Çopyright

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 20


24 Novembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Posturas e significados:
Sobre a ilustração de
Çopyright 19

Alberto González-Alegre


      Notas prévias de inspiração ou correspondência: (a) Para uma mostra colectiva de arte ibérica actual que eu organizava quis contar com o trabalho do artista português Fernando Brito. Levei-lhe à sua morada de Santarém alguns catálogos doutros artistas convidados à mesma mostra. Olhou-os com muito interesse mas sempre viradas as imagens: dum lado, doutro ou do revés, não lhe interessava em absoluto a olhada frontal. (b) Partindo duma olhada lateral do quadro “Santa Ana, a Virgem e o Menino”, de Leonardo da Vinci, Dom Sigmundo Freud elaborou parte da sua tese da psicanálise da arte: o já clássico assunto do abutre e os pesadelos infantis de Leonardo.



AUTO-RETRATO I: IMAGEM FRONTAL

ILUSTRAÇÃO

      Evidentemente uma mulher: o rostro oval e o corte do vestido significam-na, fundamentalmente o segundo. Também outras cousas, claro, mas com o sinalado basta. Dous tipos de penteado, à esquerda ondas de mulher, de Carmen Panero, o eu que escreve e assina o texto, à direita um rasgo preto e vertical, os cabelos genéricos e metafóricos de Leopoldo e os Leopoldos.

      No centro significativo da ilustração um óvalo de tinta preta. Se é óvalo, dissemos, é mulher, portanto a mulher que eu disse, mas a tinta cobre-o tudo, de maneira que há um particular negado: “Era-se uma vez uma meninha... Era-se uma vez uma meninha?”.

      Como sempre os aspectos que provêm do delírio e que outros chamam compositivos (como se o amor , a náusea, o gosto desviado e a pretensão da riqueza que nos jubile não existissem) são os mais complexos. Que ilustram no relato as três formas triangulares da direita, progressivamente amarela, vermelha e ocre escura? Reparade apenas um momento e teredes a solução diante dos olhos.

      Arriba luz de ouro que vem trazida pela formosura do bucle gris: o amarelo resulta ser a síntese cromática dos pensamentos e das reflexões de esquerda a direita. O vermelho prolonga-se no segundo triângulo, mas também baixa até ao final como um rio. No terceiro parágrafo do relato podemos ler : “geralmente as leituras acodem-me de conforto” (na ilustração a paixão da iminência do seu peito prolongado no desejo), e a seguir “desta vez viera prolongar o meu afundamento” e não preciso dizer como se exprime no debuxo.

      O terceiro triângulo, quase gris, resulta sólido como uma conclusão, tal é o que pretende ilustrar: sem todo o anterior, sem as mil dúvidas e despersonalizações criativas não existe permanência, o triângulo gris dá gosto olhá-lo: resulta ser a representação hiper-real dum final feliz.



AUTO-RETRATO II: O AMARELO ARRIBA NA ESQUERDA

ILUSTRAÇÃO

      Três montanhas e dous horizontes a sinalarem claramente dous sectores. Abaixo a chave significativa resolta num lago espesso de contornos esquivos.

      Um meio círculo vermelho propõe a miragem da saída sem perigo, mas é falso: o vermelho deitado designa “o diário medíocre”, o imenso lugar da escusa, a projecção en cores aparentes da mínima importância das horas nas que eles se deitam ou se erguem.

      Abaixo, como um breve suporte satisfatório mas produto alheio, duas linhas, uma prolongada e outra de resolução forte. São caminhos doutros. Não é a saída. Do lago escuro sai-se brincando, sai-se como às vezes nos sonhos, sabendo que há um branco lógico (o lugar da mãe) e desejando-o. Só dum golpe. Dum golpe contra qualquer lado que seja branco, para onde não importa. Chegados até ao branco estamos fora dos ciclos de conferências, fora das notas e das criticas; nalgum lugar desse branco, centos de vezes habitada e desabitada, está a Casa de Ponte-vedra.

      Não me digades que sou arcano. Olhade vós mesmos, mulheres e homens cosmonautas sopirraitenses, como os brancos deste segundo auto-retrato são gases atmosféricos. Lembrade agora a visão frontal: um branco do corpo sólido, um branco do fundo-nada.



AUTO-RETRATO III: O OLHO SOBRE OS CAMPOS

ILUSTRAÇÃO

      Os triângulos ficam imobilizados, o seu papel relegado á designação do espaço. Um olho preto na direita centra o significado. Os campos de cor e os horizontes e caminhos não fazem senão pôr ênfase na velocidade e no poder do óvalo preto. Levantade os olhos por um momento e no papel só ficarão triângulos.

      Em termos de teoria da pintura fala-se de campos de cor, aqui ainda com maior literalidade: cores nos campos, campos de cultivos em cores. O sol põe-se na margem direita como um olho que já quer descobrir uma nova página esquerda. O ciclo da leitura é um vaivém, o sol escuro dum lado alumia de amarelo um novo dia.


• • •

Nota. Podedes vós mesmos virar a ilustração e descobrir um quarto auto-retrato. Eu, que sou crítico de arte, tenho os meus olhos viciados e digo que essa quarta imagem não funciona. É por isso que a esquivo. Em troca da minha negativa ou do meu medo regalo-vos a expressão para que a usedes e joguedes às simulações: Não funciona.


Çopyright


Enviem as suas contribuições para Çopyright a lxalvarz@udc.es


início Início

anterior Çopyright 19: Auto-retrato, Carmen Panero (relato); ilustração de Antón Goyanes

próximo Çopyright 21: Mulher, negra e artista, Perla Alonso Blázquez; ilustração de Simón Pacheco

índice Índice