[ÇOPYRIGHT]

Pensamento, crítica e criação em galego-português


Çopyright 3


6 Junho 1996    http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait     Corunha - Galiza

Com data de 1995 saíu à luz na Corunha um volume de poesia
que contém o trabalho poético do grupo Hedral,
reunido ao abrigo da agrupação cultural
O Facho.
O livro, singelamente intitulado 7 POETAS, distribuíu-se gratuitamente.
No mesmo espírito livre e não comercial,

Çopyright começa neste número a reprodução sem fronteiras
da obra dos sete poetas.

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7 POETAS

Pedro-Milhám Casteleiro

Voar contigo coroada de blasfémia
Escuita o sotaque do tempo
Além dos olhos e a hesitação
Em ocasiões a confusão é tão grande
Quem fala por mim
Terra, fim
Assentado na espiral que me povoa
Jogo ou exílio
Não querer, não querer, não querer
A palavra estrela se escrevia antes com um "^"
Para atrever-me coa minha morte
Sabemos tudo isto
Ouro marinho
Para Pedro José
Esta é a história do neno que era poeta
Essas misteriosas flores cantando sabem o meu nome
Para o Alfredo Ferreiro

Fim Fim de Çopyright 3


Voar contigo coroada de blasfémia
sob a Lua pálida dos dias de metal

Babilónia, amarás as tragédias que te medrem
na pele. Um odor que golpeia deterá tua mão

Mais do que o céu cobriço meu fastio cresce
face as regiões onduladas além das impotências

Humana é a dor e o cravo que ma causa
e eu sou um anjo que se esmigalha

Uno que há-de reinar na múltipla condena
irremissivelmente cair sobre mim mesmo dentro

Assentado na espiral que me povoa


Escuita o sotaque do tempo,
o tempo
é estrangeiro.
O boato dos corpos que
ultrapassa,
a pele do tempo

O tempo não tem carne nem
o tempo tem ossos, apenas o tempo tem a pele
em que envolve o silêncio
gris
dos dedos que trespassa.
O tempo é estrangeiro.
É o estrangeiro que me habita.

Entra por mim dentro
e me reduz
ao minuto em que me escrevo
Me conduz
me confronta de noite com a estrada e a chuva
Me retorce as mãos com a fúria do silêncio
Perpassa-me o corpo e me procura.


Além dos olhos e a hesitação
da palavra, mora um território longo para os habitantes do sonho
e a Saudade é quem conduz aos campos intocáveis,
por veredas de memórias mortas de memória
para que os animais que AMAM, se devorem livremente.

Lembro-te engrinaldada de dias-que-hão-de-vir
sobre a relva
deitada docemente     trespassada
por um rio alto de prata e luminárias
taciturna e alegre como o trigo de Agosto
Lembro as árvores que dançam no caminho

E a calma latitude do rio, na pupila da sombra,
como uma flor de cinza, esculpida no Sono.

Dous guerreiros luitam quando a lua floresce
e até ao fim do mar se escuita o Corpo
contra o Corpo; perfumado em bruma e ouro
desleixando-se en anéis sobre as montanhas
com o cabelo e a carne entrelaçados.


Em ocasiões a confusão é tão grande.
Penetra polos buracos do corpo e se instala
diante mesmo da nossa visão do mundo.
Então paramos a pensar e a respirar
e ouvimos o ensinamento da carne misteriosa
"perde-o tudo".

Vivemos ao meio de todos os desertos, então
só nos fica a Obra reconstruidora da Saudade.
Fechai os olhos. Emudecendo cada vez mais
para dentro. Até sermos bailarinos dos sonhos.

Porque a Saudade nos conduz materialmente
ao tempo da visão e do desejo. Porque a Saudade
dá novo lugar ao amor definitivamente perdido.
Inaugura uma geografia nova no definitivo coração.


Quem fala por mim
não sou eu e sou eu Altamente
por dentro das palavras
há uma linguagem nova
para a compreensão do espírito todo
e da imensidade da Terra
Sem querer quem por mim escreve,
aquele anjo que tem o sangue brilhante nas pupilas,
fai palavras que não eram e não podiam ser ocultas
é uma escrita de gestos ignotos
que vivia desde sempre

no meu escuro tacto.


          Terra, fim

                                A Fréderic Chopin

     Eu queria falar dos ouvidos que esvaecem,
que desmaiam sobre o mar que enfim sonhámos,
porque somos moradores do luto e o sonambulismo
porque sou ilhéu de uma noite sem medo

     Eis que o amor precisa diferenças
longes extáticos que marcham para dentro
e esta música que a recordação martela
em nossos olhos fechos é a guerra do silêncio.

     E eu quero, sobre tua superfície atlântica
minhas salientes almas embeber e transmutar
e virar contigo louco ó mar do amor
em mim entrante, como a loucura lunar

     morde a pelelha nos meses outonais,
como no bosque sagrado, no interior de mim,
o teu recordo intacto dá harmonia aos braços
e os amantes todos morrem, loucos, sobre o mar.


          Assentado na espiral que me povoa.

Quantas vezes saímos da ducha ignorando isso tudo
Uma vez um demónio interior inventou a elegância
e a elegância foi una e sentou no seu ponto
de silêncio no meio da pel.
Quantas vezes Deus nos sussurrou que a verdade
não é um problema que haja que enfrentar:
luitamos contra nós mesmos, nos morremos
de falta de voz, pola
infelicidade de um simples gesto.
Pense-se na cara de um gato quando está morto
ou quando a noite inventou o seu grito luminoso.

Pense-se nisto, por muito tempo.
Detenha-se o alento, a visão, aqui estão agora
os gritos, os rostos.

Podemos deter-nos sobre a hipótese de viver.
Descer mais para o fundo
até enlouquecer lentamente
até desconhecer as palavras,
até ferver. Então sémen ou leite?
Então ficar atentamente perscrutando as curvas
interiores deste mapa-em-movimento em que a nossa paixão há-de morrer


          Jogo ou exílio

Nalgum entardecer de lume e de pavores
-desses em que Shiva quase esquece abrir a sua mão sedante
todos os homens da aldeia, entre terrores,
levárom um menino eléctrico pròs arrabaldes
da palavra,
havia nele um inquietante estado constante
de fractura, quiçá um vocabulário que lavra.

Ali se alimentou de poemas pronunciados
ao revés, de poemas de luas do leite das cabras,
ninguém sabe se à noite conversa com meninas mortas
ou navega simplesmente
entre as charlas indecentes
de Rimbaud ou Mário Cesariny     -sozinho nas hortas.


Não querer, não querer, não querer.
Perder-se polas vielas absolutas
do corpo adormecido.

Abusar das laranjas em flor.
Submeter árvores, degustar pros-
titutas sob o chicote
do verão.

Debulhando uma casa em que morrem as crianças
engasgadas com um bago de milho na alma
para esperar que nos troquem o destino
polo destino dos mortos.

Não olhar, não olhar, não olhar.
Pois se a vida é como cantar e morrer
por um lado, então dai-me azedume de laranjas

e cabeças de porco.
Estão os barcos luminosos sobre as negras nádegas da noite.


A palavra estrela se escrevia antes com um "^",
tinha certo brilho... Suponho
que pretendo(?) coagular meu "ódio" num só "*".

Então, as medusas*.
Mas não é exactamente ursos ou medusas
(quero jogar com a minha dispersão)
(antes de que perdam definitivamente) as linhas
da leitura. Leite*. Então, temos que ver
a palavra e somar um nadinha de "mau" gosto

          Provando a pronuciar: estrela*

     orgasmo*

                     especiarias*

                     Então, palavras como puta(!)
Palavras como (touro) como leite, como câncer
palavras como chumbo. Palavras com fame.


          Para atrever-me coa minha morte.

Cala, cala e ri, abre todas as portas
aos mistérios do corpo. Que se avergonhem
de ti as pranteadoras cascatas da cabeça.
Que se abram para ti
as portas de todos os teatros.

Um deus gira, um deus bêbedo gira
à tua volta, um deus que não te sabe,
um deus que não te salva. Há que madurar
como uma fonte que se deita no início da noite.

Há que madurar, e madurar é embebedar-se
dançar. Fazer-se lentamente inocente ou
duro. Comer um queijo lancinante sob a lua.
Andar nas corredoiras, nas fontes, nos moinhos alegres
dessa melodia que nos funda um corpo invertebrado
na memória. Saudade que reconstrui a terra,
as algas, o sonho.
Lençóis de menino, tacto febril de medusas,
árvores líricas: lugares da morte.


                           Sabemos tudo isto
e hesitamos descalços e sem forças.
Porque somos duma canção quase esquecida

dum corpo lasso sim dum espírito cansado.
Quando virá o nosso deus sem nomes espantar
o outubro que está aninhando na garganta?
Quando? Será a sazão em que os carros nos matem

com cristais de prata e mãos de javali,
será quando a Lua estique seus cornos mulatos
e ofereça ao mundo a festa do marfim,
ou quando os touros brinquem nas devesas com a sua
solidão...?

Por que não falar de deusas aquando a chegada do verão,
meu deus, por todos os poros pode a noite cantar
um hino para a contínua desolação do corpo
para a alegria de metal dos nenos dissolutos

certamente estamos tão perto da inocência
com a nossa vida devassa muitos diriam má
Estamos tão perto do espírito puríssimo
acolá em riba na rocha menstrual da santa noite do vinho

e aos nossos ouvidos tudo é tubas de metal
e vozes de beatos sobre um céu de fogo
e graças retumbantes, nova maneira de viver
sobre o rio que floresce e arde pola beira do corpo.


          Ouro marinho.

Há um lugar para que o vinho
conheça seu destino, um lugar para a sombra
para que voltem a doçura e a simpleza
de estar aqui, a sós com tudo.

Há um lugar para flores que calam, a enfeitar
a cabeça, um lugar para comer as pétalas
que Outono trouxo. Há um tempo para a simplicíssima
tarefa de estar aqui, calado como chumbo.

São animais profundos os que nos aninham na fronte
à sombra dos pensamentos antigos, as flores da dor
a fazer ninho

sobre os cabelos brancos, misteriosas na camisa dourada,
e loucamente meu amor ganhado nos jardins
do tempo, e o tempo como
uma cidade
toda de luzes cantada.


                           Para Pedro José,
                           com seis meses.

Trovões que lampejais no escuro voo
do quarto adormecido,
deixai correr o sono polas suas veredas
de música e de sombra.
Deixai correr o seu sono
e que não advirta a vossa divina
crueldade na órbita macia
das pálpebras. Trovões que enfeitais
o serão com pesadelos de ouro
rios de prata. Oh não vos
introduzais no seu sonho de bolas pintadas de azul
e de mares cercanos e sonoros,
deixai-no dormir, sobre as ondas,
sobre o leite do verão, deixai
que durma, que sonhe,
a sua mágica canção.


Esta é a história do neno que era poeta
que não era poeta
que se tornou poeta
Está aí a Poesia
que sempre foi poesia
que nunca foi propriedade dos poetas
Estão aqui todos os jogos e as músicas, todas,
são uma marcha final a despedir o coração
todos os poetas são nenos
que eram nenos,
que perdêrom a nenez
que se tornaram nenos.


Essas misteriosas flores cantando sabem o meu nome
sabem o meu nome na manhã fria plantadas
Trazem hinos azuis nos opacos carros do trigo
apontam zenitais como cascas de frutas, ou crânios
tímidos.


Todas as montanhas conhecem o sabor da boca
quando os deuses silvestres florescidos e agudos
com a boca aberta
e os lábios prendidos
e o lume encharcando-o tudo e as vozes
femininas desde o Sol dando uma voz lívida
de alarma.


Oh nós no chão da cozinha e as patacas
todas rotas e os joelhos vergados para o seu esconderijo
e os animais da música a saltitar nos profundos espelhos
luzidios, nos altares conspícuos da alma


As luzes silvestres na manhã louca.


                           Para o Alfredo Ferreiro.

Tudo o que se deveria fazer
em ordem à construção de um novo panteão
seria emudecer.
Mas emudecer não é calar em absoluto.
-Precisamos é levar um bom susto,
perder uma batalha
ou morrer.

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