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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 23


8 Dezembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

apontamentos para uma lógica do extermínio
(e alguns aristocráticos comentários
sobre a tortura e os seus materializadores,
que são as bestas, cancro do proletariado)

ou

traços de uma herança, a que é da maldição

João Valeiro



Este texto é um extrato de (a minha) nu[n]ca para vós,
publicado nos
Cadernos de Azertyoiup, A Corunha, 1996.
Ficamos agradecidos aos editores, os
Amigos de Azertyoiup
que fazem possíveis os Cadernos.

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Eu não sou um homem, sou dinamite
Friedrich Nietzsche, Ecce Homo


Desenho de interiores. Desenho de cadáveres. Uma caótica arquitectura num deserto cheio de vozes. Situemos como ambientação musical uma mostra da decrépita cultura pop que inevitavelmente (e em muitos aspectos afortunadamente) marca a existência de alguns de nós: In the neighborhood de Tom Waits (decerto cita recorrente no nosso imaginário), formoso canto sobre a morte na cidade ou sobre a cidade na morte. É o mesmo. Logo procuremos um espaço adequado. Não é difícil se actuamos com sentido comum. Chama-se lar. O espaço da execução. O território da família. O lugar da morte. Também é o mesmo. Por fim, tracemos as linhas temporais e comecemos. É premissa essencial, iniludível: trato de escrever agora, meses últimos de mil e novecentos e noventa e cinco, não antes, não há talvez uma semana, um século, dez dias, o milénio que vimos sofrendo o nosso peculiar desterro no inferno, esta já demasiado longa saison; trato de escrever sobre as estratégias de tortura mais refinadas, sobre os procedimentos menores, mas fundamentais, de controlo e extermínio, simbólico mas também factualmente físico, da dissidência na sociedade capitalista, sobre a criação e educação das bestas que são carrascos na demência quotidiana da sua autodestruição que é a nossa morte. Bairro crematório, tenho-o escrito em algures. Espaços profundos de tortura onde se patenteia cada dia o extermínio do proletariado e da sua imensa capacidade de revolta. De força revolucionária. De festa, enfim. Conheço a falácia da família, aparelho ideológico básico de Estado, alicerce elementar para o extermínio, a começar pelo mental, escassamente simbólico. Conheço a realidade do álcool em cérebros oligofrénicos, produtores de uma imensa capacidade de crueldade. Tenho-as sofrido e essa dor há-de me acompanhar sempre. Conheço a refinada tortura que se constrói ao redor da negação do sexo nestas sociedades de múltiplas castrações, cousas que talvez conhecia muito bem o Althusser de L'avenir dure longtemps. Esse Althuser que eu li uma vez com surpresa, esse e não outro. E tenho que lembrar agora que para mim negação é sempre repressão activa (negativa, se se quer, em oposição à positiva perfeitamente definida por Foucault em algumas das suas excepcionais análises). Porque se nota no estómago, no mais fundo das entranhas. Conheço isso e conheço outras cousas. Conheço o som que fazem os pés das bestas quando caminham sobre o teu crânio, o ruído que te penetra até ao fundo das terminações nervosas e progressivamente te desquicia até fazer de ti um pobre palhaço, um boneco nas mão dos teus torturadores. Um covarde. Um traidor. Agora creio saber bem o que é o acto fascista da individuação, fundamento da destruição que nos constitui, e o acto comunista, libertador, da desmembração, do fazer-se areia e desaparecer entre as águas neuróticas que nos envolvem. O único espaço da libertação. O território nómada em geração perpétua. Eu sei o que é a morte e o que é o medo, cousas bem distintas e nem necessariamente complementares na hora derradeira. E a inutilidade da fugida. Quero falar, enfim, de alguns dos procedimentos micrológicos (interaccionais, diriam alguns sociólogos e linguistas) de anulação ou controlo, como se desejar, da luta de classes nos últimos anos de século XX, nomeadamente da descrição e análise da construção e transformação do cancro no interior do que é ainda agora o proletariado urbano, do cancro que o corrói e até impede a constituição de células de resistência e luta directa, desde o indivíduo como grupúsculo de combate fundamental até outras formas mais complexas. Ou seja, quero falar das bestas. Da tortura. Dos fundamentos celulares, poderosamente obreiros na sua gestação, do sistema de controlo que caracteriza este fim de século e que nem Foucault, nem Deleuze, nem Althusser, nem Negri, nem Albiac conhecem nem alcançariam a compreender nunca apetrechados nas suas salvíficas bibliotecas e na sua cómoda posição académica, nas suas burguesas depressões e na sua burguesa derrota, na sua sintaxe poderosa e na sua honorífica condição de pensadores de resistência, marxistas, espinozianos, nietschzeanos. Assombrosos analistas. Descritores rigorosos. Genialmente líricos no seu burguês intelectualismo, marxista ou nietzscheano. Mas eu falo de cousas que eles desconhecem: falo da loucura que atrapa as vizinhanças, que faz utopia descarnada a necessidade comunista, que corrompe qualquer intento de convivência pacífica em comunidade, que enche de invejas os cérebros dos obreiros e as suas famílias, que os torna máquinas-besta encarregadas de destroçarem qualquer possibilidade de união na luta da libertação. Falo, afinal, da maldade como forma de aniquilação (e não estou a adoptar posições maniqueístas, as falácias do bom e do mau; falo de um sentimento de escravidão oculto trás-de uma falsa estética de domínio e até trás-de uma mais ou menos patética ética de poder confundida sempre com a prática diária do extermínio do Outro, sob forma puro e simples fascismo, sob forma culto da personalidade, sob forma culto do mestre ou a erudita referência marxista). Falo desse sentimento racional, poderosamente humano, indiferente a fortaleza ou debilidade, que tornou o sonho comunista em barbárie estalinista, delírio maoísta ou neurose castrista, do sentimento brutal que é o mesmo que me faz temer a chegada do próximo ano, o que fez dos meus vizinhos carrascos que desejam o meu sangue e a minha destruição. Falo da razão urbana, a que habita nestes imensos ataúdes em que nos obrigam a morar, roubando-nos os amplos espaços que nos pertencem. Falo do vírus mortal que atrofia até limites insuportáveis os já castigados territórios onde nos movemos. Falo simplesmente em paranóia, no fascismo fundante que invade os nossos cérebros em algum momento da nossa existência. Ou antes, no aparelho fascista que é o nosso cérebro (humano, demasiado humano). Falo, enfim, na doença que é o homem, e não nos termos ontológicos, rigorosamente reais, de Foucault ou Albiac, mas na brutal materialidade do nível das mulheres e homens que nascem e morrem, e sofrem. E sofrem. Falo, sei que o sabeis, no sofrimento constituinte que nos paralisa, que faz cadáveres dos que alguma vez crimos conhecer a lógica da guerra, que intuímos as estratégias da batalha que mude por fim a face de um mundo basicamente suicida, cruel e injusto. O sofrimento que nos imobiliza as mãos, que entorpece o movimento das nossas pernas, que faz objectos inúteis dos nossos olhos, que traspassa imisericordemente as células dos nossos crânios antes pensantes, que devêm agora máquinas de combate inservíveis para tudo menos para a autoaniquilação. Não tenho consciência de quando aprendi a ler, talvez nasci fazendo-o, e agora sou incapaz de unir duas frases que tenham para mim significado. Falo do ressentimento pelo que me roubaram no caminho e pelo que ainda me hão-de roubar até que me arranquem o derradeiro segundo de existência. Falo da completa ruína do que ia ser a minha ética, da obscena degeneração do meu projecto estético devindo agora o cadáver que se reflecte no espelho das miragens, no espelho da matança. Falo. Falo. Falo em perpétuos silêncios a aguardar o momento em que meus irmãos me cortem a língua ou bebam o sangue que mane da minha nuca.

[E, afinal, trato de escrever, também, porque é o mesmo, sobre os sacerdotes da heterodoxia, sobre o âmbito em que se confundem as suas éticas analíticas e as suas humanas realidades. E sobre a falácia brutal da estética das suas línguas, que são una ao final, ortodoxos, fascistas, paranóicos, lamentáveis perversões do Assassino. Elaboradores de sintaxes de mediocridade sob semânticas tiradas da Bíblia de infinitos nomes. Aqueles que nunca deixaram de ser burgueses por herança, mas sobretudo os meus irmãos no desclassamento, os filhos da classe obreira urbana que fecham os olhos trás-de terem aprendido a litania revolucionária, o catecismo que substitui o catecismo. Os meus irmãos, o melhor espelho para observar a decrépita estética da minha derrota. Nessun dorma. Mas não haverá vitória na alva. Não buscarei a salvação. Observarei o cancro e o iniludível processo do extermínio. E falarei, no entanto, falarei e amarei. Falarei da inevitável vinda do superhomem. E da sua derrota a mãos das bestas. E amarei cada instante em que o ar penetre no meu peito asmático. Amarei cada instante em que um Dous errático me faça esquecer a ruína do homem. Amarei cada instante em que um suave tremer da minha pele me faça intuir a factibilidade da utopia: as palavras que destruam o mundo. Amarei cada instante. Cada segmento de batalha. É isto a vida?, dizer-lhe-ei à morte. Muito bom! Pois que volte a começar!]


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