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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 32


17 Março 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza


Çopyright continua aqui a sua colaboração com a necessária publicação Non! crítica & intervenção, com um belo texto de Rui Bebiano que nos lembra a natureza mágica e falaz das fronteiras. O texto sai publicado simultaneamente aqui e em Non!

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destinos periféricos

Rui Bebiano


início           A primeira vez que deixei o meu país, que nesse tempo falava em voz baixa e vivia a preto e branco, foi em viagem, no banco de trás de um daqueles Volkswagen carocha feios mas resistentes. Íamos – tinham decidido os adultos – dar um passeio “a Espanha”. E, conhecido o destino, logo imaginei medonhos touros Mistral, com a sua baba quente e fumarenta, dançarinas de flamengo com grandes brincos dourados e de lábios muito vermelhos, moinhos de vento no topo das colinas, e açúcar em cubos. Aspecto importante este, aliás, porque de onde eu vinha servia-se ainda o açúcar em pequenas taças, nas quais toda a gente mergulhava uma única colher, pequenina e persistentemente pegajosa. Era, pois, dessa “Espanha” de papel de cenário que eu estava à espera.

          Saímos por uma qualquer fronteira do norte (nessa época existiam as fronteiras, vocês lembram-se?), rumo a um destino que afinal era um equívoco. Fazia sol e muito calor nesse Agosto, e, se parássemos o ruidoso motor alemão, capaz de beber quase trinta litros de gasolina em cada vinte léguas, poder-se-iam talvez ouvir os pássaros. Do lado de lá da janela envidraçada, passava agora a sonolenta Guarda Fiscal, depois um pequeno intervalo desolado, e, em seguida, os inconfundíveis tricórnios da Guarda Civil. Um pouco adiante um bienvenidos, traçado assim mesmo, em sonoro e claro castelhano. E foi desta maneira, sem história nem originalidade, que entrámos na Galiza.

          O automóvel seguia um percurso que já não recordo, cruzando uma paisagem que, essa sim, guardo na memória. Era um universo estranho, porque, ao contrário das expectativas do grupo, nada era substancialmente diferente daquele mundo de onde vínhamos. Lembro a estrada muito estreita, em serpentina, cortando por entre povoados de granito e casas de dois pisos, metendo-se através de florestas e de hortas de um verde reconfortante, passando ao lado de igrejas românicas velhinhas, aproximando-se de um mar tão azul quanto o meu, e tornando depois para o interior, escalando montes suaves e amigáveis até cidades que não sei agora identificar. Ainda posso ouvir a troca de palavras do condutor com um cavalheiro de aspecto austero, de bigode latino e relógio de bolso, que respondeu às dúvidas a respeito do percurso que lhe colocáramos, de uma forma que me pareceu afável, pausada, num linguajar que se assemelhava bastante aquele que ainda hoje uso.

          Depois não ficou muito mais na memória. Se não talvez uma paragem junto a uma fonte, para comer os restos de um farnel levado de casa. O lugar onde se chegou a nós um grupo de mendigos, quase só mulheres e crianças, pedindo comida e algum dinheiro a “estrangeiros” que eles pareciam julgar ricos e generosos. Facto incompreensível para mim, que vinha de um país de pobreza, habituado a gente de pedir, e que julgava sinceramente estar num mundo mais feliz. Ou, vá lá, um pouco menos injusto.

          Voltei mais vezes à Galiza. Mais algumas vezes. Em viagens imaginadas, em poemas lidos à pressa, nas imagens estilizadas de postais ilustrados antigos, no perfume dos vinhos que confinam com os meus, nas vitórias de uma equipa de futebolistas estrangeirados. Em trânsitos reais também, viagens quase sempre breves, estadias precárias que não deixaram muitas recordações nem grandes amizades. Embora lembre uma esplanada de A Corunha, tomando um refresco de capilé e ouvindo velhas senhoras, de porte frágil e conversa desembaraçada, que lembravam na sua língua quase a minha, ou a minha, juventudes idas, alegrias perdidas e tristezas de outros tempos. Numa espécie de nostalgia sem nome, mas selectiva, que relembra as gargalhadas passageiras e passa, quase se lhes tocar, por cima de sofrimentos incontáveis e persistentes.

          Lembrei a minha viagem de infância e esse grupo de velhinhas bem-dispostas há dias, quando, pelas rotas nocturnas deste universo virtual mas tão presente, cheguei a Çopyright. Afinal a Galiza era mesmo ali, no monitor a três palmos dos meus olhos. Do outro lado, quem se mostrou capaz de, tal como o homem do relógio, indicar um caminho a tomar. Se calhar, a escrever na mesma língua, até poderá nem ser difícil. E assim partímos juntos, ao encontro dos mendigos e das velhas senhoras deste mundo.


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