lá longe escuto o deus aziago blasfemar endoidecido de álcool
(Ah, como eu quero também estar bêbedo!)


Arranco os olhos e deito-os na copa
os meus olhos que te buscaram de noite,
angustiados,
em gelo se tornam
e eu rio deles, rio em vendo-os em vinho metidos
vinho amargo
eu rio
como tu ris, meu amor, inocente
como ri toda a gente
(Flores negras de sangue arroupai-me que eu tenho frio!)


Mas brinda comigo, meu amor,
que eu convido
vinho amargo
e aquele que levaste ao teu leito que brinde também
sem rancores...
que eu sou generoso
que eu quero comparti-lo tudo!!!
catai os dois o meu vinho
façamos todos uma grande festa no meu campo de flores negras
onde mora o pássaro preto de arestas agudas
o da alta torre
aquele que eu criei, alvo e suave,
e cujo canto, agora, faz apodrecer a minha alma
Trazei amigos, trazei-os
à minha festa
que eu serei bom anfitrião,
(eu juro)
ah, como eu gosto da ideia!:
vestir roupas brilhantes e coloridas
encher minhas órbitas ocas com vidros baratos
e sorrir
sorrir, borracho e torpe, pronunciando forçadas saudações e pomposas bem-vindas
atrapalhando-me ao falar e tropeçando
ficando em ridículo
(Riam todos do palhaço!)
e em esgotando o amargo vinho num brinde
atirarei os olhos na tumba que leva escrito o meu nome
(vazia espera o meu cadáver)
sim:
os cegos olhos que tão bem me enganaram,
ficarão na tumba onde irá, como todas as noites, buscar o meu corpo
aquele cão sarnoso que apedrejei quando menino,
e ele também rirá, perro, ao pé da minha fossa...
esperando o resto.


E pedirei a este deus que me faça bailar, marionete, uma estúpida dança convulsa inventada
que eu estou aqui para divertir as pessoas,
para elas rirem comigo
para elas gozarem
como tu gozaste!!
sim, como tu gozaste
como riste de mim, meu amor... na tua inocência.


(9-12-96)

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