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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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19 Setembro 1996      http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait       Corunha - Galiza

O diário de Miguel Torga (*)

David Pujante

[Tradução do espanhol de C.M.M.]


     Todo o homem tem uma ou várias obsessões e uma ou várias iluminações (ou intuições radicais) que são a chave do seu pensamento vital e que ele próprio vai desenvolvendo ao longo dos anos em obsessivos círculos que confirmam o tempo do pensamento humano não ser linear nos aspectos principais da sua consciência, embora o seja nos da sua razão. Vamos consignar algumas destas chaves no diário que escreveu Miguel Torga.

     Desde logo, no primeiro volume do diário, já lutam o artista confiado e o homem inseguro. Torga escreve aí, um dia que acaba de receber um livro seu recém-saído, pago com o seu próprio dinheiro: “é preciso que a santa cegueira do artista lhe dê a força bastante para, em última análise, ficar só e confiante. Ora eu tenho, como artista, essa cegueira. O meu desalento vem duma voz negativa que me acompanha desde o berço e que nas piores horas diz isto: Nada, em absoluto, vale nada” (6.07.1936). Encontramo-nos com a santa cegueira do que se sabe artista e que não atenderá críticas nem desprezos das fileiras literárias da oficialidade: esta é a história do escritor Torga. Mas a moeda da confiança do artista em si próprio tem a sua cruz: esse desânimo tão enraizado no carácter luso, essa negatividade da terra portuguesa que empapa completamente o homem Miguel Torga. Cada vez que publica um novo volume do diário, “vem-me um tal nojo por estas notas, que fico vários dias incapacitado de as escrever” (5.06.1953). Contra esse desânimo, contra essa angústia e essa petrificação há-de ser a luta do artista; contra esse terrível lema do desalento: “Nada, em absoluto, vale nada”.

     Junto à santa cegueira há que situar a coragem do artista. Para Torga, “quando falta a coragem a um artista, a sua obra cobre- o de vergonha pelos séculos dos séculos” (22.12.1949). E, afinal, na mesma linha está o seu decidido esquecimento do possível leitor. É preciso para Torga não contar com os leitores, apenas com a obra. É preciso criá-la e dar-lhe “o destino implícito na sua escritura” (31.05.1950). Porque só casualmente --e em muito poucos leitores-- a obra de arte actua como uma força irresistível. Não deve portanto o autor, o poeta principalmente, esperar do leitor uma sintonização automática. “Infelizmente, a verdade é outra” (23.06.1952).

     A melancolia está presente em todo o diário: Uma descrença, um cepticismo que toca todos os recantos do viver. Consoante evolui a escritura do diário, ela vai em aumento. Embora homem melancólico, solitário, o jovem Torga --talvez como tantos solitários-- tem a sua fé posta no espírito do homem e na obra do artista como lembrança viva dos melhores sonhos dos humanos: “o nosso espírito não permite que a memória daqueles homens onde morou o sonho se apague. Mesmo mumificada, a casa existe e abriga um mundo; embora coberta pelo pó dos anos, a obra deles tem dentro, a pulsar, a humanidade que a gerou” (30.05.1943). Torga sente-se elo dessa mesma cadeia, e, sem ninguém lho pedir, como ninguém lhe pede aos pescadores que pesquem, lança-se ao mar da criação. “Há uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: é a sua consciência de que são tão fundamentais como o pão” (13.06.1943). Para Torga, o artista é fundamental na sociedade, e a sua mensagem está próxima daquela das velhas sibilas, dos antigos profetas, mensagens de alerta, cheias de sugestões, veladas pelo mistério, como o próprio carácter humano: “Os homens são como as obras de arte; é preciso que se não entenda tudo delas duma só vez” (01.08.1943). Mais adiante, o Torga maduro terá palavras mais descarnadas para a vida e para a obra própria: “Conheço em demasia, infelizmente, até onde pode ir a impureza das palavras e dos gestos próximos ou distantes, e vejo com dorida lucidez que a lembrança e a esperança, em certos momentos, são expedientes iguais de que nos servimos para fugir à crueza da realidade” (10.11.1968).

     Há outro importante centro de reflexão ao longo de todo o diário: o odi et amo a Portugal; a sua pertença a uma terra e a uma nacionalidade que o conformou como o escritor que alenta, mas cujas crenças ele ora não entende, ora são rejeitadas pela sua inteligência, a sua concepção da civilização e o seu cosmopolitismo. Poderia resumir-se esta atitude de Torga naquela frase do Pessoa que, embelezado perante um desfile militar, diz para si: Sinto coisas em que não acredito. De maneira semelhante, Torga pergunta-se: “Que força me atrai a esta gente que me não entende, a estes risos alvares que ferem a minha sensibilidade, a estas capelinhas onde mora um Deus em que não acredito?” (17.10.1943). Essa terra obscura, ancorada no passado, tem para ele mais do que a sua própria identidade: tem muito do humano perdido com a indústria e a modernidade. Ao observar um tapete feito por uma anciã de Arraiolos, pensa: “O que uma máquina faz não tem calor humano suficiente para me aquecer certos frios” (21.11.1943). E ao contemplar a paisagem do Mondego considera: “É pena que os homens não descubram senão em formas cosmopolitas (...) Assim, até o Mondego dos rouxinóis terá de dar um dia o seu quilovátio” (19.03.1950). A ambiguidade no sentimento pátrio alarga-se assim a vocábulos como cosmopolitismo e progresso, pois a ancoragem no passado não o convence, visto o que foi visto; porém, ele sabe quanto de identidade se perde na mudança. Mais desalentado e severo se mostra perante a cultura pátria. Pode resumir-se na pergunta que se faz a 25 de Agosto de 1953: “Se um Aubrey Bell, que tão honradamente estudou e amou a nossa literatura, confessa que a trocava em conjunto pela Divina Comédia, que hei-de eu fazer?”. Que pode fazer Torga? E a resposta vem imediatamente, o mesmo dia: “Nenhum imperativo ético ou étnico, porém, me obriga mentalmente aos limites da sua mediocridade. Seria exigir de mais!”. Que grande lição de honestidade, quando tantos imperativos étnicos ou culturais achatam o juízo e a compreensão nos nossos dias! Torga, longe de advogar por culturas fraccionadas e tudo o que isto acarreta (autocomplacência nacionalista e capelismos em redor), opta pela unidade do espírito, além das barreiras que se fazem reais por razões socioeconómicas: “não se vê linha divisória que possa separar com nitidez um pastor das minhas serras dum beduíno do deserto (...) Não tem a arte de Atenas as raízes no Egipto, e o catolicismo romano o berço na Judeia?” (15.09.1953).

     A reflexão sobre a sua expatriação na própria pátria passa por momentos muito duros. A sua lucidez é grande. Torga chega a dizer que a pátria não é a rua onde se encontram indivíduos que falam a mesma língua, mas um compartilharmos intimamente os pensamentos, as obras. E ele sabe que, assim como Portugal nunca teve essa íntima comunhão com os seus convizinhos, jamais a terá (30.01.1950). E embora ele seja um homem de esperança, “o milagre que espero está-se a demorar muito (...) Apesar disso a esperança continua, porque não posso viver sem esperança, e quero viver” (9.06.1950). Ele acaba considerando que tudo quanto espera não pode vir de fora, e que a grande façanha por realizar é a dele mesmo a lutar no quotidiano para conseguir uma flor entre os espinhos, para ocupar o seu espaço com a diligência com que um bicho qualquer ocupa o seu próprio.

     Torga é um tenaz defensor da harmonia entre os homens. Os anos da segunda guerra mundial dão-lhe ocasião para reflectir amplamente sobre o particular. Como nos diz a 22 de Maio do ano 43, combater é em termos absolutos uma diminuição. O homem, quer defenda a pátria, quer as suas ideias, no momento em que começa a dar tiros ao vizinho, por monstro que este for, está a perder grandeza. Porém, Torga considera a guerra fatal, inevitável, quando a questão é impedir que qualquer enlouquecido a desate: “Então, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal começa a lutar, e só a morte ou o triunfo o podem fazer parar” (22.05.1943).

     Lugar especial ocupa no diário a poesia. Torga considera-se, por cima de tudo, poeta: aquilo que a sociedade literária oficial lhe negou ao parecer mais teimosamente. Veio-lhe a fama como narrador, mesmo como autor do diário objecto desta breve reflexão, mas a sua poesia, à que ainda se lhe negava um lugar desde a oficialidade crítica, continuava a ser a sua mais importante preocupação literária, o tutano da sua criatividade, a razão de ser da sua experiência criadora: “O poeta e o artista podem morar juntos na mesma casa, mas o poeta há-de ser sempre o senhor. É uma aristocracia de origem divina ao lado duma nobreza feita a pulso” (3.05.1950). No diário aparece constantemente, espargida por todo ele, a obra do senhor da casa, a ocupar um espaço quase equivalente do das páginas propriamente de diário. Quando Torga deixa de publicar livros de poesia, toda a sua nova criação poética --a melhor que fez, sem dúvida-- encontrará o seu lugar nos últimos volumes do diário.

     Além do dito, falar sobre poesia, sobre a experiência poética, sobre o seu sentir-se poeta, ocupa numerosas folhas do diário: “Homem de ar livre, a minha poesia não é de autógrafos nem de gavetas. É um golpe de vento no alto duma serrania, onde subo a ver se consigo oxigenar o sangue e a vida” (18.06.1950). Torga fala-nos da sua preocupação com fazer uma poesia pura, depurada liricamente, e dos seus temores por oferecer somente uma “choradeira de funeral” ou por cair em “uma morrinha subjectiva” (11.07.1943). O que salva ao poeta é a sua capacidade duma olhada sempre nova, o que lhe permite descobrir aspectos inéditos numa paisagem desgastada (7.08.1952).

     Torga tem pavor de praticar uma poesia particularista, subjectivista, provinciana (da província chamada Torga), e, igualmente, de praticar um nacionalismo chato, de amor a uns costumes e uma terra que ele não tem muito claro serem os melhores do mundo. Contudo, evidentemente ninguém pode recusar à sua procedência. Cada um se cultiva não só pela inteligência, mas pelos pés e pelos olhos, pelo que pisa e pelo que vê. Afinal, “A terra não é igual em lado nenhum” (4.02.1943).

     A necessidade de compreender as voltas e reviravoltas das gentes da sua terra absorve-o. A sua vida desenvolve-se num reduzido âmbito que vai da aldeia, onde recupera as suas origens, até à não muito mais ampla vida urbana de Coimbra, onde pratica a sua profissão. São impressionantes as descrições da vida marinheira, dos ritos onde se mistura com o cristianismo cultural uma outra cultura religiosa mais antiga e que persiste nestes lugares. É tremenda a passagem do dia 22 de Maio de 1949, na costa do Nazaré, com a Gertrudes, que tem a audácia de “tomar sobre os ombros a responsabilidade de falar em nome do céu”.

     Decerto, o mundo religioso não é alheio às reflexões do Diário. Torga manifesta-se como homem de profundidade ética --a quem atrai precisamente esse aspecto das religiões-- mas também como descrido das instituições. E, sobretudo, como um profundo conhecedor dos claro-escuros da alma humana: “O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer” (25.05.1949). A ironia é para ele o caminho mais lúcido. Diz-nos a respeito da Páscoa de 1950: “Necessitaremos ainda por muito tempo da sua paixão, morte e ressurreição ... anuais. É um maravilhoso pretexto para comer amêndoas, beber vinho fino, e consentir que um milagre abstracto desfaça o nó concreto do cepticismo estéril e nauseante que nos aperta o coração” (8.04.1950). Comer amêndoas, beber vinho, consentir que um milagre abstracto desfaça o nó concreto do nosso cepticismo: eis, resumido, o que entende Torga por utilidade cristã, e o que opina do homem contemporâneo.

     Escrever umas folhas que resumam a riqueza e o alento que se respira neste diário de mais de três mil páginas é esforço a contracorrente dos meus desejos, porque cada página é tão sugestiva que na realidade o que me pede é a glosa. O mais sensato é, portanto, convidar todos à leitura do diário de Miguel Torga: dezasseis volumes dumas duzentas páginas cada um, em edição do autor e publicado (naturalmente!) na cidade de Coimbra.

(*) 16 vols., Edições do autor, Coimbra, 1941-1993.


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