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Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 16


27 Outubro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Trainspotting (O cumprimento da profecia)

Pedro-Milhám Casteleiro


     Quando se estreia o filme de Stanley Kubrick Clockwork Orange -baseado no romance homónimo de Anthony Burgess- lá polos princípios de 70, o mundo bem-pensante estremece-se ante o que parece ser uma aberta invitação à insensatez, uma obra daninha por apresentar sem reprovação comportamentos perigosos. E ainda hoje em dia há problemas para se exibir Clockwork Orange no Reino Unido. Houvo também quem pensou que aquela torrente de terror futurista estava fundamentada num micro-terror quotidiano que crescia inevitavelmente sob a nossa ausência de sentido.

     Não me refiro ao “sentido” ausente de que falava o psicanalista Victor Frankl, que não é sentido mesmo, mas um conjunto de valores, um conteúdo da consciência. Falo de outra cousa. A mesma cousa que está ausente também na claustrofobia do Edimburgo de Trainspotting. Como podemos fugir docemente de nós próprios? Fugir docemente; fugir docemente.

     A experiência resultante de deparar com nós mesmos, coa nossa consciência enfim liberta de valores religiosos, enfim escrava do Deus dos publicistas. A nossa velha moral segue viva. Nós é que não estamos entre o número dos vivos.

     A experiência de topar co espectáculo do vazio e o subsequente terror nas nossas cabeças. Ninguém se arrisca a estar vazio? Que se passaria se renunciarmos uma vez por todas a sistematizar a nossa experiência? O quê se nos recusarmos a lembrar o desnecessário?

     Não nos arriscamos. Pronto. Alternamos: Opção 1, casa, carro, recibos, prozac, trabalho, dinheiro, sexo, filhos, colégios, um cão, um poema, Winona Ryder... diz Não: Opção 2, heroína, speed, álcool, prisão de ventre, ETA militar, camaradagem da merda... diz sim à vida. Opção 1, opção 2. As faces da moeda alternam-se. A moeda de 5 dólares vira e continua. Foder com meio corpo, ser-se de Esquerda com reservas, ou de Direita (aqui as reservas vão implícitas). Usar venenos com insânia, para esconder a realidade, contrariamente à sua intenção natural e originária: compreender melhor o mundo e aprender o secreto jogo do amor.

     Por favor, despenalizem o abandono, levantem as fronteiras dos venenos, da santa ebriedade, daqueles campos sagrados onde vive Deus com pão, beleza e vinho forte.

     Então, caminhamos para o Leste há anos e pretendemos chegar ao Norte. Como o funcionário daquele conto que aspirava a se introduzir no saco da burguesia muito para baixo... tanto, que vinhesse a ver a luz lá ao fundo! Navegadores de bússola rompida, o sem-sentido fornece-nos todo tipo de extravios, a totalidade da nossa miséria, da miséria do mundo. A tristeza e o desastre são fruto de vivermos seriamente loucos dia a dia.

     Economia de mercado, produtividade, competitividade e trabalho são declamados aos quatro pontos cardinais, como se forem as quatro verdades fundamentais da nova rosa-dos-ventos. E a economia de mercado até agora perpetua a pobreza e converte tudo (mesmo seres humanos) em objecto de tráfico comercial. A produtividade é um suicídio lento dos sistemas tradicionais de produção e uma catástrofe para as redes biológicas. A competitividade é o contrário do apoio mútuo, garantia de sobrevivência para o indivíduo e o colectivo. E o trabalho obrigatório foi sempre um antídoto contra a paixão, e, todavia, há tempo que se tornou desnecessário em grande parte -devido à informatização e à maquinaria- e, por essa mesma razão, se tornou também impossível o pleno emprego. Impossível, desnecessário, torturador. A ideologia que o perpetua é uma falácia.

     E a criação, a vida criativa, fica restringida ao âmbito das “artes” e os seus mausoléus. A poesia ficou “género literário”. E a literatura, pola sua vez, ficou mercado: a procura e a demanda de objectos de prazer. Mera compra e venda para diletantes, fogueira de vaidades, e estratégia de poder de académicos farsantes.

     -Então, a arte, a vida como Paixão: como sofrimento e êxtase? Como passagem descarnada?

     Os protagonistas de Trainspotting são trapezistas que caem. Perderam o equilíbrio. A desaparição da moral tradicional e a ausência de substituta enervou os seus mecanismos íntimos de compensação e uma maré energética, mortido e libido, precipitou-se sobre o seu território psíquico. As pulsões adolescentes não encontram no Ego um lugar para a canalização consciente. Seus sistemas de controlo estão atenuados, escurecidos, porquanto o “valor” fundamental não é outro que o da efectivação sem obstáculo destas pulsões adolescentes. Esta interpretação, cento por cento inscrita na tradição hebraica (Cabala, Freud, Jung) que hoje se chama psicologia dinâmica, pode ser observada à distância necessária, mas faz-nos entender que é falso haver ausência de valores na ideologia do consumo; há, tudo polo contrário, valores bem definidos -se se quiser, anti-valores.

     Não acho, todavia, que a questão principal radique aí. A presença de anti-valores produz as mesmas consequências em certo nível do que a presença de qualquer outra ideologia. Repito, em certo nível.

     Enquanto a existência girar à roda da máquina “ego” não há a menor hipótese de ser realizado um acto cheio de beleza; um acto forte, belo em si mesmo, sólido e independente de qualquer sistema moral. Um acto irresponsável.

     Funcionar maquinalmente é o único que se pode esperar se a consciência quotidiana for uma consciência egóica. Ego é um computador de altíssima precisão, armazém reprodutor e imitador impecável -e incapaz de criar e de ver com profundidade.

     Que há para além da maquinaria psíquica quotidiana?

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     A ausência de sentido faz-nos procurar respostas. E as respostas aumentam a falta de sentido. Apenas temos a paciência do nosso lado.


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