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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 30


3 Março 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza

Çopyright publica aqui o segundo de dous textos sobre a situação actual da poesia galega, escritos de perspectivas bem diferentes e apresentados (entre outros vários) como conferências no Congreso de Xovens Escritores organizado pela Asociación de Escritores en Lingua Galega (Compostela, Outubro, 1996). O primeiro texto, de Pedro-Milhám Casteleiro, foi publicado em Çopyright 29.

As repercussões do dito no Congresso por alguns destes autores jovens a respeito da questão da continuidade ou ruptura com as anteriores gerações literárias fizeram-se sentir no mundo cultural galego durante semanas. Ainda agora, o debate segue aberto.

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Achegas à última poesia galega

Yolanda Castaño


início           Estamos no 1996. Topamo-nos na recta final duma década que talvez emprestará o seu nome ao enquadramento cronológico-literário dalguns de nós a mãos da crítica. Quedam-nos por diante apenas quatro anos para rematar “estes 90”. E se bem é patente -hoje fai-se mais visível- a existência dum grupo de poetas novos com uma expressão poética nova nos últimos anos, cujos contributos artísticos corresponde serem estudados e analisados pola crítica uma vez que o tempo outorgue a perspectiva necessária, quiçá será este o momento de começar a tentar manifestar aqueles pressupostos -ou pós-supostos?- poéticos que são uma mínima base comum a todos nós, a proposta estética que, deliberadamente ou não, pretendemos com a nossa escrita.

          Da minha postura sempre relativista, anti-dogmática, mesmo às vezes contraditória e descrente de quase toda generalização, tenho que reconhecer que se trata dum valor relativo e subjectivo o feito de falar de “poesia galega feita polos mais novos”. Haveria que revisar os critérios de agrupamento que acarreta o baralhar uma nómina destes “novos valores” que em muitos casos carecem duma obra perfeitamente consolidada. Mistura-se aqui ademais, sem dúvida, uma necessidade de justificação de nós mesmos e quiçá um desejo de prevalência, que resultam mui humanos sem ser humildes por isso. Mas bem é certo que a chamada “Geração dos 80”, ponho por caso, enchia já um bom número de páginas na metade da década frente ao silenciamento por parte do sistema literário a que assistimos na actualidade a respeito dumas mudanças que começam a sentir-se na poesia actual dos autores e autoras novos -e prefiro não entrar em torpes denominações genéricas, despóticas e enclaustrantes-.

          Mas estamos no 96, e é mais bem agora quando já vamos podendo voltar a vista atrás para tudo o feito até ao momento. Ver, agora já, como se vai sentido essa adopção, consolidação e manifestação duma nova estética. Porque, como parece lógico, uma obra publicada no 90, ou no 91, ou no 92, será mais bem devedora de toda a formulação poética dos oitenta, como poderia ser o caso de O caderno das horas de Xosé Antón Dobao.

          Cuido que não nos equivocamos quando dizemos que nesta altura dos 90 já deveu dar tempo a se fraguar essa nova poética, já deveu dar tempo a que surgisse, madurasse, se desenvolvesse e fosse assumida esta nova estética, de tal jeito que se fará sentir de forma prática e concreta em obras desta segunda metade da década mais do que nas anteriores, diria eu. Daí que não pareça mui ajeitado falar de “poesia dos 90” como uma geração com uma certa uniformidade interna, pois não existe uma correspondência biunívoca entre as publicações enquadradas nesta época e essa nova estética comum a um grupo de autores, cujas características tentarei apontar mais adiante.

          Como é cousa contrária às minhas intenções fazer publicidade demagógica duma relação concreta e precisa dalguns nomes -cada um terá a sua “proposta antológica” pessoal-, gostaria de deixar claro que se deve partir da pluralidade estética das obras publicadas nos últimos anos, ou, se se quer um período mais concreto, na década dos 90. Palpáveis diferenças, às vezes tão radicais como as que se podem encontrar entre, por exemplo, a poesia de Manuel Xosé Neira e a de Lupe Gómez, a de Ricardo Beiras e a de Abel Méndes Bujeiro.

          Mas bem é certo que existe uma problemática em torno do reconhecimento dumas características diferenciadoras mais ou menos comuns a um grupo de autores e autoras novos, e esta baseia-se no desconhecimento, por parte da maioria dos leitores e mesmo também de muitos veteranos pertencentes aos “circuitos literários”, dessa poesia que tantos poetas novos estão a fazer. Poetas cuja produção vê restringida a sua difusão por mor dum sistema literário que conforma um círculo vicioso mais bem fechado a estas novas e arriscadas propostas, e que só topam vias de abertura nalgumas revistas como Festa da palabra silenciada, Dorna ou Ólisbos entre outras, ou bem optando a um prémio cujo requisito seja carecer dum livro publicado e que acarrete a edição da obra, certames como o Espiral Maior, cada vez mais escassos agora que já desapareceu o Fermín Bouza Brey. Muitos destes novos poetas estades hoje aqui entre nós. Poetas como Chus Nogueira, Eduardo Estévez, Igor Lugrís, Emma Couceiro, Verónica Martínez Delgado, Senchu Sende, Xavier Vázquez Freire e tantos outros, poetas nos que de feito se podem achar umas características comuns mas cuja obra é conhecida polo público leitor só através de publicações isoladas e pontuais, ainda que também mediante a difusão oral da obra em recitais poéticos, os quais constituem decerto um elemento dinamizador do espaço cultural galego importante nestes últimos anos. Uns intentos de “democratizar” a poesia que vivem hoje um certo florescimento e que se levam a cabo, na maioria dos casos, graças à participação, quase sempre desinteressada, dos escritores novos. Velaqui o nosso amor pola poesia, a nossa “militância poética”.

          A esta panorâmica da vida cultura galega actual hai que somar um certo espaço editorial que se lhe concede às vozes novas, encabeçada sobretudo por Espiral Maior, que leva publicado livros (entre eles muitas óperas primas) de Rafael Lema, Martín Veiga, Rafa Villar, Isolda Santiago, Xosé Pablo Bayo, Francisco Souto, Ricardo Beiras entre outros, enquanto outras empresas editoriais alternativas dão saída preferente aos poemários dos novos autores, como é o caso de Edicións do Dragón principalmente. Contudo, alguns destes novos poetas não topam outra saída do que lançar-se ao risco da edição de autor, ainda que nalgum caso, como o de Pornografía de Lupe Gómez, este risco foi superado com um êxito que sempre temos que qualificar de relativo, no que concerne à poesia.

          Ademais disto, proliferam nesta época os colectivos como Blas Espín, Un medio, Ronseltz, Serán Vencello, Hedral, Batallón Literario da Costa da Morte, que, apesar de carecerem duma poética grupal (excepto no caso de Ronseltz) e do seu carácter mais bem efémero, não lhes falta iniciativa nem esforço pola difusão da sua obra em revistas, recitais, charlas ou volumes colectivos.

          Outros condicionantes que rodeiam o feito literário e que devem ser salientados são: por uma banda, o feito de que os novos poetas pertencemos a uma geração que contou já com um contacto directo com o galego no ensino e com toda a literatura galega feita até ao momento como base de referência directa, feito que acha os seus frutos num conhecimento reflexivo da nossa realidade linguística e literária desde os níveis primários da nossa formação académica, e que reverte numa modernização dos campos léxicos e mais num certo sentimento de transição cara a uma normalização da produção literária galega. Esta vontade de procurar e manter uma “normalidade” vê-se respaldada também, em parte, por uma maior institucionalização da cultura galega, e a entrada do idioma em eidos que lhe estiveram vedados. Por outra banda, e querendo ver também um trânsito cara a uma igualdade muito maior, pode constatar-se uma lata e crescente presença da mulher dentro do panorama literário, com força de transformar os modelos patriarcais e os tratamentos temáticos. Autoras da qualidade de Marta Dacosta, Chus Nogueira, Ana Romaní, Luísa Villalta, Ana Baliñas, Chus Pato, Isolda Santiago, Olga Novo, Verónica Martínez Delgado, Lupe Gómez, Emma Couceiro, Helena de Carlos, Xandra Tedín e mais.

          Uma vez dito isto, e reiterando sempre a pluralidade estética das vozes que convivem nestes últimos anos, tentaremos dar uns poucos traços gerais, doados de topar em maior ou menor medida numa boa parte dos novos poetas destes últimos anos, enunciando uma característica de seu, e sem termos que contrapô-las à geração anterior, especialmente quando se trata duns autores -os dos 80- que seguem a ser mestres e seguem a ser também influências literárias para estes poetas mais novos.

          Os “temas eternos” da poesia (amor e desamor, possessão e ausência, a terra, a dor existencial, a reflexão metapoética e também os temas sociais) são tratados desde um tom eminentemente intimista e uma linguagem mais directa, mais formalmente singela sem negar a elaboração complexa do poema. Uma simplicidade sintáctica e lexical, plasmada muitas vezes com uma maior narratividade, na que não são difíceis de topar giros coloquiais, frases feitas e expressões próprias duma linguagem quotidiana que por vezes se torna naif (como por exemplo no caso do primeiro livro de Celso Fernández Sanmartín, que não leva título). Uma contenção que às vezes agacha uma certa vontade de oralidade. Trata-se de apostar pola força semântica duma expressão mais nua, construindo a poesia com a mesma matéria prima da vida.

          Um lirismo que aprofunda num clima intimista, dum tom vivencial que acostuma cair no gosto polo detalhe e mais na anedota pessoal. Um intimismo “da experiência” desde uma interioridade que procura libertar-se das fórmulas e clichés da “cultura sentimental” mais enraizada. Assim se constrói um texto às vezes desalinhado mas que consegue levar até à arte, duma forma depurada e verdadeira, conceitos tão historicamente desgastados, fugindo dos tópicos e do requintamento formal doutros anos.

          Voltamos aqui a reiterar os contrastes que se dão, a respeito dos poetas destes últimos anos, dentro destas linhas estéticas que acabamos de comentar. O verso-livrismo da maioria das obras opõe-se aos metros clássicos de Miro Villar em Ausencias pretéritas e 42 décimas de febre, a expressão dura e minimalista de Lupe Gómez contrasta com as complexas estruturas de Martín Veiga em As últimas ruínas, o por vezes anti-lirismo de Estevo Creus com o delicado intimismo de Rafa Villar em O devalo do mar ou No mesmo espazo. Mas os traços comentados mais arriba podem-se, com efeito, encontrar em maior ou menor medida nas obras de, ademais dos já citados, Fran Alonso, Carlos Negro, César Souto, Rafa Xaneiro, Xosé Manuel Lema, Xabier Cordal, Xosé Manuel Millán Otero, Emilio Xosé Ínsua e muitos outros autores e autoras que estão a aportar interessantes frutos e que hão-de dar muito que falar nos anos vindoiros.

          Acabo já, escusando os meus muitos esquecimentos, as minhas dúvidas e torpezas, com a consideração de não ser eu a pessoa mais ajeitada para estas análises críticas, mas também manifestando a intenção de abrir uma pequena janela panorâmica, de lançar uma semente incentiva para o debate e a revisão analítica especializada, o diálogo aberto e enriquecedor e a liberdade de expressão crítica a respeito da poesia que se está a fazer hoje polos novos escritores e escritoras, com o entusiasmo e a paixão do nosso amor pola palavra.


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