[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 14


28 Setembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

Poemas

Pedro Diniz de Sousa
Pedro.Sousa@fcsh.unl.pt


Fim Fim de Çopyright 14

verão em Lisboa
28.08.1989

nas esquinas do verão não há tempo para os dias
que escorrem húmidos pela secura das noites

os nervos cedem às precoces madrugadas

no vão decurso tentamos encher o deserto
espraiado no coração da cidade como almas queimadas

no fim a árvore prometida repousará das tardes
de assédio quente feita um rosto aberto
e de vento absurdo serão os meus passos nocturnos

mas os gélidos músculos voam libertos por agosto
ao longe os ramos recortam o nevrálgico dizer
em que recolho ao ventre da hibernação faminta


Onde é que está a poesia?
17.janeiro.1990

está
no imediato tempo respirável
em que um alívio remoto se move e agita
os espaços inertes do nosso compromisso

vem
dos lugares habitados por nós um dia
alheios à alucinação da nossa vida
e alheios à sua própria eternidade


Já feito, por fazer
21.maio.1990

já feito
por fazer
o gesto invisível
rasgado na luz

_____

entre as dunas
do deserto
beber o sumo
das raízes

entre as rochas
entre a espuma
sucumbir
em sono lento

ouvir o sangue
verter
sobre as vagas
explodindo

entre penedos
na montanha
dançar ao cheiro
do vento

colher no rosto
a essência
de violência
das lilazes

dar o olhar
à terra
perseguindo frutos
entretanto

em pleno campo
correr ao sol
não sabendo
nadar

sentir o céu
lá em baixo
onde as nuvens
não enganam

entre os dias
por contrato
com a chuva
acreditar


Sem título
3.junho.1990

Deixai o vento prostrar-me o rosto
Deixai-o bafejar a minha angústia
Formai, ciclones, sobre fios de memória
Formai definitivas labaredas arrancando
O nó confundido que me tem às pessoas;
Elevai-me à beira do sentimento onde
Os anjos dormem sem tragar
Da morte nem da vida nem do sexo

Abandonai-me na estrada que eu já galguei
Velozmente no carro prosseguindo as curvas
Dispostas para nos saciar a velocidade
De contentores oferecidos na noite de Natal;
Revogai-me a benção, sem deferência -
Tenho sono e não gosto de mim
Como se uma tempestade de areia chegasse do Sul
Não enxergo a terra e o céu é igual


Regar o mar
10.abril.1992

Vou recolher, vou pensar
Eu e as minhas disquetes
Com cem mil bytes estragados
Com as botas descoladas
O corpo preso aos lençois;
Aqui mesmo, com esta tinta,
Vou desvendar o mistério
Que impede o nosso amor
Vou trocar tudo por nada
Perder-me no teu atalho
E pegar na tua vida
Como quem rega o mar


Mãe
3.maio.1992

feche a porta
e não diga a ninguém que eu estou a dormir


Homem
janeiro.1994

Sabes lá se o filho é teu


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