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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 17


28 Outubro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

A faísca da morte

Xosé MĒ Álvarez Cáccamo


     Quando nas cozinhas descerebradas do poder se aduba a receita da estupidez com as espécies do ânimo lucrativo, então resultam pratos mui perigosos, estouros aerofágicos de alcance universal. Assim vai ocorrer, se não se remedeia antes -não sei como- com a genial proposta da recentemente criada Sociedade Space Marketing de Geórgia (EUA), que projecta enviar um anúncio luminoso ao espaço, essa pátria infinita que antes era de todos, ou de ninguém, e agora é propriedade dos alados marines angélicos em patrulha eterna polas avenidas cósmicas.

     Pois bem, alá no cimo, no teito do templo da aldeia global, querem pendurar um globo de quilómetro e meio de longitude, iluminado de noite por obra duma substância reflectora que pode intensificar os seus efeitos durante as horas do dia com miras a um impecável “visionado” desde a Terra durante vinte e quatro unidades didácticas ininterrompidas.

     Deste jeito, os habitantes do cosmos completo, desde Bollullos del Condado até a Aldebarán, não poderão continuar argumentando escusa nenhuma para a conservação dos seus atrasadíssimos costumes alimentícios, causantes do bócio geroftálmico e do raquitismo congénito, porque vão aprender a acompanhar a ingestão de cozido e lampreia com coca-cola e ketchup, como todo americano universal que se preze.

     Na fase inicial de aprendizagem através do impacto lumínico (sem necessidade de percepções subliminares) do primeiro spot estelar, será o líquido negro, faísca da vida de moderada potência euforizante, o maná que os deuses do Olimpo-Casa Branca enviarão em descenso virtual. Mas no empardecer do segundo dia, quando os aldeãos globalizados regressem para os seus lares logo da tediosa jornada bíblica de oito horas, verão no céu alto sobre a montanha sementada de favelas o círculo dourado duma hamburguesa colossal em substituição da desnecessária lua decimonónica. Na alva do Martes geológico acordaremos alabarados polos faróis dum BMW do tamanho do sol, duas estrelas gigantes brancas que farão inútil o trabalho da envelhecida frágua e contribuirão para a universalização do desejo de competência e velocidade sem destino. No Mércores, o peito despido dum Goliath ruivo e prógnato, vencedor das trevas com espada em sangue de dólares, deixará-se acarinhar por uma chuva de águas de colónia fosforescente. No Joves pola manhã poderemos escutar no mundo inteiro a voz duma ama de casa imensa, moderadamente feia, discretamente limpa, que protesta a 3.000 pés de altura porque um funcionário gris, situado nas oficinas da constelação de Libra, quer roubar-lhe o seu tambor de detergente, branco mais branco do que aurora boreal. Dedicaremos a tarde do Venres a aprender as técnicas de colocação do preservativo infalível, explicadas a partir dum modelo em plástico de cinco anos-luz de longitude por três de perímetro, estacionado em altura sobre a mão asséptica duma deusa criadora que canta Fiat Lux. Essa mão central da tremente Capela Sixtina do mundo sujeita o Globo Absoluto, o condom hipertrófico que vai engolir a carne do falo ilimitado do universo em expansão para um orgasmo controlado, para a orgia do Sábado-Sabadete, dia em que descansaremos definitivamente sepultados polo lume do anúncio final: a estarrecedora silhueta do fungo nuclear, marca “APOCALIPSE”.


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