[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 9


17 Julho 1996    http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait     Corunha - Galiza

Com data de 1995 saíu à luz na Corunha um volume de poesia
que contém o trabalho poético do grupo Hedral,
reunido ao abrigo da agrupação cultural
O Facho.
O livro, singelamente intitulado 7 POETAS, distribuíu-se gratuitamente.
No mesmo espírito livre e não comercial,

Çopyright continua neste número a reprodução sem fronteiras
da obra dos sete poetas.

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7 POETAS

Luís Maçãs Lôpez

Noite acesa / Saudade

(Selecção)

NOITE ACESA
AS MINHAS MÃOS TÊM A IDADE DO UNIVERSO
OS OLHOS SELVAGENS DA MARÉ
SAUDADE
A ÚLTIMA ESPERANÇA
TRAVESSIA

Fim Fim de Çopyright 9


NOITE ACESA

Há-de crescer até o céu essa árvore!
Há-de vingar! o bafo, o ar que respira,
É o Desejo do homem, essa eterna
Aspiração, essa atmosfera ardente
Aonde bebe vida quanto há grande,
Quanto de novo e estranho à luz se eleva!

                      Antero de Quental

O tempo é um neno que joga a construir e destruir universos, o reino é um neno.
                     Heráclito

     Eis a arte como um sonho que se acende com luz própria no abismo de vozes imperceptíveis e foge como um beijo adolescente. As palavras que devêm ao silêncio estão escritas co brilhante ouro que cega as miradas do ódio que dia a dia como uma praga de suga-sangues amainam o orgasmo febril das ondas. Talvez esse silêncio seja a música da paisagem e dum corpo de mulher.

     A noite foi acesa na fasta lâmpada dos olhos dum neno. Um sonho além do tempo e da história, além da vertigem dum passadouro interminável. Uma viagem face a mulher despida, imagem que expele o calor da paixão. O desejo que viaja como um barco sem rumo, pisando no chão as ruínas de um reino que hai tempo foi construído no horizonte com outra luz, coas pedras dum muro derrubado. Sim, o nascimento duma bela efígie, que surge do rio arroupado polas sacras pedras, vem da destrução, da morte, do excremento. Quanto amor hai numa mensagem de um náufrago em terra, atirada ao mar. Os sonhos em vigília criam figuras que por sua vez se esvaem como um castelo de areia no nascimento de outro amor infantil. O coração dos sonhos late como o vaivém dum balouço no solitário jardim de rosas pretas. É o sol que corta as amarras na viagem sem tempo e a lua que se afunde nos olhos azuis dum cego.


     Quijo um sonho que as gaivotas nos conduzissem até ao país onde as montanhas encerram saltos de água nos seus olhos de pedra, quando os corvos sulcam o espelho da lagoa em que cada pinga de chuva morre. O rei é o tempo polos séculos dos séculos. A rainha, uma velha cadela já cega, cevada inutilmente só porque o medo a uma lenda antiga lhe negou o sacrifício, a morte. O escravo, um home magro que, ajoelhado na terra sementada, é lapidado pola saraiva. (As minhas mãos estam valeiras, ofereço-che tudo polo sol, nada).

     E o anjo-da-guarda protege-nos de nós próprios, sós destetados a destempo na fraga selvagem. O leite que se coagula nas comissuras dos lábios sabe ao sangue da mãe morta. O anel que levava inscrito o meu nome fica em algum lugar do rio. Tudo é um sonho, sei que tudo e um sonho, mas uma manhã não percebim a minha imagem no espelho ao me barbear. Tudo se esvai, para nascer em outro tempo, como o sangue vertido no lavabo. Sei que tudo foi um sonho numa noite acesa, um desejo de ser uma árvore para sempre. Uma iluminação que transporta o meu corpo até o rio além das horas.

     Só as verdes águas são reais. As enganosas acções das vidas viajam em sentidos opostos, como voam as belas bolboretas para se nom verem uma mesma cor, um mesmo traço nas asas. Só sinto o calor que expele o amor por uma imagem que foi vista só por um instante. O desejo como uma roda em contínuo movimento alumeia o meu quarto, a minha vida sem sentido como todas as vidas, hiulca polo gelo que estilhaça uma pôla seca até ser uma coa terra.

     Amanhã outra vez narrará outra morte...


AS MINHAS MÃOS TÊM A IDADE DO UNIVERSO

Nestas horas em que a lua
persegue as rochas
ensalitradas polo tempo
que o fio da gadanha mede,
o silêncio dito a vozes polas ondas,
a soidade que arrecende a maré,
são as testemunhas do mais antigo dos ritos
antes de dar vida à minha sombra
e assassinar o meu corpo.

Eu, deus dum temível jogo,
duma viagem fora da cálida casa da auto-protecção,
brado palavras de loucura entre as árvores
mergulhado no sangue impuro do vinho.

Nestas horas em que os meus lábios
beijam uns lábios fechados
e falam de amor aos lençóis
começo a fugida à Hélade
nas pedras onde todos os cantos
se perdem numa palavra,
se perdem numa palavra.

O silêncio procura uma música
à dança entre as trevas
um canto da ave fénix
que se perde na veiga
coas torpes chapuçadas dos pés descalços.
São as pegadas que a chuva esquece
quando fujo do souto da cruz ensanguentada
e descubro que estou cego
nesta viagem mais além,
e quanto mais perto de mim!

Eu, coas mãos sujas da quotidiana mentira
vencido pola fadiga das pernas
sento no chão, na húmida erva da ribeira.
A memória liga-se como uma enredadeira às imagens,
a dor inefável dissolve-se no macio sangue do rio
ao final da sua trágica viagem
polos antigos castelos inçados de peste:
na chaira, onde a luz do sol queima todo movimento.
Só o voo dum tabão quebra o silêncio das sábias pedras
e os punçantes ladridos dum cão raivoso
encadeado à tábua duma chousa
que o dono talvez entregou à estas lenes augas,
à branca memória da chaira,
como um contributo de desesperação.

E o destino quijo que chamado polo brilho
dos selvagens olhos que me impeliam à morte
me achegasse ao cão e sem medo o alouminhasse.

O instinto é sábio
as minhas mãos têm a idade do universo.


OS OLHOS SELVAGENS DA MARÉ

Como a sombra dum espíritu valente
tento me erguer do brando leito de erva,
de flores aterecidas pola gélida chuva
que não atende às súplicas.

Se as raizes duma árvore seca são o final do caminho,
a viagem não é a fugida.
Só foge na lagoa a miragem do espelho ocular
percebida por um instante
quando as lágrimas celestes esborram
a face reflectida na água,
no coração da história.

No ar há um agro perfume
um cheiro obsceno que a velha deusa da mentira
deixou como cibo aos estúpidos
que nom têm mais sensações
que as vertiginosas visões
duns olhos cegados na necrofilia,
no culto a um showman,
estrela dum filme medíocre,
ouropel que turba as miradas cropófilas.

Tento me erguer com uma espada antiga
para luitar contra os burburejantes murmúrios
da hipócrita fonte dos anjos desesperados,
cheios do lixo das ânimas que a chuva do verão desabafa.
As consignas da chacina arrecendem a palavras vivas
e à maré convulsa no furor dos clamores.

E o caminho onde temos que nos despir
não conduz até uma terra prometida
vai face nós e se perde na respiração,
nos firmes passos que deixam pegadas
na terra em barbeito.

O caminho é sempre dos olhos
que transmitem o pensamento selvagem.


SAUDADE

     Um jovem co futuro a premer no crânio, como um chapéu cheio de ouropéis e antigas insígnias de chumbo, fenece atrapado polo ritmo dum baile infindo, co sabor dum belo e parvo sorriso nos lábios e o sentimento nos pés. Sem saber que não hai forças coa intensidade suficiente para deitar por terra a última pedra dum castelo antigo imaginário. A energia que surge espontaneamente no cérebro é para destruir e construir os alicerces da memória, os rochedos dos sonhos.

     Maldita por sempre a roda implacável do falaz destino que esmaga uma trindade de cravos nesta branda terra que nos viu nascer. Os olhos suplicantes da nossa mãe chuva pedem-nos que aguentemos o vergalho do vento e da maré co estoicismo que sublima a paixão em ódio. Lições "ensignadas", como uma história esmagada a se verter numa lagoa de sangue. É o medo à imagem ante o espelho transladada à linguagem, ao pensamento.

     Uma lágrima verde a esvarar pola impenetrável face que desleixou os seus gestos à dor. E assim é a vida, tão triste que enche as mãos do aquoso conhecimento. Aprendemos muito cedo a mentira. Toda luita ainda é mais fel para o acedo sabor dos lábios. Apenas procuramos coa constância da chuva a encher o mar da diáfana vitória. A esperança... uma janela aberta é a incerta esperança, como o caminhar e o amor.

     E os olhos fechados debalde tratam de ocultar ao estômago ferinte os brancos muros nas ruas desertas, as casas sem portas, as árvores que imploram à clarividência do finado deus sol. A soidade que arrecende a incenso no caminho sem pegadas.

     Esvarar, sim, como a água plena de sentimentos quase esquecidos. Esvarar co peso do fundo desta eterna distância. Estar só, e deixar-se lapidar pola saraiva que purifica o tremor. Sentir a ténue luz que trespassa a vidraça de serpe, em outro tempo dum azul brilhante como o mar da enérgica insurreição. Agora, escurecida após a morte do deus do céu, conduz, transmite, uma cegueira que vem da negação de todo sentimento além do universo solipcista, onde o sangue é azul e preto. As energias dormem num pano branco. O sono fai um buraco muito profundo na terra erma de além do paraíso, onde nasce a saudade. Saudade, a palavra de fume numa canção de amor invernal.

     Não hai caminhos longínquos nas ilhas, nesta terra ausente dos olhos, nesta paragem criada desde a desesperação, desde a chaira da cidade na avenida da loucura.


A ÚLTIMA ESPERANÇA

Banhar-me-ei despido nas lágrimas
duma fonte viva como a carne
com uma diáfana luz
no centro do universo da saudade

E perder-me entre os ecos submergidos
na frialdade da cova dos selvagens
olhos pretos duma mulher repudiada

Eis o destino cruel da inocência
que se perde entre os dedos e instaura
uma misteriosa reencarnação nos sentidos

A saudade defronte da bravura do mar
mesmo lutando em sonhos contra a água do Leteu
nas mãos, e nos pés descalços
e em todo o corpo despido
a reencontrar-se na soidade

E a pergunta, a eterna pergunta de Hamlet
ao ritmo dum vaivém qual incestuosos cisnes
dous a dous
no balanço do Ying e do Yang,
do bem e do mal
no abismo que se apresenta
como a face luminosa de uma noite de devassidão
de destrução
convidando a permanecer, só a permanecer, lene
no baile de máscaras

Perder tudo entre a muldidão
sem saber a respostas a um enigma,
tão antigo como o sal,
que trespassa a vida tal a folha duma espada
a luitar contra o medo

Perder a beleza
eis a face enrugada do destino
quando já não ficam entre o reino dos sonhos
os heróis fantásticos
e a belas deusas do cinema cos olhos de faíscas
e aquela canção de berce sob o ténue sol da tarde
que foge como o beijo duma jovem namorada

Perder tudo até a música
fechados os olhos à paisagem
e tendo os ouvidos surdos às palavras vivas
que um velho sábio lança ao céu
coas mãos enlaçadas a uma gadanha
espetada na terra de aquele prado outrora viçoso

E só viver na esperança
e assim atirarmos uma moeda
a um poço seco cheio de promessas
quando apenas jogamos co magistério
dum xadrez suicida
entre os milhares de acrobatas
a subir mais alto, muito mais alto
até fender a abóbada celeste
ascender do lixo do beco
ao paraíso do incenso funerário

E a saudade...
sim, um amor reencontrado,
a maré que esborra
e limpa o sangue da areia
dum assassínio esquecido
duma morte silente

A saudade... um canto que penetra na pele
que conduz à luz interior dum verso obscuro
duns olhos que apreendem
a imagem do sol o nosso pai
a assinalar a rota dum caminho longínquo
que vai muito além deste ermo
que amostra a sua desourada face em carne viva


TRAVESSIA

I.

Hai uma travessia perpétua iniciada
ao canto dum corvo apestado
começar a caminhar coa olhadela duma garrafa valeira
doente como aquela face que foi jovem.

E se as avenidas tivessem voz
saudariam majestuosamente aos cidadãos mesquinhos,
para assim atentar contra o pudor
de uns olhos de relógio e de uns lábios de fel.

Penso nas ruas que a memória fijo caminhos de vento
caminhar, a chuva fai mágico o instante
quando o pára-águas se inserta na paisagem
e as minhas mãos não têm nome.

Aquela mulher caminha depressa,
como se as horas se pudessem perder
e encontrar numa loja enfeitiçada.

E aqueles nenos voam entre a gente
co seu brilho selvagem nos olhos,
que o tempo fai decrescer na sua diabólica percentagem

Um, dous, treze transeuntes
tentam fugir do sangue que expele um semáforo
e escuitam os seus próprios silêncios.
Se uma lágrima ousasse esvarar
polas suas faces petrificadas
seria uma rosa entre as rochas da ribeira.

Penso nas ruas que a memória fijo
caminhos de vento.
Caminhar além do tempo de volta ao bairro,
ao bairro mágico cheio de personagens
cujos gestos e palavras ornavam as tardes.

Caminhar cos meus pés sem nome.
Caminhar com uma velha canção nos lábios,
a minha casa não é minha
nem é meu este lugar.
A chuva fai mágico o instante.
O despertar, trágicos aqueles sonhos,
anuviados de vozes sem rosto,
flores sem cores rendidas na erva
como se assim a morte chegasse mais cedo.

A canção persegue-me
como o cheiro duma velha carta de amor.
Estou só,
apenas sei que estou só trás a tua ausência
e não quero mais a morte
o caminho é longínquo, fica muito por viver.

Hai uma lenda maldita que diz que o tempo
abafa a nossa história
e derruba o caminho que fica após o meu passo.
Hai um verso numa carta fechada co carimbo do silêncio.
O sentimento unia-nos nesta lenta agonia
de sermos árvores sem raízes
de criar sonhos indecifráveis,
se é preciso compreender o amor
explicitar o significado duma dança em harmonia contínua
revelar o sentido da morte das ondas
do nascimento de uma flor
oculta aos olhos de um neno
como um primitivo enigma solar


II.

Percorrer sós as nuvens grises dos passeios
a distância quilométrica entre os brancos muros
das ruas sem nome e sem final.

Este lento caminhar co suave tacto
dos azuis dedos de chuva
que trespassam os nossos corpos lenes
a esvarar polas gélidas avenidas
onde o sol foge para não ficar sustido
polo fio eléctrico da Swavástica morte.

Este caminho de pegadas ardentes talvez enverede
face à eterna terra da saudade,
mas ignoro o verdadeiro lugar onde morre,
se hai final nesta cega viagem.

Os nossos olhos unidos polo medo e o amor
fitam o poço do silêncio coa energia do contido desejo
engarrafado em vidro colorido
como o vinho destinado aos deuses.

É assim como a paixão sabe
ao verde vermelho dos teus lábios
sangue rosa-carmim de dor abismada em hálito veloz.

Não hai mais palavras
nem sentimentos tão puros
como esta soidade mútua
instante de beijo de água.

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