Celso Álvarez Cáccamo  • Linguística Geral • Depto. de Galego-Português, Francês e Linguística Faculdade de FilologiaUniversidade da Corunha • 15071 Corunha • Galiza • Tel. +34 981 167000 ext. 1888 • Fax +34 981 167151 • lxalvarz@udc.es
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Xosé María
Álvarez Blázquez

 

Processo de Recuperação da Matéria
Celso Alvarez Cáccamo
[17 Novembro 2000]

[Com motivo da retirada da estátua equestre de bronze do General Francisco Franco da cidade de Ferrol, o lugar Vieiros convocou um concurso de ideias sobre o quê fazer com o animal e com o cavalo em que ia montado. Esta foi a minha proposta, que não ganhou.]

     A estátua equestre (ou, antes, a sua Matéria) que foi do General Francisco Franco merece um lugar digno na nossa história e na nossa vida futura. A Matéria deverá voltar com feliz normalidade ao lugar de onde procede, ao património comum, na gozosa perpetuação dos Ciclos naturais que nos nutrem. A presente proposta, chamada Processo de Recuperação da Matéria, conjuga o lúdico e o prático, para o bem comum, da maneira que se expõe. Uma vez conhecido o projecto, espontaneamente deverá surgir apoio para o Processo por parte de organizações e colectivos de base que quiserem (até, talvez, o institucional). Mas em nenhum momento haverá qualquer benefício económico para qualquer pessoa ou colectivo implicados. Todo o nosso Processo, desde a desmontagem da estátua até a inauguração da nova praça, será gravado documental e artisticamente em vídeo e fotografia, sempre por pessoas voluntárias.

     Os singelos princípios reitores do Processo são os seguintes: O bronze da estátua será fundido e recuperado em cerimónias abertas no obradoiro de algum(a) artista ou artistas da zona, em noites de conversas e juntanças colectivas. A Matéria resultante será destinada a dous fins comuns:

     1) Uma parte substancial servirá para a elaboração de pequenas esculturas e outros objectos artísticos e quotidianos de bronze, em cujo desenho participarão tanto artistas quanto qualquer pessoa que deseje contribuir. Não deveria haver qualquer intenção de excesso nesta empresa: simplesmente, um júbilo criativo, isento de grandiloquências ou competitivo esteticismo. Em noites sucessivas, nos obradoiros de escultura, artistas e quaisquer profissionais (fundidores/as, trabalhadores/as de asteleiros, etc.) assistirão à gente na fundição destas esculturas e objectos, em mútuo diálogo constante. Nas fráguas, as pessoas que assim quiserem poderão acrescentar à Matéria em Recuperação aquelas antigas moedas do Estado Espanhol, já fora de circulação, que levavam a mesma efígie que a pessoa da estátua. Poderão assistir grupos de escolares para conhecerem os rudimentos da fundição de metal e da arte de falarmos.

     2) Em eventos semelhantes, outra parte da Matéria será destinada à fundição de singelas potas, tixolas, copos, e outros utensílios de cozinha. Se possível (por exemplo, se se puder separar o cobre), forjarão-se vários barris dos utilizados para ferver polvo à feira.

     3) Simultaneamente, equipas de vídeo-artistas e quaisquer outras pessoas voluntárias ocuparão-se de editar e montar os vídeos e fotografias para a sua projecção, em semelhante diálogo sem fronteiras.

     Quando o Processo de Recuperação da Matéria estiver concluido –os objectos artísticos e úteis de cozinha fundidos, a praça pública arranjada–, em grande Celebração Colectiva, num entardecer tíbio de verão, inaugurarará-se a nova praça com a disposição pública dos objectos fundidos. Alguns permanecerão logo na praça como arte pública, outros poderão ser incorporados a colecções de muséus, salas de arte, licéus ou outros edifícios do nosso país e de qualquer outro vizinho, e ainda haverá uns poucos objectos pequenos destinados para os participantes terem uma pequena memória do evento. Nenhuma placa comemorativa afeará o evento.

     Nessa noite haverá um acto e uma festa sem final preestabelecido, um tépido aquelarre semanticamente primigénio de reconciliação com a terra. Umas poucas palavras da gente involucrada e de quem quiser. Leituras de poemas e outros escritos, que também fazerão parte do Texto colectivo. Música. Comida cozinhada nas potas recuperadas. Bebida servida em grossos vasos inestáveis do metal que já é património de todos. Em visíveis paineis, enquanto a gente por fim fala, se abraça e se reencontra, projectarão-se simultaneamente os vídeos do Processo. A vida deste material tampouco acaba aqui: sem direitos de autor, sem restrições à gravação, cópia ou reprodução, os vídeos deverão ficar acessíveis à colectividade, possivelmente expostos também na Internet com os demais documentos dos nossos actos.

     Nada estará proibido, nem no dizer, nem no actuar. Mas, durante todo o feliz Processo de Recuperação da Matéria, até no calmo júbilo final, que é um começo, a nossa consciência da natureza orgânica do acto e do nosso papel histórico (somos simplesmente braços que a terra projecta para recobrar o nosso) evitará sempre que fagamos menção a esse episódio chamado Triste General Francisco Franco, essa contingência que tão pouco doou à libertação da mente e aos ideais humanos. O seu nome não merece o nosso tempo. Lembremos, por última vez: apenas a Matéria é que nos ocupa, porque é nossa e da terra, sempre o foi e sempre queremos que o seja. Recuperemo-la, recuperemo-nos, mas fagamo-lo sem mitos, sem redenções, sem vingança, sem amargor: sem heróis nem anti-heróis, sem deuses nem dianhos: no convencimento, apenas, da nossa singela e justa procura do prazer e da utopia.


Última alteração: 19-06-2007

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