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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 33


6 Abril 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza

Este texto foi publicado na colecção de relatos Fogo cruzado (Associaçom Galega da Língua, Corunha, 1989). É reproduzido aqui com a permissão do autor.

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A severa sinagoga

Henrique Rabunhal


início
“Etenim quis mortalium, cui virile ingenium est, tolerare potest illis divitias superare, quas profundant in extruendo mari et montibus coaequand is, nobis rem familiarem etiam ad necessaria deesse? Illos binas aut amplius domos continuare, nobis larem familiarem nusquam ullum esse? (...) At nobis est domi inopia, foris aes alienum, mala res, spes multo asperior; deniqui quid reliqui habemus praeter miseram animam? Quin igitur expergiscimini?”

Salústio, De coniuratione catilinae, 42 a.C.

(“Que mortal, com espírito varonil, pode tolerar que a eles lhes sobrem riquezas que gastam em construir no mar e aplanar montes, e que a nós nos falte fazenda até para o necessário? Que eles construam as casas, em grupos de dous ou mais, e que nós em nenhures tenhamos o lar familiar? (...) Em troca, nós temos nas nossas casas miséria, fora dívidas; má situação presente, um porvir muito mais duro; em resumo, que outra cousa possuímos mais do que uma vida miserável? Porque, então, não despertais?”)


          Pedro tira do sono, aviva o espírito, existe porque, de momento, não há mais remédio. O sol dá-lhe de cheio no semblante, uma encruzilhada de enigmas depositados em cada um dos pequeníssimos orifícios de que tem furada a pele. Não há persianas nem cortinas que serenem o seu organismo estalejante. Pedro vive por um triz, por não extinguir-se um dia qualquer na choupana em que mora. Tem as costas destroçadas polas pancadas apanhadas na peleja de ontem. No seu estómago alvo está ainda em fogo mais de um quartilho de brande furtado nuns grandes armazéns e destruído na nostalgia que o empapa. Na boca tudo é fedor, convertido em mesta negrume aderida aos dentes. Remexe-se para fugir do fulgor e mergulhar-se no seu mundo, de penumbras, de espaços privados de luz, de trevas, de fantasmas, de incógnitas. Põe a cabeça num saco velho que lhe faz de almofada e contempla o agasalho da cabana. Apenas lembra o seu nome com sabor a lapa, a rocha, a pena. Mas o sol não perdoa e como um caudilho militar ordena que se ponha em pé para assomar-se à vida, simples galeria de proezas e acasos em que Pedro apura a verdade sobre si próprio. Pedro levanta-se vagarosamente. Ninguém o aguarda. Ninguém o solicita. Ninguém fractura um segundo se não é para cravar-lhe os olhos com desdém. Sobe os calções a perceber o mau cheiro do líquido seminal que as utopias lhe têm regalado. Pedro não tem espelhos na choça. Bem ainda não sabe como é. Prefere ignorá-lo. Ao bater a porta sabe que não deixa nada dentro. A sua fortuna, os seus sonhos e a sua carne, caminha com ele, rebenta em cada mirada, crepita no andar, estala nesse inferno monótono denominado cidade. No regato, ao pé da choupana, nessa água apodrecida e inútil, enxágua a cara. Não tem relógio. Mede o tempo olhando para o horizonte onde aparecem colocados os astros e a farinha das horas. É por isso que Pedro sabe que logo vai ser meio-dia, momento que divide o seu existir em duas partes desproporcionadas. O sol passa superiormente no meridiano das suas incertezas. Pedro veste de obscuro, quase negro o tecido que apunhala a sua existência. Pedro caminha polas ruas da cidade com a olhada perdida na superfície de cimento que quereria trilhar com os pés. De tempos a tempos, sente que alguém lhe deita uma mirada compadecida perturbando esse seu denso teimar em nada. Muitas manhãs, quando a moral é alta e a timidez se aletarga, Pedro vai visitar Penélope, uma cega que grita «prémio, prémio» no Bairro do Chocolate. Pedro não sabe bem se o faz por cortesia ou por recreio, por devoção ou por necessidade. A voz de Penélope é sempre harmoniosa, agradável, um frescor certamente esquisito.

          -Ainda vens da cama, Pedro?

          Ele tarda em replicar. Manifesta-se com gestos, move o focinho, traga saliva e por fim murmura:

          -Total.

          Pedro aproxima-se. A cena é ordinária. Penélope põe-lhe na mão uma moeda de vinte pesos e a seguir repete «prémio, prémio». Ele detesta-se, mais uma vez. «Cago nengum diós, sou um miserável». Não sabe nem dizer graças. Agarra a moeda e passa revista à figura da mulher. Gosta dela. Até o nome lhe sabe.

          -Adeus, Pedro.

          Ele já não ouve. Caminha mergulhado no nevoeiro. Está ditoso. Sabe que na cidade alguém pronuncia o seu nome, com clamor de rosas. Nesses fragmentos que ficaram suspensos no ar, nesse pó de fragrância, Pedro continua desmantelando a severa sinagoga em que habita. Desorientado, duvida se ir para o norte ou para o sul, para oriente ou para poente. Logo de ver Penélope não existe um percorrido certo. Tem vontade de comer. «Tampouco iria nada mal um ducadinhos», parece clamar por sinais. Pedro vive do que rouba, do que sofre e às vezes do que trabalha. Anda de mãos nas algibeiras e joga com a moeda de vinte pesos. O ardor estomacal, um braseiro de lenha, abranda-se segundo transcorre a claridade solar. Está perto do Mercado Central, um circo de gritos, uma fortaleza de pedra, um mar de criaturas onde Pedro logra passar felizmente desguarnecido. Na frutaria colhes número, como nos bancos, para ser atendido devidamente. Pedro captura um manojo de bananas e escapa disparado. Por fim senta e come as oito bananas. Deram-lhe sede, uma secura branca que lhe vem de muito adentro, talvez uma ânsia feita impaciência. Já sabe que fazer com os vinte pesos. Um de ducados e uma cerveja bem gélida. Bebe-a de um trago contemplando muito cerca de si o vidro descorado do casco. Dá glória senti-la transitando dentro de um como os orgulhosos falcões de cola vermelha polos desertos. Trasantontem soube que ia chegar um barco. Mil pútridas pesetas por ajudar a descarregá-lo. No cais grande tráfego de mercadorias e passageiros. «Se puder sacar a Penélope de trabalhar». Gosta de Penélope. E tem ganas de mulher que são ganas de Penélope, a mulher pola que, se for preciso, daria a sua vida. Penélope, a mulher fiel e virtuosa com que Pedro nunca ousou sonhar. Penélope, a voz que acolhia o seu nome nos lábios.

          O encarregado que dirige o serviço no porto, autêntico fiscal dos operários, enquanto crava os dentes num charuto vai pondo no peito dos jornaleiros um emblema identificativo. O imperdível rasga-lhe a pele a Pedro quem não pode evitar gemer sussurrando «filho de puta». A cada trabalhador é-lhe dado um saco de coiro para amortecer as rudes caixas de peixe. Pedro quereria muitas vezes ser como eles, ter os membros transformados em barbatanas e viver na água, longe, muito longe da cidade, animal perverso e assombroso que amamenta também Pedro. Olha para os seus colegas, para os seus rostos estorvados, para as suas mãos desertas de primores, para os seus corações orvalhados da crónica amarga de uma casta. Um grupo de indivíduos que se distinguem dos outros por serem incapazes de assumir uma expressão alegre. Principia a tarefa. Uma caixa, outra caixa, outra mais. Pedro não se precipita. Não quer fazer carreira como descarregador. Ao caminhar detecta um cigarro. Abaixa-se e tenciona apanhá-lo.

          -Trabalha, cabrão!

          O encarregado esmagara-lhe a mão. Pedro pensou num primeiro momento mandar-lhe a caixa ali onde magoasse. Mas quedava pouco para as mil pesetas. «Se te pesco fora, mato-te», parecia dizer Pedro com uns olhos feitos fogueira amarga, círio de impotência, fulgor de ódio. Pedro pensa nas vezes que Penélope o censura.

          -És mui mal falado, Pedro.

          Então Pedro sofre, mas cala, oculta-se e reprime-se nesse secreto amor que o metamorfoseia alterando-o cada vez mais brutalmente.

          -Total!

          E a palavra é pronunciada com uma tristeza derrotada, leal, sincera.

          O barco quedou esvaziado. Os homens vão proceder à cobrança dessas mil pesetas que não vão resolver nada. Se calhar, vão ser gastas em pouco tempo nesse delírio agudo em que se vive. Pedro dá-lhe hospitalidade ao bilhete verde e ingressa na escureza terrível de uma noite que vem vindo lentamente. Pedro pensa que fazer. Podia ir ao Penalty e tomar uns vinhos. Asinha desaprovou a ideia. As pancadas de ontem ferviam ainda e agora tinham companhia. Não sabe como, mas sempre, sempre, acaba parando ao pé de Penélope.

          -És ti, Pedro?

          Ele cala. Desfruta imensamente ouvindo o seu nome. Parece uma lua branca, ardendo na noite. Ela está afeita a que Pedro seja assim. Ele fecha os olhos. Quereria ser cego, poder partilhar totalmente o mundo de Penélope. Como vê o mundo ela desde essa noite eterna e comovedora? Se fosse cego proporia-lhe casamento. Menos mal, pensa, que não sabe como sou por fora. Mas Penélope conhece-o bem. Desde aquele dia em que Pedro lhe roubara o dinheiro. «Cago nengum diós, sou um miserável», repete Pedro pensando naquilo.

          -Que fas, Pedro?

          E ele põe-lhe as mil pesetas no casaco.

          -Nada. Vou-me.

          Pedro marcha. E com ele uma alegria intensa, um júbilo demasiado forte como para ser narrado. Penélope detecta com a sua mão inteligente o bilhete.

          -Ouh, Pedro, que fixeste?

          «Para ti, por pronunciares o meu nome», diz-se para si Pedro.

          E pensa em cear. Vai pegando pancadas no lixo e pretende um riso e acarinha pensamentos que nunca, nunca desvendará aos humanos. Sabe de uma tenda que tem máquina de tostar frangos. Abre a portinha, apanha um e corre para a choupana, aderido às sombras dos últimos edifícios da cidade. A comida queima-lhe as mãos, fumega perto do coração de Pedro que já não se perturba por muito que roube. O que realmente causa alteração em Pedro é que alguém exprima por meio da voz o seu nome, com sabor a lapa, a rocha, a pena. Pedro sabe que ninguém o aguarda. Ninguém o solicita. Ninguém fractura um segundo se não é para cravar-lhe os olhos com desdém. Entra na cabana e deita-se. Pedro não tem nada na choça. A sua saudade vê-se acompanhada por um rádio velho que funciona perfeitamente. Come no leito. «Lástima do vinho», queixa-se. «Mas dei-lhe as mil a Penélope, que caralho!». E ficou dormido. A sua fortuna, os seus sonhos e a sua carne, caminha e descansa com ele, rebenta em cada sonho, crepita na noite, estala nesse inferno monótono denominado cidade. Fora ladram alguns cães. Polo aparelho de rádio diz-se algo de progresso, de Europa e de democracia. «Puta que os pariu», parece exclamar Pedro por cada um dos pequeníssimos orifícios de que tem furada a pele.

A Corunha, 1988


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