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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 29


27 Fevereiro 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza

Çopyright publica aqui o primeiro de dous textos sobre a situação actual da poesia galega, escritos de perspectivas bem diferentes e apresentados (entre outros vários) como conferências no Congreso de Xovens Escritores organizado pela Asociación de Escritores en Lingua Galega (Compostela, Outubro, 1996). O segundo texto, de Yolanda Castaño, será publicado em Çopyright 30.

As repercussões do dito no Congresso por alguns destes autores jovens a respeito da questão da continuidade ou ruptura com as anteriores gerações literárias fizeram-se sentir no mundo cultural galego durante semanas. Ainda agora, o debate segue aberto.

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Poesia e liberdade
(O desencontro galego)

Pedro-Milhám Casteleiro


início           Toda literatura é filha de uma ideia sentimental. Dependendo de qual seja a ideia geradora, poderá a criação chegar ou não a transcender-se, a ser mais do que um sentimento ou uma ideia. E há duas matrizes na razão sentimental: o amor e o medo. Se uma acção, de qualquer classe, surgir do medo, o seu alcance verá-se limitado, até provavelmente virar contra si mesma. Pola contra, se a operação nascesse do amor, não terá limites. A criatividade tornaria-se então Criação. Por muitos motivos, quer-me parecer que a razão de uma grande parte da lírica galega contemporânea não é razão de amor, senão razão de Estado. Refiro-me, em primeira instância, a que se regista desde antigo na nossa lírica uma reacção contra a presença devastadora de um estado alheio no lugar da nossa cultura, mas esta legítima reacção tem levado à aparição de uma literatura e uma crítica comprometidas na construção de uma presuntiva “literatura nacional”, edificada em muitos casos desde perspectivas extra-literárias, o que se traduz em patente demérito para a virtude autenticamente artística da obra. Em segundo lugar, e aprofundando no dito, falo de que a nossa lírica se tem fabricado ao modo da literatura de massas de qualquer país moderno, com ou sem língua normalizada, quer dizer, tomando a língua a maioria das vezes como veículo de diletâncias várias: usando a gramática para gozo do permitido vício do prazer estético, vício permitido porquanto não significa nada de verdadeiramente transformador para o homem e o seu mundo, todavia fai, se quadra, menos pesada uma existência sub-humana e assegura assim o regresso matinal ao nosso trabalho obrigatório, confirmando com o seu prazenteiro vazio o alienante ritual do quotidiano. Com rigor poderíamos chamar de “ópio”, naquela acepção de Engels, a esta concessiva forma de literatura. Uma concepção da obra poética que elimina a paixão, a aventura, a liberdade, a transgressão, gramatical e portanto vital, para se sujeitar ao canónico, ao estabelecido (na lógica brutal da modernidade), ao morto, ao estático, que é também acepção do Estado. Uma literatura orientada ao mero deleite, à complacência do autor ou ainda ao escuro favor do público, engendrada no medo e no seu limitado território. Digo desde agora que não entendo podermos chamar a isso literatura, e menos ainda poesia, rigorosamente moderna. E entendo aqui por poesia moderna uma poesia situada precisamente contra a modernidade. Uma criação poética que percebe a modernidade (confiança cega na virtude do progresso técnico, da razão mecânica e da democracia formal) como uma redução dos níveis de vida e de consciência que conduz à impossibilidade de toda experiência profundamente humana, tanto no espaço individual como no que atinge à vida das comunidades.

          Desta perspectiva é que me proponho aclarar certos aspectos histórico-poéticos que encontro interpretados com pouca exactidão, para fornecer à crítica da nossa poesia -então à poesia também, passada e por chegar- uma visão renovadora nascida da estrita preocupação pola própria poesia, pola emancipação global do ser humano.


Uma pequena revisão da História da poesia

          O princípio do último terço do século presente parece estar fundamentalmente marcado pola poesia social, socialismo este que precisa fazer explícito o compromisso do autor com uma ideia de justiça social. Este ponto de vista dos poetas levou, em 60 e 70, à consolidação de uma estética social-realista -encabeçada por Celso Emílio Ferreiro- no que atinge à produção poética. Esta hegemonia social-realista iniciará seu fim com a aparição de outras temáticas: o ruralismo e o intimismo que autores como Celso Emílio e Manuel Maria fornecem já a meados de 70. No entanto, onde a crítica acorda comummente um momento de revolução estética é em 1976, com a publicação de Mesteres e Con pólvora e magnolias, obras com as que à poesia galega se acrescentam novos recursos temáticos, estilísticos, cultistas (referências a obras de outras culturas), e uma atitude mais aberta às literaturas alheias.

          Mas uma valorização da evolução da poesia galega deste século como algo tão pretensamente renovador já se tem posto em questão. Face aos críticos que constantemente louvam a nossa poesia como um repertório extremamente rico em mudanças e evoluções, outros estudiosos têm advertido que uma tão grande listagem de novidades estéticas é polo menos questionável. Nesta linha, já Eusébio Lorenzo Baleirón tinha apontado uma atitude poética que relacionava directamente Rosalia, Curros e Pondal com a poesia do segundo terço do século (Manuel António, Amado Carballo, Cunqueiro, Bouça): o paisagismo, dentro do marco ruralista, como “froito da hora rosalián, aportación de Curros”, e mesmo como cimo do pondalismo; por outra parte, a poesia social, que “partindo da sátira medieval e dos autores do Rexurdimento atinguirá o seu cume no Celso Emilio de 1962”. Vemos, pois, como para este crítico a poesia do segundo terço não apresenta grandes novidades no panorama histórico da poesia do século XX, e como a poesia social tampouco defende parâmetros autenticamente novos para o último terço de século.

          Em 1976 dá-se a chamada “mudança de rumo” protagonizada por Mesteres e Con pólvora e magnolias. A estas obras atribui-se-lhes o último grande passo da evolução moderna da poesia galega, sendo seu valor estético fundamentado em importantes contributos temáticos e estilísticos. Mas a novidade destes contributos não pode residir na proclamação política -a pólvora- nem no intimismo -as magnólias-. Ninguém poderá duvidar do interesse das magnólias ferrinianas frente ao socialismo tão hegemónico e às vezes tão pouco literário da etapa anterior. Mas isto não é preciso que lhe conceda um valor renovador geral dentro do quadro do século, como se fai tantas vezes constar nos livros escolares.

          No entanto, sim é facilmente aceitável que a partir de meados de 70 a poesia começa uma nova fase, com um florescimento assombroso das magnólias, quer dizer, a temática de carácter introspectivo, e com predomínio posterior do erotismo, reafirmado com os volumes de De amor e desamor já em 80. Neste sentido, a abertura temática é evidente, como se descobre nas obras dos grupos poéticos que a partir daqui se formam -Rompente, Cravo Fondo, Alén-, embora suas atitudes poéticas não mudem para uma nova visão da poesia. Baseio-me para esta afirmação na distinção feita por Stefan Morawski, defendida por Aguiar e Silva para a valorização das obras literárias:

“... a novidade marca a separação, a ruptura em relação a padrões formais e sémicos dominantes num dado contexto histórico, ao passo que a originalidade se funda num modo diferenciado de ver o mundo, o qual conduz a uma realização e a uma articulação peculiares dos signos estéticos, das suas regras semânticas e sintácticas, das suas funções e dos seus valores. A novidade, conexionada sobre tudo com o fenómeno do vanguardismo artístico, pode proliferar até cair no pastiche e no maneirismo epigonal; a originalidade, por definição, não é reprodutível”.

          Desta perspectiva, trabalhos como os de Rompente, talvez os mais pretensamente vanguardistas, constituem uma interessante tentativa de ruptura com os parâmetros sémicos e formais, mas não um evento poético realmente original. O resultado é apenas a surpresa devido à contraposição às coordenadas estéticas em sua altura vigentes e nas que se apóia para surpreender. Alén e Cravo Fondo tencionaram uma renovação estética que não forneceu demasiado no terreno da novidade, mas defensaram uma focagem poética para a poesia, embora não conseguiram completamente fugir a uma visão política quase totalizadora do compromisso poético. Desta forma, a denúncia política e uma conceição poética com uma liberdade total nos referentes em ocasiões entram em contradição:

“Non podemos illar o home creador do seu contexto social. Velahí, pois, que ser poeta hoxe en Galicia é ser poeta nunha nación asoballada, i esíxese da postura humán do autor unha adecuación a isa realidade. As contradiciós sociáis do intre histórico que estamos a vivir han de transcender -aínda que non necesariamente- á obra literaria”.

          Já em 80, para além dos trabalhos publicados sob o título De amor e desamor, dos que muitos dos integrantes tinham pertencido aos grupos poéticos formados em 70, observamos a ausência de nascimentos de novos grupos poéticos. A época anterior aos 80, que antes produzia a publicação de manifestos estéticos e políticos bem como numerosos recitais, vai ser trocada por uma hiperabundância de prémios literários onde a individualidade criadora pode ser reconhecida. Por outra parte, os colectivos que ainda existiam parecem dissolver-se. Alguma excepção à inexistência de colectivos criadores é o grupo Ronseltz, nascido na Corunha a meados dos anos 80. Seus trabalhos, ao meu entender, são de grande relevância desde que pretendem reiniciar uma linha burlesca da literatura, tão pouco valorizada em geral nas literaturas actuais. No entanto, suas criações entendo-as ora dentro do marco do espectáculo, ora dentro do âmbito da paraliteratura.

          Quanto aos anos mais recentes, da minha perspectiva tampouco significaram uma profunda renovação geral dos parâmetros estéticos antes citados. Carece-se em termos gerais de uma profunda ligação com a modernidade poética que implicaria um posicionamento contra o falar cristalizado nas formas estabelecidas polo racionalismo moderno; não tivo lugar, em definitivo, uma verdadeira revolução nas formas e nos conteúdos, que pugesse radicalmente em questão a razão/gramática convencional (que é a língua do poder, pois toda convenção numa sociedade moderna -burguesa ou socialista- é vontade dos poderosos). Aliás, e salvando alguns nomes de maior interesse, os criadores galegos não consideram, e assim é constatado na sua criação, que estejam insertos num mundo literário mais amplo do que a Comunidade Autónoma Galega -nomeadamente, o mundo galego-português-, não contemplando portanto esse âmbito internacional nem sequer como receptor potencial das suas criações.


Três considerações críticas

          Aprofundarei ainda neste último ponto. Causa e consequência do panorama descrito é a inexistência de uma língua moderna para a expressão poética na Galiza actual. A parte norte de aquela unidade cultural que chegara até Coimbra, debaixo da sombra do poder estranho, ficou sem dispor de uma etapa literária que pudéssemos em rigor chamar de clássica. E hoje, ao realizar-se a chamada normalização da língua própria de costas ao mundo galego-português, continuamos em termos gerais afastados de uma tradição literária, nomeadamente poética, que nos pertence do mesmo modo que a portugueses, brasileiros, asiáticos e africanos de expressão galega, povos que sim dispõem dos seus clássicos. E não se trata de assumir a história ou a literatura destes povos como própria senão de descobri-la como própria; um fenómeno que se produz espontaneamente, por exemplo, ao acercar-se à obra de um dos maiores clássicos da literatura galega, o Luís de Camões, e comprovar como muitas das notas a rodapé das modernas edições portuguesas resultam desnecessárias para o leitor galego, de cuja fala estava mais cerca a língua de Camões do que do próprio português contemporâneo. O mesmo fenómeno acontece-nos na aproximação da obra de um Bernardim Ribeiro, de um Gil Vicente, um Sá de Miranda, e alarga-se mesmo a autores do século XVIII como o fantástico Manuel Maria Barbosa du Bocage. Criações exemplares de uma etapa de madurez da língua galega que não estão à disposição dos nossos estudantes de primária, como longe ficava das nossas escolas Manuel António na censura do Franquismo. O pior não é não dispormos de clássicos, o pior é que para muitos galegos, mesmo criadores, os clássicos que ocupam o lugar fundacional no sentimento, quanto a ritmo, léxico, sintaxe, são precisamente os clássicos em língua castelhana (revisem-se por aí auto-poéticas várias e observe-se proliferação de Garcilasos e Lopes como bagagem de muitos escritores galegos em evidente demérito da sua filiação à antedita tradição própria). Ou nos apropriamos dos nossos clássicos velados pola história política ou não haverá possibilidade de um discurso poético desenvolvido e próprio na Galiza; porque as árvores sem raízes não dão fruto.

          Em segundo lugar, e sem deixar de conhecer a obra dos criadores da nossa comunidade, é preciso que o escritor e o leitor galego se familiarizem com a produção literária contemporânea dos demais países da Comunidade Linguística Galego-Portuguesa, da que continuamos notavelmente afastados, o que concorrerá também para elevar o nível da reflexão poética e a riqueza das nossas possibilidades expressivas.

          Saliento, insistindo, que é precisa uma nova ideia sentimental, um novo discurso ético e emocional que permita a abertura de horizontes mais largos para a poesia e a cultura dos galegos. Um discurso que anteponha a realidade e a espontaneidade do espírito à irresponsável compra-venda do presente em benefício de um incerto futuro libertado: uma razão ética e estética sem Estado, como diria Manuel António. Sem princípios, não supeditado a projectos de outra índole, unicamente comprometido com a Poesia e com a sua função sacral de transgredir as linguagens mortas, aquelas do poder, o poeta é quem de transcender o seu próprio muro de convenções e as convenções nas que vive instalado o seu povo: aqueles condicionamentos que nos afastam da beleza, que, no dizer dos gregos, é o território da bondade. Sugiro que o trabalho dos poetas não pode transformar directamente nenguma estrutura económica ou política, mas transcendendo a linguagem transcende-se o pensamento, e algum elemento subtil e poderoso se altera no mundo. O poeta não pode renunciar à investigação e à transgressão da linguagem, não pode renunciar a ser um revolucionário absoluto. Se não, como Antonin Artaud dixo, “para que serve? e para que nasceu?”.


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