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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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 26 Novembro 1996 http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait Corunha - Galiza

Mulher, negra e artista

Perla Alonso Blázquez

      Uma tarde em Nigrám, uma mulher de cor americana, M.T., doía-se com uma amiga branca duma desgraça: era vítima da discriminação do politicamente correcto.

      Segundo esta concepção de tipo eufemístico, determinadas expressões são condenadas à inexistência para evitar as associações de tipo discriminatório que chegaram a ter estes vocábulos pelo uso que sectores dominantes da população fizeram destes termos, e que na actualidade são considerados eticamente rejeitáveis.

      Deste jeito, M.T. não poderia ser nomeada negra mas “afro-americana”, ou, noutro caso semelhante, as culturas índias americanas são reduzidas a “nativos americanos”, como se só existissem dous estádios históricos e antropológicos: o locus amoenus do índio e a moderna civilização anglófona (seja politicamente correcta ou não), como se o mundo não se tivesse constituído como conglomerado de contributos de povos, raças e costumes.

      Imaginemos que fosse politicamente incorrecto nomear-nos espanhóis, portugueses ou gregos, e que nos fosse imposta de forma proteccionista a denominação “Sul”. Como nominação eufemística e comiserativa, dalgum jeito obviaria a importância dos contributos que durante tantos séculos as culturas do Sul de Europa e mediterrâneas injectaram à presente civilização. Pelo mesmo, ao ser “afro-americano” termo de favor, o seu uso esguelha e mesmo obvia que a cultura negra constitui um dos grandes eixos da América hispana, brasileira e norte-americana.

      É possível associar o conceito politicamente correcto à imaturidade com que se aborda a ideia do americano (termo quando metonímico tão confuso e redutor). Resulta absurdamente imatura a identificação da ideia do “autenticamente americano” como caracterizador dum sector escolhido, enaltecido e considerado como desejável à par que se rejeitam outros factores constitutivos da população. Mais racional e maturo seria aceitarmos o contributo anterior ao assentamento norte-americano, o índio, o hispano, e o negro, e a complexidade cultural de segundos estádios históricos que se percebem demasiados como para poderem ser reduzidos a branco, americano, protestante, etc. Suite Índia, 1996

Simón Pacheco, Suite Índia, 1996
Infografia sobre papel fotográfico, 21 x 27,9 cm.
início       O problema, como vemos, é que o politicamente correcto em certo modo oculta a diferença e apenas a aprecia de forma redutora como “o outro”, carregado muitas vezes de fortes tons exóticos e proteccionistas mas ligado a um sentir só aparentemente cívico que nos encaminha a anular as diferenças até à ignorância total do outro. A função redutora é, além, em muitos casos insistente, como no caso de M.T. M.T. era uma mulher, negra e artista, de jeito que se fundiam nela tantas lanças politicamente correctas que a pobre Dolorosa atravessado o seu coração até ao fisicamente impossível poderia sentir-se numa situação de privilégio.

      Em virtude da acção politicamente correcta -pela que se constitui coma não aceitável civicamente o olhar insistentemente para um negro, para um inválido ou para um pobre- logra-se que imensos sectores da população sejam ignorados até à invisibilidade.

      Uma atitude mais madura, não apenas por parte dos americanos mas de todas as copartícipes culturas dominantes -e em diferentes medidas também dominadas- seria aceitarmos a diferença como protagonista dum mundo pluricultural, no lugar da aceitação da diferença que se assimila e integra no cânone do poder e que significa exactamente a absoluta negação do outro, mesmo até ao auto-extermínio.

      Em Vigo, tenho observado algumas mulheres -que nalguns casos podem ser mais compreensivas do que os homens- regatear com os negros nos seus postos da Grã Via com umas olhadas de cumplicidade às vezes tão profundas que me alegro de pertencer a esta raça que estabelece relações com qualquer, porque todos nós somos qualquer, mesmo alguma destas culturas tão brancas de pele que se auto-erigem como cânone e às que tanto trabalho custa aceitar-se como uma mais.

      Aceitar total e inquestionavelmente o politicamente correcto passa, nalguns casos, por aceitar o racismo - não falo só da cor de pele-. Não se pode apreciar ou admirar o outro se não o conhecemos. Conhecer, nomear, ouvir, é necessário para apreciar e respeitar verdadeiramente a identidade do outro.

      É evidente que M.T. se lamentava porque queria que os outros apreciassem no que valiam a sua cor, os seus hábitos, o seu sotaque, a sua história.

      Com toda probabilidade, nenhuma postura será a perfeita. Como humanos nem sequer cada um de nós somos totalmente coerentes, mas também parece necessário contribuirmos dalgum modo para uma análise aberta sobre um estado das cousas que deixa muito que desejar e que, portanto, suscita uma inflexão que podemos contribuir para orientar aqueles de nós que sentimos a pluralidade ameaçada por uma postura inspirada, em grande parte, nalguns cânones de poder.


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