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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 26


2 Janeiro 1997      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Esta é uma breve selecção de poemas do volume de X. Rodríguez Baixeras Beira Norte (Ed. Monograma, Palma de Mallorca, 1996). Os textos estão adaptados à ortografia galego-portuguesa, mas respeitam-se na medida do possível as particularidades linguísticas do original. Agradecemos ao autor o permitir-nos a sua reprodução.


Poemas de Beira Norte

Xavier Rodríguez Baixeras


O derradeiro regresso
A rosa azul
Como se não durasses para sempre
Aparição
Cabo

FimFim de Çopyright 26


início

O derradeiro regresso

Quando umas mãos de carne, de silêncio ou de sombra
te recolham em vasos de arrefriadas cinzas
nas espigas da luz, nos buracos da noite
que te viram passar, ouriçada de sono,

será o teu velho cuspe, não barro, manancial,
pedraço o teu alento, e não cavorco,
não frouma os teus cabelos, senão áspides,
rancor que ainda nos une.

Eu já não viverei nesta traseira,
região onde as gaivotas alunizam insones
e um oco me repete: quando umas mãos de carne...

Eu estarei, na Beira, junto aos que aguardam
por um rego de asfalto,
erguendo o pó da estrada c’os seus olhos vazios.

início

A rosa azul

Aquel verano, delicado y solemne, fue la vida
Felipe Benítez Reyes

Fora um verão de vespas,
de enxames agachados nas glicínias,
escapáramos juntos,
as praias como carne, o mar arfava;

já tudo estava aberto;
Pepe e Bea chegaram, como sempre, com pressa,
vinham de ver as faias,
–lembro no verso um grito, um cervo, ela mui branca;
subíramos à Pinha,
na serra do Xistral,
havia grandes urzes, sangubinhos;
eu buscava uma terra mais despida...
Depois, eles marcharam.

Escapáramos juntos.
Sangravam as marés, as ondas eram leitos,
a casa estremecia, adolescente,
sem portas, sem distâncias;
zoavam as alcovas, mesmo lembro
que, ao beijar-me, tu olhavas compassiva
ao teu redor, e logo
nos teus olhos cruzando como uma sombra de asas,
e agora um voo quebrado de andorinhas,
e aquel’ Julho de sílgaros,
e aquel’ outro de cobras, ferrugento,
e agora um grã rosnar de escorna-bois,
e um inço de formigas, até voltou o canto
do merlo aquel’, no cúmio do sol-pôr,
as águas esvaídas, e na areia
outro vento cegando-nos.
                    Sabias
que, ao contemplar-te, o brilho do teu íris
morria, que uma roupa medrava nos armários,
que um poço te emprestava a sua voz
enfeitiçada, fresca,
pra que não me dissesses que já viras murganhos
e sim que não partíamos,
que não era bolor,
que agora entrava o tempo dos morodos
e das tardes mais longas, rebordantes
de fervenças, e tudo estava aberto...
que já era verão.

início

Como se não durasses para sempre

Agora volto como num vento desmedido,
pouso como uma mão, e não parece certo
que possa fulgir a alva na que não estejas,
que não te sintas durar, que não te veja adormecida
na palma onde suspendes a tua soidade,
a do vento nos faros, a dos lábios que murcham,
a do coração, que só bate na lentura das camas,
onde ela desova com acenos de festa,
e quando ergues a postura da mão porque uma luz
conseguiu traspassar-te, tona da nossa adolescência,
e devolver-nos o teu silêncio incorruptível,
o teu incêndio branco,
em ti me deito ou rompo como uma onda lene
enlaçando outro corpo numa deserta alcova,
e, avançando, rodeio as escassas árvores cinzentas,
e penetro nos tobos dos animais carbonizados
e à sombra dum inverno disponho-me a jazer,
preia-mar nivelada ou mesto sedimento
da espiral do teu sangue que se anela nos troncos,
disponho-me a dormir, como se tu não fosses
a Beira, como se não durasses para sempre,
como se não ficasses,
e ao mar, de pronto erguido, lhe esquecesse partir.

início

Aparição

E de repente estavas tão despida,
deixavas tanto espaço entre as moradas
que te espalhaste toda como um golpe de dados,
como agora te vejo nesta fotografia:
o céu era de Norte, mas sem vento,
o mar, de pola tarde, e aquel’ tempo era Maio,
e aquel’ ano o 70, conforme diz detrás:

não sei se não seria, Miguel, quando assomados
à veiga desde a horta, rodeados de luz,
me disseras que acaso me cumpria
–e Ângel, que ali estava, bem se lembra–
esquecer-me de Trieste aquel’ verão,
e vi como um avião que se esvaía
na raia do horizonte, que desde aquela altura
não deixou de medrar.
                    E, de repente,
estavas tão despida, tão deitada,
tão terra de labor, tão ainda desejo,
tão lene c’o teu pólen demorado na antera
da grande flor que, oculta, recendia,
estavas nesse intre tão longe de motores
infecundos, de que mirrassem árvores,
de que adurissem montes, de que toda a cobiça
de dinheiro se apegasse nas almas
como um musgo ruim, como uma lepra,
que até pensei que assim seria sempre
o corpo do verão que eu cobiçava:
uma Beira covarde frente a um mar levantado,
privando-me do tráfego da vida,
e uma luz de cobalto com que queimar raízes,
apêndices, excrescências de sonhos,
o que de mim ficou depois de ver-te.

início

Cabo

Beira, voltei ao Sul. Ando entre varadoiros,
impregnado de breu, de farinha de peixe,
junto a esgotos e ludros que corrompem espumas
–os jogos compartidos polos nenos dourados,
agora reluzindo numas ilhas remotas.

O óxido dos barcos reborda dos peiraos,
mas a luz, mais intensa que aquela que te cobre,
simula rotas novas e marca um novo zénite
para um homem varado no fundal duma cunca.

Beira, voltei ao Sul. Asinha cumprirei
todos os anos, todas as horas. Entrementes
a carne se dissipa, como álcool, no mar,
para que não a alcance c’o seu rumor escuro.

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