[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 28


16 Fevereiro 1997            http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait             Corunha - Galiza

Matar os mortos (ou) Os ausentes na conclusão do funeral
(em torno de
O funeral, de Abel Ferrara)

Mário J. Herrero Valeiro


From Archaeology
one moral, at least, may be drawn,
to wit, that all

our school text-books lie.
What they call History
is nothing to vaunt of,

being made, as it is,
by the criminal in us;
goodness is timeless.

Auden (Thank you, fog)


Dois disparos a um ataúde. Dois disparos para matar um morto, um irmão, uma família. A destruição, necessária, do mito primeiro. O vínculo do sangue. A família. Ou a máfia. Porque é o mesmo. Os mesmos tópicos éticos sob aparentes divergências estéticas. Porque as relações familiares estão levadas à sua expressão mais evidente, portanto mais brutal, na família mafiosa. Não é grande descoberta. As complexas relações de poder que se fazem tão explícitas nesta última para todos, para esses que são incapazes de se verem depois como padrinhos no seu próprio clã (ou chão), criminal pátria em miniatura. Assassinos, enfim. Pais de filhos que olham. E apreendem. O lugar do filho. Matar perante a mulher e os filhos. Rito obrigado para evitar o esquecimento purificador, o banho num rio que já não flui, e que a sua água se estanque por séculos. Ritos. Eternamente ritos. Ritos como a Rossellini sempre presente nos momentos mais lúcidos, portanto mais terríveis, das nossas vidas de espectadores; como então, há tantos anos já, antes em azul veludo, agora em negro rigoroso. Mulheres presentes na hora da destruição. Talvez necessário tópico. Em negro. Tão familiar. Debuxo expressionista da quotidiana História. Com rios de sangue ou seca como um deserto. Retrato bem conhecido, incessantemente repetido. Construído cada dia. Construído no agora e no ontem. Cartografia do flashback, estética da Descontinuidade, da lembrança como caminho face ao extermínio. Mapa que define a demência da memória. Arqueologia de uma moral de assassinos, de killers agora, longe de Miller e Rimbaud. Como qualquer clã. Documento extraordinário de um lento declinar. Até à catástrofe necessária. Catarse, enfim. Falso final. Começo fatal. Seres que agem, por fim, que fazem. Embora for para matar. Porque é para matar! Exercício ético. Moral de heróis atormentados perseguidos pela maldição dos executores. Caçadores que eternamente se hão-de dar morte a si próprios. Três irmãos, a jeito de Santíssima Trindade. O Espírito Santo, comunista, morto desde o começo. O Pai, filósofo em conversa perpétua com Deus. Baptizado em sangue. O Filho, iracundo e doce, sereno e brutal, extraordinário exemplar de psicopata, de homem. Anjo exterminador. Duas, talvez até três (a terceira, quase esvaída numa aprendizagem rapidamente truncada), magdalenas poderosas ajudam a contextualizar a paisagem bíblica. A mãe ao fundo, virgem destroçada. Muda. Desnecessária já, cumprido o papel reprodutor de assassinos. Mais um filme de gansters. Mais uma arqueologia cruel da família. Do fundo seio que é a destruição. Porque há que matar os mortos. Porque há que matar o pai, o assassino primeiro. O único. Mais um filme de gansters. Mas, como disse Johnny em diálogo metafílmico, que seria a nossa vida sem eles? Que seria sem o ventre e a face de Isabella? Quem quebra os frágeis equilíbrios é um ejaculador precoz. Quem são os ausentes quando o funeral finaliza? Quem haverá de reinventar a barbárie? Goodness is timeless.

[ÇOPYRIGHT]


Enviem as suas contribuições para Çopyright a lxalvarz@udc.es


inícioInício

anteriorÇopyright 27: niuitsmos ou labirinto, Nilo Casares

próximoÇopyright 29: Poesia e liberdade (O desencontro galego), Pedro-Milhám Casteleiro

índiceÍndice