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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 19


8 Novembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Çopyright está orientado fundamentalmente à distribuição de textos, e portanto não achará nele grandes fazanhas gráficas. Contudo, o seguinte relato de Carmen Panero está acompanhado duma delicada ilustração em aquarela do artista Antón Goyanes. Para manter a velocidade de carregamento da página em limites razoáveis, o desenho foi reduzido em tamanho e resolução. Pedimos paciência para carregar os 24Kb que ocupa.
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Auto-retrato

Carmen Panero


Para Filón


     Augusto Monterroso, o mestre guatemalteco do relato breve, é dono duma agudeza sutil larvada nas mais inocentes palavras, das que se desprende aceirada e impia. Assim acontece na descrição duma personagem chamada Leopoldo. Apresenta-se-nos um escritor minucioso, implacável consigo próprio, que desde os dezassete anos se entregara por inteiro às letras, tinha todo o dia o pensamento na literatura e a mente a trabalhar com intensidade, e nunca se deixava vencer polo sono antes das dez e meia, mas que adoecia dum defeito: não gostava de escrever. E acrescenta: Lia, tomava notas, observava, assistia a ciclos de conferências, criticava o deplorável castelhano que se usa nos jornais (...) mas era presa dum profundo terror quando se tratava de tomar a pluma. Apesar da sua mais profunda ilusão de chegar a ser um escritor famoso, postergara o momento de consegui-lo com as escusas clássicas, a saber: primeiro hai que viver, antes cumpre ter lido tudo, Cervantes escreveu o QUIXOTE a uma idade avançada, sem experiências não hai artista e outras polo estilo. (1)

     Não me estranharia que, ironicamente, o autor concebesse esta personagem com certos caracteres da sua própria personalidade. Eu adoptei-no como uma burla dos meus projectos de escritora numa noite de Agosto em que decidi, com a resignação do escritor frustrado, que não ia acabar jamais certa carta.

     Geralmente as leituras acodem-me de conforto. Mas o conto de Monterroso, desta vez, vinhera a aumentar o meu afundamento. Quando o topei, com a renovada surpresa com que sempre me dão os livros a resposta que eu andava buscando, em lugar da luz, o que surgiu foi uma sombra chinesa que me saudava botando-me a língua. Não havia uma só desculpa de Leopoldo que eu não utilizasse comigo mesma! A citação da idade de Cervantes! Todas! Comigo e com os íntimos mais confiados no meu futuro. E, claro, pior do que Leopoldo, que não terminava os contos: Eu agora já não terminava as cartas!

     Como a personagem de Monterroso encontro de cotio assuntos noveláveis. Depois, desenvolvê-los já é outra cousa. Aquele mesmo dia, sem ir mais longe, estivera matinando no seguinte: a protagonista do meu próximo relato trabalharia como leitora duma dama adinheirada; as leituras, que ela iria elegendo cuidadosamente, seriam o fio no que se enrestiariam as ideias da leitora e o passado da dama, e iriam medrando ao tempo que se estreitava a amizade das duas mulheres. Mas, igual que a Leopoldo, acontece-me a mim que asinha se me atravessa o novo assunto entre os velhos e de contado pensei que a minha dona rica bem poderia verificar aqueloutro projecto latente da “Casa de Ponte-Vedra” habitada e desabitada centos de vezes na minha imaginação.

     A personagem Leopoldo também fazia um diário medíocre no que, carecendo de aventuras interessantes, apontava as horas de se erguer e se deitar, ademais das notas dos diversos temas com que se ia topando. Escuso dizer que este espelho seu também me identificava, com a mesquinha ressalva de que no texto dele havia faltas de ortografia que eu presumia de não cometer; para além disso, de ele ter uma história que contar, se a energia para escrever lhe sobrevinhesse, ainda devia passar pola síntese, a antítese, a correcção do estilo, o dicionário, fases que eu conhecia tão bem como as escusas desde muito antes de ler o conto.

     Nesse conto encarna-se, sem dúvida, uma sátira do escritor e, ao mesmo tempo, hai um incitante exercício de estilo onde as diferentes versões dum argumento mínimo são a chave dos mais surpreendentes efeitos. Numa delas, por exemplo, cita-se a Shakespeare em prol da constante reaparição de determinados assuntos na arte e na literatura. Por casualidade, numa tertúlia recente, tratara-se da mesma citação em termos parecidos, quando alguém lembrou a história de Montescos e Capuletos havida no passado legendário da sua família, lá em Bóveda entre o Freituxe e o Canedo que apartaram para sempre os seus avôs. Não sei se algum outro tertuliano, aparte de mim, acariciou aí um projecto literário. Mas quando a lim no livro de Monterroso, como ele para com Leopoldo, perguntei-me também eu, no fogo cruzado dos argumentos, se eu gostava certamente de escrever ou se padeceria o terror do papel em branco. Contudo, o feito de vencer a abulia contra o relógio, como nesse mesmo momento ao resenhar o escrito, e o repouso da memória satisfeita com as anotações acalmavam a minha consciência antes do sono igual que lhe acontecia à personagem.

     No que atinge Monterroso, bem sei como as suas obras, longas ou breves, o preservam desta história. É memorável a sua maestría de síntese na famosa criação do relato mais miúdo da literatura espanhola, que não ocupa mais do que uma linha e se chama O DINOSSAURO: Quando acordou, o dinossauro estava ainda ali. (2)

     Ao achar esse relato junto ao de Leopoldo, no meu naufrágio, acordou-me a mim outra experiência descoroçoadora: durante um curso de psicologia convidaram-nos às participantes a escrevermos um conto encabeçado pola frase “Era-se uma vez uma meninha...”. As minhas companheiras da aula, todas elas, souberam prosseguir o texto no espaço e tempo da sessão, e podo assegurar que saíram à luz relatos mui bem construídos, focados com engenho, originais, bem seleccionadas as anedotas. No entanto, eu pudem escrever apenas as mesmíssimas palavras propostas e depois mais nada excepto uns signos de interrogação, e assim foi como respondim com elas no meu turno do exercício.

     Mas desta vez, no diário, voltei a escrever aquele breve texto. E foi uma tábua de salvação inesperada, pois imitando Monterroso dei-lhe um título. E velaí está:


AUTO-RETRATO

Era-se uma vez uma meninha... Era-se uma vez uma meninha?



ILUSTRAÇÃO
Sem título, Antón Goyanes, 1996
Aquarela sobre papel, 15x21'5 cm.




(1) «Leopoldo era un escritor minucioso, implacable consigo mismo. A partir de los diecisiete años había concedido todo su tiempo a las letras. Durante todo el día su pensamiento estaba fijo en la literatura. Su mente trabajaba con intensidad y nunca se dejó vencer por el sueño antes de las diez y media. Leopoldo adolecía, sin embargo, de un defecto: no le gustaba escribir. Leía, tomaba notas, observaba, asistía a ciclos de conferencias, criticaba el deplorable castellano que se usa en los periódicos (...) pero era presa de un profundo terror cuando se trataba de tomar la pluma. A pesar de que su más profunda ilusión consistía en llegar a ser un escritor famoso, fue postergando el momento de lograrlo con las excusas clásicas, a saber: primero hay que vivir, antes se necesita haber leído todo, Cervantes escribió el QUIJOTE a una edad avanzada, sin experiencias no hay artista y otras por el estilo». “Leopoldo (sus trabajos)”, em MONTERROSO, A.: Cuentos y Fábulas, Círculo de Lectores, 1993, pág. 85.

(2)

EL DINOSAURIO

     «Cuando despertó, el dinosaurio estaba todavía allí». Op. cit., pág. 83.


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