Celso Álvarez Cáccamo  • Linguística Geral • Depto. de Galego-Português, Francês e Linguística Faculdade de FilologiaUniversidade da Corunha • 15071 Corunha • Galiza • Tel. +34 981 167000 ext. 1888 • Fax +34 981 167151 • lxalvarz@udc.es
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Revista Çopyright

Documentos escritos
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a língua em
Versão Original

Xosé María
Álvarez Blázquez

 

Com as línguas cortadas

Celso Álvarez Cáccamo
[5 Setembro 1994]
[Publicado em Çopyright 10, 30 Julho 1996]

 

UM

     A realidade compõe-se de um número impreciso de mundos concêntricos de verdade e falsidade, todos eles cruzados por frechas de linguagem, o único material que nos resta para exprimirmos a complexidade e o assombro. Onde começarmos é sempre a tarefa mais inumana, quase impia, pois em articularmos um desses espaços de realidade por meio da linguagem ignoramos os outros. Isto é o que me acontece hoje, forçado a converter em território plano de palavras as multíplices dimensões dos signos do social. O quem sou, o quem me defende realmente detrás deste triste discurso, é talvez a questão acessória: o perigo é aceitarmos a estrita limitação do texto, a sua falácia, como se a razão de o texto não nos revelar a verdade fosse simplesmente uma carência nossa, não a carência imanente dos objectos.

     Digo isto porque contemplo dous universos de linguagem superpostos no país que me destinou a história, seja qual for (e é um, ou dous, ou tantos como os poucos leitores que me assistem). Por uma parte, não podo deixar de conceber a fala diária como um balbordo fabuloso, uma tenaz poliglossia à qual ainda não sabemos aceder com instrumentos. Assim, as gentes que em torno de mim habitam formam intrincados concertos de vozes e sotaques que só por mediação das nossas ideologias linguísticas adscrevemos a classes nítidas de falas. Nesse âmbito, o social não tem mais fronteiras do que o seu sistema eco-linguístico próprio. Nesse âmbito os rios tornam-se pontes de palavras, os amplos oceanos barcas de palavras.

     Mas noutro espaço superior o social dilui-se e, no seu lugar, solidificam-se os edifícios tenebrosos dos Estados. Aí a Língua Única circula polos asfixiantes corredores como uma viscosa e obesa fita na que se adere, para morrer, a liberdade. A Língua é a sentinela legítima dos calabouços onde agonizam os proscritos da palavra: os despossuídos, os invisíveis, as vozes sub-alternas que ousaram reclamar a sua própria definição das cousas, os perseguidos por ensinarem a linguagem diferente, os acusados de perturbarem a ordem alfabética.

     Estas duas realidades e mais outras coexistem. Onde situarmo-nos? Do lado dos que falam, ou do lado dos que escrevem? Às vezes me repito relatando que, nalguma cultura cujo nome eludo, saber ler e escrever se diz singelamente saber papel. Dous universos inteiros de gentes e sentidos separam-se por uma finíssima superfície com grafismos. Ali e aqui, a fala ignora alfândegas e valados, pois um réu pode gritar através dos muros da prisão onde se inscreve a crónica da morte, pode enunciar solidário que desejaria derrubar as paredes que encerram o exterior e libertar os que ficaram prisioneiros fora, na cidade. Ali e aqui, polo contrário, a Língua transmite só o discurso sem rosto dos Estados, aquele produzido por consignas em contubérnios metálicos onde se planifica o extermínio. A Língua é a Pátria; a fala é apátrida.

     Mas não soube ainda manifestar o que nos constitui e como nos constituímos na linguagem. Eu próprio, como muitos outros, salto constantemente no diário de um lado para o outro da fronteira da palavra, vou das ruelas da fala até ao presídio da Língua, onde perpetuo também uma dose dada de injustiça. Sei que as gentes falam como um acto, um conforto, uma restituição do seu espoliado lugar entre as cousas; porém, eu presto-me contente a este exercício de ocultação escrita que pouquíssimos agora contemplades. Fago Língua, língua escrita (a que desejo para o meu país, no Norte) enquanto creio conhecer a teimosa missão dos textos por destruírem o que resta do sentido originário. De cada vez me assalta mais a dualidade, não por inumana mas por imanejável dentro de um só sistema de conhecer e de actuar.

 

DOUS

     Moramos em metáforas: a Língua como metáfora, a Pátria como metáfora. Ambas suprem as suas noções paralelas (falas e povo) em aliança contra a emancipação humana. Ambas, Língua e Pátria, são os emblemas avançados dos reinos imperiais; porém, ambas articulam também alguma forma de resistência. O argumento mais singelo, mais empregado e mais falso é derrotá-las (derrotar a Língua, derrotar a Pátria) pola sua incapacidade de explicarem a realidade das acções humanas. Mas com este proceder ignora-se o próprio poder transformador de ambas metáforas. Como qualquer noção, "Língua" e "Pátria" revolvem-se nos multíplices campos discursivos, onde são negociadas, apropriadas e ré-apropriadas por grupos sociais tangíveis. O potencial criativo dos construtos teóricos -e mais os metafóricos- reside em eles serem maleáveis, em serem dóceis para se prestarem ao jogo dos saberes. Por isso qualquer crítica global à "Língua" e à "Pátria" está limitada desde as origens por prescindir do seu sentido de uso. Ainda como metáforas, há Línguas plurais e Pátrias plurais, simultâneas no território e no discurso.

     Onde situar-nos? Um sabe que está condenado a exercer em Língua o que concebe em fala, e que o mais miúdo dos seus actos está inscrito num espaço nacional figurado -imaginado por meio da poderosa convocatória da escrita- mas ao próprio tempo real por estar constituído por actores sociais. Numa sorte de divórcio, o eu que escreve ri-se no rosto do eu que fala: a pessoa desdobra-se em súbdito e sujeito. Onde situar-nos, quem sermos realmente?

     Nem sequer vale argumentar que o falante e o escrevente coexistem na mesma pessoa, no mesmo agente. As relações entre o eu que fala e o que escreve são mais complexas do que o nosso aparato de análise. Desdobramento, combate, resistência interna, são outras três metáforas que apontam para o nosso actuar social através e ao longo da linguagem. Quem não resiste contra si próprio fará textos perfeitos, anódinos, e terá assim assegurada uma coroa de louros ressecos e um solene trono no centro do Discurso ("Não desejeis, poetas, coroas de louros / ou outras, ainda que singelas, sobre as frontes, / porque são frágeis as folhas, cedo secam"). Porém, quem se resiste e escinde, e reconhece nisto o duro trâmite, deixará abertas as fendas do seu texto para que o seu texto se negue e seja negado: um texto sujo, imperfeito, a única possibilidade de roçar as bordas da verdade.

 

TRÊS

     Só se luta nas margens.

     No centro mora o monstro do perfeito, com sete braços e sete bocas de palavras que todos entendemos. Avonda com escutarmos à noite os engenhos mecánicos que povoam o nosso living room, o nosso quarto de vivermos em impossível diálogo contra rostos perfeitamente rasurados e ausentes. A magia redonda do discurso impõe-se na voz dos Eloquentes, filhos reconstrutores de um império que nunca tem cessado, porque nós -quase todos os mudos- temos perdido já várias lutas contra o grande Monstro monolíngue que esconde sempre sob a pele um uniforme.

     Só se luta nas margens: nos espaços sociais onde encarceram alguém por queimar uma bandeira, nos obsessos mapas inscritos nas paredes de uma cela, nas convocatórias de turvos desencontros gravadas nas latrinas suburbanas onde se injectam anomia os drogados. Só nesses restos de papel e penitência o Texto se rebela contra si próprio e transgride a distância entre a Língua e a fala, estoura num universo ágrafo fora do alcance dos mal iluminados.

     Na medida em que estivermos dispostos a descer às tobeiras negras da linguagem e arriscar-nos a perder o sentido do diário, o malfadado seny, o Critério que nos rege, seremos capazes de colher o texto polas bordas, enrugá-lo com ira como uma inútil floração resseca, e ficar logo com a prazenteira sensação de sujarmos com ele o chão para os letrados varredores continuarem o Ciclo da Língua, em cujo centro reluzem olhos triangulares.

 

QUATRO

     O pior de dar-lhe volta à folha é confirmar outra vez que por detrás dela não há absolutamente nada. Decido acabar e constato horrorizado que quase não há citas, citações a autores para declararem na minha defesa, eu não fiz quase nenhum sequestro de palavras. Não convoquei nomes próprios, nem falei dos nossos países, nem das linguagens comuns que atravessam este Oeste que é um Sul, nem do dever histórico que temos de exibir publicamente as nossas línguas cortadas, de misturá-las sem piedade, de invadi-las.

     Por isso o meu texto talvez for infrutuoso. Eu estive a percorrer um território plano de palavras na procura de um final, ilusionado, só para que, logo de vós cerrardes esta página, a minha imagenzinha durma escura e sem respirar e sem continuidade junto aos escritos de outros consentidos.

     E nem sequer sei junto a quem me tocará dormir nesta jornada.


Última alteração: 19-06-2007

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