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Pensamento, crítica e criação em galego-português


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20 Maio 1996    http://www.udc.es/dep/lx/cac/sopirrait     Corunha - Galiza

Pensar o pior (extrato lógico)

Mário J. Herrero Valeiro


          Para torturadores e revolucionários

“Na origem da filosofia trágica, como de toda filosofia, há um desejo -algo no filósofo «que quer» o trágico, como diria Nietzsche. O exame desta «vontade trágica» inerente à intenção terrorista precederá necessariamente à exposição da própria filosofia trágica. Em certos aspectos, e por razões suficientemente analisadas por Nietzsche, é mais rica em ensino do que as perspectivas teóricas às que conduz. Neste caso, o interesse desta psicanálise prévia é duplo: por uma parte, precisar a natureza da intenção terrorista, limpando-a de um certo número de suspeitas inadequadas; por outra parte, afirmar na origem do saber trágico uma intenção de ordem precisamente psicanalítica, ou catártica: o desejo de fazer passar o trágico da inconsciência à consciência (mais exactamente: do silêncio à palavra).”

(Clement Rosset: Logique du pire)


Theoria de morte. Ou apenas pulsão desesperada de vida. Pensar o pior é lógica escassamente estrutural, nem sequer a incerta rede de demências que supõe a paranóia da morte num bairro crematório, nem sequer o rizoma revolução, o esquizóide olhar do assassino, o tremer das minhas mãos agora quando o suor devém tópico ataúde sobre a mentira dos meus dedos. Nem o século desejado das vísceras em guerra. Pensar o pior é uma paródia de lógica, uma pouco formal linguagem da consciência da morte, ponzonha que cresce para adentro infinitamente ramificada, cancro que devora sujeitos, cancro que devora objectos, cancro que devora crânios, cancro que devora todo conceito filosófico, toda ideia estruturada, todo sistema, toda estratégia. Toda potência. Falar da morte como só os mortos têm falado, como nem os mortos poderão falar nunca. Falar do nunca, do nunca falar. Dialectos do nunca na terra, nunca no céu, nunca em ningures, a fala do extraviado, a fala de fora de toda demência. Pensar antes as sombras, antes de se criar os falaciosos candeeiros que são os nossos olhos. Pensar o pior é pensar a cartografia de uma sombra, as suas depressões e as suas montanhas, os seus infinitos vales. Os rios que cruzam os neurônios. Intuir as derrotas que moram nas sombras. Digamo-lo, sim, digamo-lo agora: ser eternamente sombra e pensar cabeça abaixo numa cruz obscura. Pensar o pior é ser o sacrificado ao lado de um Cristo vitorioso, junto a um burguês fazendo-se o sinal da cruz. Pensar o pior é pensar. Saber que o sangue nosso não é nem será vermelho. Porque o nosso sangue é sombra, sombra como os sons que emitimos, como os nossos nuncas e agoras, como os nossos deuses e ídolos, como os nossos pais e assassinos. Ou seja: pensar o pior é uma metáfora da paz. Essa é a conclusão possível. E então pensas o pior porque nem a inconsciência existe, já agora tu só contra o teu próprio poder infinito de desgraça, as mil patas da aranha e o vómito que chamamos medo. Imperador anátema. Agora morro por Deus, morro em Deus porque são dias de sacrifício como me obceco em reiterar nestas infortunadas vésperas de um ontem impossível de apreender, das noites gastadas em vigília de manhãs nunca desejadas dos tempos nunca vividos. A necessidade de nunca viver os dias onde os nossos nervos se tensam e caímos em desgraça, tensão de forças, profundo desejo, morar no deus do sangue e dos rios e dos crânios de um milhão de camboianos massacrados pola inteligência do pai criador, dos filhos, dos netos abortados numa leitura sistemática dos lábios dos cadáveres, dos ánus que movem o coração. Pensar o pior é apenas um elementar exercício de suicídio. Uma demoníaca repetição de um cruzamento cabalístico de diferenças, um número repetido inexoravelmente três vezes, três, os nossos erros, as nossas negações, três vezes, três, a metade dos números da desgraça e da salvação. Pensar o pior é uma cabalística de um cruzamento neuronal, de uma cruz de neurônios isolados, desamparadas na imensidade de um campo de extermínio no inferno africano ou de uma rua corunhesa, de uma Universidade qualquer. Pensar o pior é pensar a cólera. Pensar o cólera que purifica a podrêmia de Ocidente. A paus contra os cadáveres que caminham por ruas de lama e sangue. Nunca ser berlinês, nunca ser bósnio, nunca ser palestino. Ser ruandês, e senti-lo. Ser somali e desejá-lo. Ter as mãos negras e sentir a cólera. Ser um cadáver que caminha. Não ser o tempo, ser um intre de escuridão como todo o lixo que hoje evacuo perante a televisão dos bárbaros adoradores do Deus da peste e a tormenta, da fome e da guerra. Mais uma vez, renego, com o fim do mundo nas minhas mãos. Renego do que vejo porque desconheço o significado do olhar. Renego do que falo porque conheço o seu odioso valor sacro. Renego do que escrevo, porque para nada serve a maldição dos póstumos, porque na escrita está a fonte profunda do cancro devorador. O pensamento do pior é fundamentalmente um metódico, por caótico, exercício de repetição nómada, um exercício de indómito estatismo, de voltar sempre a um centro que nunca é o mesmo. Ou seja, que nunca é Deus nem nome qualquer ao que idolatrar. Criar os conceitos, de brutal significante, que nunca nos preocuparemos em definir, porque essa não é, felizmente, a nossa função como cadáveres pensantes. Porque o nosso discurso simplesmente sangra, sangra como uma fervença virgem, e sangra mais com cada erro, com cada desastrosa demonstração de vitalismo, do imperialismo com que as nossas células progridem em procura de territórios a colonizar, do nosso fascismo fundante. A lógica é obviamente reducionista (Deleuze & Guattari, Que é a filosofia?). Fugimos da fantasia e desejamos a ordem primeira que era a desordem fundamental. Mas o sonho é que nos vence, e então lutamos. E na patética imaginação da luta, achamos a saída da derrota que tem o nome da traição a uma farsa grupal, falaz perversão do fantasma de uma trincheira, fascismos fundos que em forma de merda expulsa a mente que é o nosso intestino. Hoje, nesta lógica do extermínio que é o suicídio teórico, penso o pior um instante, mas já foge, um morto ao minuto, um morto ao minuto. Renego das minhas pernas, renego da minha boca pobre máquina-de-sugar, extirpo o meu intestino máquina-pensante, secciono o meu ánus máquina-deus. Renego. Três vezes três. Máquina primitiva de negação. O número da besta tem dous braços, duas pernas e uma cabeça e é um carrasco com fouce de ouro. Renego, três vezes, três. E uma quarta se for necessária. Pois no exercício da negação tem lugar o supremo exercício do mais lúcido pensamento, o território radical da tragédia. Da tragédia e o medo. Do medo e a escrita que falazmente se imagina vermelha. Da lógica da aniquilação que refuta toda estrutura. Do exercício de batalha contra o totalitarismo burguês e os seus burgueses críticos. Da sintaxe anarquista do desejo de morte. Da semântica libertária que em nós recebe o nome de contradição. De desangrar-se entre Marx e Nietszche, entre o combate e a luta, entre a inútil barricada e a inquestionável supremacia estética das minhas vísceras. Do genocida que eu sou. No mais fundo do meu ser. Pois eu, aristocrata de cemitério, conheço uma tragédia de actos infinitos, dotada de uma liturgia de absurda sintaxe, onde ninguém dorme, onde ninguém dorme ainda que também não ninguém espera a vitória na alva vermelha e preta, quando a batalha finalize, quando ninguém dorme no geriátrico onde os meninhos jogam a deuses. Indubitavelmente, o imaginário que sofremos neste paraíso finisecular não nos oferece muitas possibilidades criativas. Apenas reconheço a superioridade estética de alguma linha de Rimbaud, de algum sintagma, ou antes, de alguma intuição de Hölderlin, de todas e cada uma das páginas de Nietzsche, de algum trópico demasiado humano de Henry Miller, de um verso talvez de Helder, de algum delírio de Panero o filho, de uma linha de Borges, de algum fragmento da parelha Deleuze e Guattari, por cima de tudo do assassínio final do mais ínfimo dos criminais. E bem pouco mais. Não desde logo a infâmia de nós, e vós, os laicos plagiadores, sem deuses ou com heróis, pequenos aprendizes de khemer vermelho, herméticos cabrões, burguesinhos psicóticos ou burguesóides neuróticos, intestinos circulares. Caçadores de cabeças. Paranóicos uns, hipócritas outros. Projectos de assassino todos. Nada afinal, nada. Péssimos jogadores. Malandrinhos patéticos. E mesmo assim intuo que a figura da hipocrisia é fascinante. Como pode fascinar o fascismo. Contudo, penso que a hipocrisia é inimiga do fascismo. A condição hipócrita actua dentro do indivíduo como um mecanismo que tende a purificar a rede de microfascismos que não apenas o cruza em inumeráveis direcções espaciais e temporais, mas que mesmo o constitui como tal; isto é: a individuação do ser humano é basicamente um acto fascista; ou antes, o acto fascista por excelência polo que supõe de extrema negação do resto de infinitas possibilidades constitutivas, do caos supremo à suprema ordem, da inominável multiplicidade até ao maldito uno. A hipocrisia é, então, arma avançada de supervivência e estratégia fundamental de luta contra o discurso homogeneizador da verdade, ou seja, de Deus em qualquer dos seus nomes (e o nome é uma única realidade tangível, isto é, torturadora, pois o significante é o único que permanece e nos lembra a nossa condição de escravos). Não deixa de ser (con)sequência lógica que a hipocrisia seja inimiga primeira dos sacerdotes e da sua sangrenta individuação e ao próprio tempo que aparentemente seja a sua principal arma. Sacerdotes de Deus com qualquer nome. Ou seja: hipocrisia e fascismo vão iniludivelmente unidos, na face de nós (e vós), as ratas e os guerreiros. Assumir a morte (quer-se dizer, a sua total desnecessidade) dos heróis e o carácter póstumo do nosso caminhar pola terra, o sabermo-nos não natos, inimigos de teólogos, inimigos de filósofos, inimigos de todos os inimigos do homem. Repeti-lo-ei até ao final, e não é uma metáfora, é a máxima expressão da realidade, porque doe, doe até aos extremos de cada nervo e de cada pensamento: somos trágicos e vivemos no interior de um forno crematório, esmagados polos excrementos das bestas, polas suas insuportáveis vozes, pola sua consciência de se saberem torturadores, para que se não escutem os nossos silêncios de guerra, carrascos que são sob a aparência de vítimas. São débeis as fronteiras do meu território; são débeis, porque são de óssos e carne, de sangue e de pele. E doe. Doe, doe sempre e em todas partes, doe e doe até à suprema consciência. Afirmo que Nietzsche agora seria incapaz de escrever uma única linha. Afirmo que o seu mutismo não duraria onze anos, duraria toda a sua existência de doente. Assim nos tortura a nossa doença, condenados a escrever eternamente com palavras esquizóides, com palavras escassas sobre a origem do nosso mal, sobre a sua descrição, sobre os seus sintomas, sobre a sua inútil medicação que é a poesia, sobre a sua curação, que é a morte.

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